quinta, 20 de agosto de 2026
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ARMANDO AVENA – OS JUROS ESTÃO QUEBRANDO AS EMPRESAS BRASILEIRAS

Redação - 20/08/2026 06:59 - Atualizado 20/08/2026

Os juros estão quebrando as empresas brasileiras e o pedido de recuperação judicial do grupo Casas Bahia é o símbolo disso.  O número de empresas do varejo em recuperação judicial cresceu 20,4% em 12 meses e chegou a quase 1000 empresas no primeiro semestre de 2026. A Casas Bahia afirmou que enfrentou juros elevados, restrição ao crédito, aumento dos custos financeiros e queda no consumo, fatores que reduziram sua capacidade de gerar caixa.

O cenário de queda no consumo e elevação do custo financeiro é resultado da política monetária excessivamente restritiva. A taxa Selic chegou a 13% em janeiro de 2024; em janeiro de 2025 estava em 15%; e, este mês, caiu para 14%. São mais de 2 anos de juros exorbitantes e é difícil para uma empresa que não trabalha exclusivamente com recursos próprios sobreviver no mercado, especialmente porque na ponta, com os super spreads e a intermediação financeira, a taxa de juros atinge patamares muito mais elevados.

A alta taxa de juros também reduz a demanda por bens e serviços, pois o  crédito para pessoa física chega a patamares absurdos, superiores a 400% ao ano no cheque especial e no cartão de crédito e a 100% em algumas modalidades de  crédito pessoal. O resultado é que cerca de 80% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo a Confederação Nacional do Comércio. E o peso do serviço da dívida para essas famílias é muito alto.  Com isso, há menos crédito, maior comprometimento da renda, menor consumo e, consequentemente, menor faturamento das empresas.

As empresas brasileiras, especialmente no varejo, estão no pior dos mundos. De um lado, as vendas são pressionadas pela redução da capacidade de consumo das famílias. De outro, as empresas enfrentam um custo financeiro altíssimo justamente quando precisam de crédito para financiar seu capital de giro. Menos vendas significam menos geração de caixa; menos caixa aumenta a necessidade de financiamento; financiamento mais caro aumenta as despesas financeiras; e o aumento das despesas financeiras reduz ainda mais a capacidade de geração de caixa. Forma-se um ciclo perverso que transforma um problema de liquidez em uma crise de solvência.

No Brasil, as empresas de varejo só sobrevivem se forem também empresas financeiras. As grandes empresas passaram a depender cada vez mais da atividade financeira acoplada ao comércio para sustentar suas operações. O crédito deixou de ser um instrumento auxiliar do varejo e passou a fazer parte do próprio modelo de negócios.

E, para completar, as empresas precisam competir com o e-commerce, com gigantes internacionais que operam com estruturas de custos e modelos de negócio muito diferentes dos do varejo tradicional, e com acesso a juros baixos nos seus países de origem.

Isso está acontecendo porque o Banco Central brasileiro vem administrando de forma temerária a política monetária, seja por erro teórico ou por influência do mercado financeiro. Ao que parece, os economistas do Banco Central assistiram na faculdade de economia a aula que coloca a taxa de juros como o principal instrumento no combate à inflação, mas filaram a aula seguinte mostrando que esse instrumento não pode ser usado em patamar muito elevado por um período muito longo.

 Juros excessivamente altos por tempo prolongado encarece o capital de giro, desestimula investimentos, reduz a demanda, aumenta o custo do endividamento das famílias e das empresas e transfere uma parcela crescente da renda da economia para o pagamento de juros. O Brasil está transferindo renda do mercado produtivo para o mercado financeiro.

O Banco Central precisa avaliar o custo econômico de sua política.  Se o atual processo de redução da Selic continuar em ritmo de apenas 0,25% por reunião, e se a inflação permanecer próxima das projeções atuais, o país chegará ao final de 2027 com juros reais de 7%, um nível muito elevado para uma economia que necessita aumentar o investimentos, ampliar o consumo e reduzir o custo do crédito.

O Banco Central  precisa cotejar sua atuação com outros bancos centrais ao redor do mundo nos quais, para inflação semelhante, se pratica juros muito menores. Precisa aprender a usar outros instrumentos de política monetária e agir juntamente com o governo para reduzir o spread bancário. E ter consciência de que a política monetária não pode ser utilizada como instrumento para resolver sozinha problemas fiscais, estruturais e financeiros

No Brasil, a taxa de juros deixou de ser apenas uma variável macroeconômica e passou a determinar a sobrevivência de empresas, o nível de emprego, a capacidade de consumo das famílias e o ritmo de crescimento da economia.

         O BRASIL SUBMETIDO AOS JUROS

Juros altos demais por tempo prolongado fazem o país transferir renda do setor produtivo para o setor financeiro. E fortalecem a posição dos grandes bancos e das instituições financeiras que operam e carregam títulos da dívida pública. Em 2025, os juros nominais acrescentaram quase 8 pontos percentuais do PIB à dívida, e a relação Dívida/PIB só não subiu mais porque o crescimento nominal do PIB compensou. É o juro que faz a dívida crescer, não é só o fiscal. Mas o mercado financeiro encontra a narrativa perfeita: a dívida está crescendo porque existem problemas na área fiscal. E para financiar a dívida, será necessário pagar juros ainda maiores. E o ciclo dos juros altos se mantém.

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