segunda, 27 de julho de 2026
Euro Dólar

NOS TRILHOS DO FUTURO: COMO O VLT REDESENHA A MOBILIDADE DE ÁREAS HISTORICAMENTE NEGLIGENCIADAS DE SALVADOR

Bruna Carvalho - 22/07/2026 09:44 - Atualizado 27/07/2026

Durante mais de um século, os trilhos moldaram o crescimento do Subúrbio Ferroviário de Salvador. Ao redor deles nasceram bairros, cresceram comunidades, surgiram pequenos comércios e milhares de trabalhadores construíram suas rotinas entre os bairros da Calçada e Paripe. Quando o último trem do Subúrbio encerrou sua viagem, em fevereiro de 2021, terminou também um capítulo da história da mobilidade da capital baiana.

Quatro anos depois, os trilhos voltam a ganhar vida, agora para conduzir um projeto que pretende ir além do transporte de passageiros. Com investimento estimado em R$5,4 bilhões, o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) desponta como a maior intervenção urbana realizada no território desde a implantação da ferrovia no século XIX.

Ademais, as obras do VLT de Salvador e da Região Metropolitana (RMS) trazem em seu escopo propostas de melhoria urbana, ambiental e social como os parques lineares, as obras de macrodrenagem e recuperação de áreas degradadas, equipamentos de lazer e unidades de beneficiamento para marisqueiras, que reposicionam o Subúrbio Ferroviário no mapa dos investimentos urbanos de Salvador.

Uma cidade em transformação
Embora o Trem do Subúrbio tenha sido desativado em 2021, a ordem de serviço para o início das obras do VLT só foi assinada em junho de 2024. O novo sistema terá cerca de 43,7 quilômetros de extensão, mais que o triplo dos 13,5 quilômetros do antigo trem, distribuídos em 50 paradas ao longo de três trechos.

Cada composição contará com sete vagões e capacidade para transportar cerca de 400 passageiros, enquanto a demanda projetada varia entre 100 mil e 150 mil usuários por dia quando toda a operação estiver concluída.

Nos últimos anos de funcionamento, o antigo Trem do Subúrbio atendia menos de 1% dos passageiros do transporte público de Salvador. Em 2016, transportava cerca de 17 mil usuários por dia, número bem inferior aos aproximadamente 30 mil registrados em períodos anteriores, reflexo da redução da frota, do aumento do intervalo entre viagens e da perda de competitividade frente a outros modais.

A execução do VLT foi dividida em três etapas:

  • Lote 1: Calçada/Comércio – Ilha de São João;
  • Lote 2: Paripe – Águas Claras;
  • Lote 3: Águas Claras – Bairro da Paz, com expansão planejada até Piatã.

Foto: CTB

Atualmente, o Lote 1 alcançou cerca de 75% de execução, enquanto o Lote 2 ultrapassa 50%. Segundo a Companhia de Transportes do Estado da Bahia (CTB), a expectativa é concluir o primeiro trecho em 2027 e avançar gradualmente para as etapas seguintes.

Em entrevista ao portal Bahia Econômica, o presidente da CTB, Eracy Lafuente, detalha o cronograma previsto.

“A pretensão é terminar o Lote 1 ainda em 2027. Já em 2028 está prevista a finalização da Estrada do Derba e a conexão dos trilhos em direção ao Lote 1. Entre o final de 2028 e início de 2029, esperamos chegar até Piatã”, revela.

Em relação ao Lote 3, a pasta aguarda a assinatura da ordem de serviço, que deve sair ainda neste mês de julho, como detalhou Eracy, para iniciar a expansão do transporte.

Além da expansão prevista no plano original, a CTB trabalha em novos estudos para ampliar o alcance da malha. Um deles prevê a extensão do VLT até a Ribeira, na Cidade Baixa, região que hoje depende exclusivamente dos ônibus urbanos. Outro projeto em licitação pretende conectar a Baixa do Fiscal à Estação Retiro do metrô, passando pelo Largo do Tanque e por San Martin.

“Estamos licitando o VLT da Baixa do Fiscal até a estação Retiro do metrô. Também esperamos concluir ainda este ano os estudos para levá-lo até a Ribeira”, afirma Eracy.

Muito além dos trilhos

Quando os primeiros passageiros embarcarem no VLT de Salvador, não encontrarão apenas uma nova modalidade de transporte. Ao longo dos 43,7 quilômetros do traçado, os trilhos dividirão espaço com praças, ciclovias, parques lineares, equipamentos esportivos, obras de drenagem e áreas ambientais recuperadas. A proposta do Governo da Bahia é transformar o corredor ferroviário em um eixo de requalificação urbana capaz de modificar a paisagem e a dinâmica social do Subúrbio Ferroviário.

