

Foi num bate-papo sobre Inteligência Artificial que perdi o medo de que ela vá dominar o mundo. Ainda acho que ela vai desestimular a autoria, pois tem acesso a todos os artistas e é capaz de escrever livros, pintar quadros e compor músicas.
E como a arte comporta algum grau de plágio, Shakespeare que o diga, a IA pode plagiar tudo. A escrita é sempre a repetição de um gesto anterior, um tecido de citações vindas de outros textos, nunca algo totalmente original, dizia Roland Barthes. Não sei se é assim, mas se for, a IA será imbatível na criação.
Pode, é verdade, surgir um artista originalíssimo, pois há sempre um Picasso espreitando o mundo da arte, mas logo a IA vai absorver essa originalidade e de posse dela, ser mais original ainda.
E existe ainda uma questão: que vontade teria o homem de criar num mundo em que a IA faz tudo melhor que ele? O autor poderia ser tomado por uma aporia de originalidade, um esgotamento estético, não pelo fato de que tudo já foi feito, mas de que tudo pode ser feito melhor pela IA.
Mas a discussão evoluiu para a possibilidade da IA dominar o mundo. Foi quando, achando que estava no controle de tudo, eu disse à plateia: A IA não vai dominar o mundo porque basta desligá-la da tomada e toda sua inteligência desaparece. E ela precisa de imensas quantidades de energia e água para mover os data centers que a fazem funcionar. Desligou, parou!
O único sistema de inteligência autônoma que não precisa de energia externa, a não ser os alimentos, é o cérebro humano. E, ao dizer isso, senti uma espécie de soberba, afinal, o controle estaria sempre com os humanos. Foi quando um jovem indagou: e a singularidade?
A singularidade é um momento em que as leis da física deixam de funcionar e é impossível prever o que acontece depois desse ponto. A singularidade no universo da IA é o momento em que ela supera a inteligência humana em todas as áreas e, ultrapassado esse momento, ninguém sabe o que acontecerá. Surge a superinteligência artificial e ela poderá dominar o mundo e talvez não seja mais possível puxar a tomada.
Dizem-me que a salvação seria uma singularidade maior: a implantação de um chip de IA no cérebro. E sou informado de que existem muitas empresas estudando como integrar o cérebro em nível molecular ou sináptico com a IA, em busca do transhumanismo, da interface cérebro-máquina. Meu Deus! Isso seria a transformação do ser humano em uma espécie híbrida, um ciborgue.
Perdoe-me, leitor, mas vou ter de parar por aqui. De repente, dois cenários desenharam-se em meu cérebro. Num deles estava a serpente, no Éden, a dizer a Eva que ela não morreria se comesse o fruto da árvore do conhecimento, pelo contrário: “No dia em que dele comerdes, sereis como Deus”.
No outro estava Nietzsche perguntando, após dizer que Deus estava morto: “Não devemos nós mesmos tornar-nos deuses, para parecermos dignos disso?”
Publicado no Jornal A Tarde de 04/09/2026