

(Continuação do artigo anterior)
Investimentos em ativos fixos e capital de giro – Para um projeto integrado de mineração, concentração e produção de óxidos separados, os investimentos em ativos fixos poderiam situar-se, em uma estimativa preliminar, aproximadamente R$ 2,6 bilhões, dependendo da localização, escala e nível de integração.
A composição aproximada do investimento seria: a) 20% a 25% para desenvolvimento da mina, equipamentos móveis e infraestrutura; b) 15% a 20% para britagem, moagem e concentração; c) 30% a 40% para a planta química de abertura, lixiviação e separação; d) 10% a 15% para utilidades, energia, água, laboratório e tratamento de efluentes; e)
10% a 15% para engenharia, licenciamento, contingências e capitalização durante a implantação.
Além desses valores, seria necessário constituir capital de giro de cerca de R$ 300 milhões. Esse recurso financiaria estoques de minério, concentrados, reagentes, produtos intermediários, peças de reposição e produtos acabados, além do prazo de recebimento concedido aos clientes. Como as terras raras são negociadas em mercados sujeitos a oscilações, a política de estoques e os contratos de venda devem ser cuidadosamente planejados.
O principal segmento de crescimento é o dos ímãs permanentes de alto desempenho, utilizados em motores de veículos elétricos, geradores eólicos, robótica, automação industrial, discos rígidos e equipamentos médicos. Neodímio e praseodímio são os elementos mais importantes nesse mercado, enquanto disprósio e térbio podem melhorar a resistência dos ímãs a altas temperaturas.
O lantânio e o cério são utilizados em catalisadores automotivos, refino de petróleo, polimento de vidros e cerâmicas. O ítrio possui aplicações em lasers, cerâmicas técnicas e materiais de alta resistência térmica. Outros elementos podem ser destinados à indústria óptica, iluminação, baterias, sensores e equipamentos de defesa. A localização próxima a portos, ferrovias e centros industriais também seria decisiva para a competitividade.
Estimativa de resultados e rentabilidade – Considerando um projeto capaz de produzir aproximadamente 2.000 a 2.200 toneladas anuais de óxidos de terras raras, uma receita bruta anual de cerca de R$ 650 milhões seria uma faixa plausível para um cenário de preços médios, composição favorável do produto e operação estabilizada. O faturamento dependeria principalmente da participação de neodímio, praseodímio, disprósio e térbio no concentrado.
Os custos operacionais poderiam ser cerca de R$ 450 milhões por ano, incluindo lavra, energia, reagentes, manutenção, pessoal, disposição de rejeitos, logística, controle ambiental e despesas administrativas. Nesse cenário, o EBITDA poderia situar-se em torno de R$ 190 milhões anuais, equivalente a uma margem operacional de 22% a 32%.
Depois de depreciação, despesas financeiras, impostos e manutenção dos ativos, o lucro líquido poderia alcançar cerca de R$ 110 milhões por ano. O prazo de retorno do investimento ficaria, em condições normais, entre oito e doze anos. A taxa interna de retorno poderia variar de aproximadamente 10% a 18%, sendo maior em projetos com elevada concentração de neodímio-praseodímio, baixo consumo de reagentes, recuperação metalúrgica eficiente e contratos de venda antecipada.
Essas estimativas são indicativas e não substituem estudos de viabilidade, testes metalúrgicos, avaliação ambiental, engenharia básica e análise de mercado. Uma queda prolongada nos preços internacionais, atrasos no licenciamento, aumento dos custos de energia ou dificuldades na separação química poderiam reduzir substancialmente a rentabilidade. Em contrapartida, a produção de ímãs e ligas no Brasil elevaria o valor agregado e poderia melhorar os resultados, embora também aumentasse o investimento e o risco tecnológico.
Assim, o aproveitamento das terras raras brasileiras deve ser planejado como um projeto industrial integrado, e não apenas como uma operação de exportação de minério. A combinação entre mineração responsável, domínio tecnológico, produção de óxidos separados, contratos comerciais e desenvolvimento de aplicações industriais poderá transformar recursos minerais em uma plataforma estratégica para a transição energética e para a industrialização do país.
Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.)