Ao contrário do antigo trem, cuja função se restringia ao deslocamento de passageiros, o VLT foi concebido como um empreendimento integrado de locomoção, urbanização e recuperação ambiental. Conforme a CTB, as ações incluem a criação de espaços públicos de convivência, novos acessos para pedestres e ciclistas, contenção de alagamentos, recuperação de áreas degradadas e incentivo à economia local.

Estão previstas praças, quadras esportivas, parques infantis, academias ao ar livre e áreas de convivência e equipamentos voltados à geração de renda para comunidades tradicionais, como a recém inaugurada unidade de beneficiamento destinada às marisqueiras da região.

Foto: Thuane Maria/ GOVBA

Entre as intervenções de maior impacto está a inauguração do Salvador Skatepark, em Praia Grande. Com cerca de 15 mil metros quadrados, o complexo vai atender diferentes modalidades do skate, como competições nacionais e internacionais e recebeu certificação internacional da World Skate, entidade responsável pelo esporte olímpico, inserindo Salvador no circuito de grandes eventos da modalidade.

Foto: Feijão Almeida/GOVBA

As mudanças, entretanto, não se limitam aos equipamentos urbanos. Parte significativa dos investimentos está concentrada em obras de infraestrutura capazes de resolver problemas históricos dos entornos, como a implantação de sistemas de macrodrenagem para reduzir alagamentos e melhorar o escoamento das águas pluviais em bairros do Subúrbio e da Cidade Baixa.

Foto: Divulgação CTB

O componente ambiental também ocupa papel estratégico no empreendimento. Um dos planejamentos prevê a recuperação de aproximadamente três quilômetros de manguezais, entre o Lobato e a Enseada do Cabrito, área considerada um dos principais berçários naturais da Baía de Todos-os-Santos.

Para Eracy, trata-se de uma melhoria sem precedentes na capital baiana.

“Estamos fazendo um enorme esforço de recuperação. Quando foi feito, em Salvador, um plantio de manguezal dessa dimensão?”, questiona.

Além de contribuir para a preservação da biodiversidade e para a proteção da costa contra processos erosivos, a recuperação do manguezal busca devolver visibilidade a uma paisagem historicamente negligenciada.

“Estamos gerando valor para um paraíso que já existia e que não recebia o devido valor”, explica Eracy.

 

Os desafios de uma obra que muda a cidade

Grandes obras de infraestrutura costumam ser lembradas pelos benefícios que prometem entregar. Antes da inauguração, porém, elas reorganizam o cotidiano das cidades. Máquinas substituem o fluxo de veículos, ruas são interditadas, rotas precisam ser alteradas e imóveis dão lugar aos canteiros de obras. Com o VLT de Salvador e da RMS, não foi diferente.

Desde o início das intervenções, o avanço dos três lotes provocou mudanças na mobilidade de diferentes regiões da capital. A instalação do novo traçado exigiu interdições temporárias de vias na Calçada, São Joaquim, Plataforma, Estrada do Derba, Águas Claras e em trechos próximos à BR-324. Em muitos casos, os bloqueios ocorreram em etapas para reduzir os impactos sobre moradores, comerciantes e usuários do transporte público, mas alteraram significativamente a rotina de quem vive e circula por estes locais.

Paralelamente, isso demandou a desapropriação de áreas destinadas à inserção dos trilhos, estações, viadutos, pátios operacionais e obras complementares.

Um levantamento realizado pela reportagem, com base em decretos, publicados no Diário Oficial da União, e reportagens publicadas entre 2024 e 2026, identificou pelo menos 470 mil metros quadrados declarados de utilidade pública, distribuídas por 19 localidades ao longo do traçado do empreendimento.

Apesar da dimensão das intervenções, a CTB não divulga um balanço consolidado sobre o número de imóveis desapropriados, famílias atingidas ou valores pagos em indenizações.

Foto: Reprodução/TV Bahia

Foi uma dessas desapropriações que mudou a vida de um morador local, Erivaldo Ferreira, de 30 anos. Nascido e criado em Itacaranha, ele viu desaparecer, ao mesmo tempo, a casa onde vivia e o estabelecimento comercial que garantia o sustento da família há 40 anos.

“Aqui tínhamos nossa moradia e também nosso comércio, de onde tirávamos nosso sustento diariamente”, conta.

Segundo ele, a notícia da desapropriação foi recebida com surpresa. Em reuniões anteriores, a sua família havia sido informada de que aquele imóvel não seria atingido pelas obras.

“Foi uma grande surpresa. Já tinham acontecido reuniões dizendo que nossa casa e nosso estabelecimento não seriam desapropriados. Depois disseram que o projeto havia mudado”, relata o morador.

Erivaldo também afirma que a negociação da indenização foi marcada por insatisfação. Para ele, a primeira proposta apresentada pelo Estado ficou abaixo da expectativa da família e havia a possibilidade de judicialização caso não houvesse acordo.

 

Foto: Reprodução/Bnews

A indenização permitiu apenas a compra de uma nova residência. O comércio, entretanto, não voltou a funcionar.

“Conseguimos comprar uma casa para morar, mas o comércio teve que fechar. Hoje estamos correndo atrás de outras formas de renda”, expôs.

Mesmo após perder a principal fonte de sustento da família, Erivaldo evita tratar a obra apenas sob a perspectiva do prejuízo pessoal. Para ele, o novo meio de transporte poderá representar uma oportunidade histórica de desenvolvimento para o Subúrbio, desde que os investimentos sejam acompanhados de políticas permanentes de conservação e valorização do território.

“Vai trazer benefício sim, se a comunidade souber cuidar do espaço novo que vai ser construído. Também vai dar muito mais visibilidade para a nossa Suburbana, que tem paisagens lindas”, afirma o morador.

Ao refletir sobre as perdas e os ganhos, sua avaliação revela a complexidade que acompanha grandes remodelações urbanas.

“Para mim, vale e não vale. Para quem só tinha moradia, foi bom. Mas, para quem tinha o estabelecimento e a fonte de renda, foi ruim”, reflete Erivaldo.

Para muitos moradores do Subúrbio Ferroviário, a expectativa é que os benefícios prometidos pelo VLT se confirmem nos próximos anos. Até lá, histórias como a de Erivaldo lembram que grandes obras públicas não são feitas apenas de concreto, aço e cronogramas, mas também de escolhas que modificam a vida de quem vive ao seu entorno.

 

Mobilidade que conecta territórios

Durante décadas, o Trem do Subúrbio foi um modal praticamente isolado. Embora cumprisse um importante papel social ao ligar a Calçada a Paripe, a integração com outros modais era limitada, obrigando milhares de passageiros a completar seus deslocamentos em ônibus ou longas caminhadas até outros pontos da cidade.

O VLT nasce com uma proposta diferente da antiga ferrovia: integrar metrô, ônibus, ferry-boat e transporte metropolitano em um único corredor de motilidade. A principal conexão ocorrerá em Águas Claras, onde o sistema se ligará ao metrô, ao terminal rodoviário e aos ônibus urbanos e metropolitanos. No outro extremo, a integração com o Terminal São Joaquim facilitará os deslocamentos de passageiros do ferry-boat.

As conexões ferroviárias e hidroviárias serão integradas às redes de ônibus  urbanos e metropolitanos. Terminais e pontos de parada deverão reorganizar o fluxo de passageiros e reduzir a dependência de longos percursos realizados exclusivamente por ônibus.

Para o presidente da CTB essa integração representa uma mudança estrutural na mobilidade da capital.

“Hoje, quem mora no Subúrbio muitas vezes precisa utilizar dois ou três transportes para chegar ao destino. O VLT foi pensado para integrar esses deslocamentos e reduzir o tempo de viagem”, esclarece.

A expectativa do Governo da Bahia é que essa articulação também amplie o acesso da população aos serviços públicos e fortaleça a circulação de trabalhadores, estudantes e turistas entre diferentes regiões da capital.

 

O futuro começa antes da inauguração

A inauguração oficial do VLT ainda depende da conclusão das obras dos três lotes, entretanto este já entrou em uma etapa considerada decisiva: a operação assistida. Nessa fase, os trens circulam com passageiros em condições controladas, permitindo que a CTB avalie o desempenho da infraestrutura, dos equipamentos, dos sistemas de energia, sinalização e operação, além de familiarizar a população com o novo meio de transporte.

A operação assistida começou no dia 29 de junho entre a Calçada e o Lobato, com uma viagem inaugural acompanhada pelo governador Jerônimo Rodrigues. O percurso inicial tem por volta de quatro quilômetros e inclui as paradas São Joaquim, Calçada 2, Estação Calçada, Pátio Calçada, Santa Luzia, Lobato e Marisqueiras.

Nessa etapa, o serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h, sem cobrança de tarifa, permitindo ajustes técnicos antes da operação comercial.

Foto: Divulgação/Leo Melo

De acordo com a CTB, a operação assistida será ampliada à medida que novos trechos forem concluídos. A expectativa é que cada etapa passe por testes operacionais antes de ser incorporada a operação comercial, reduzindo riscos e permitindo correções técnicas ao longo da implantação.

Próximo embarque 

Ainda não há operação comercial em toda a extensão prevista. Os trilhos continuam avançando, canteiros permanecem abertos e máquinas seguem em atividade. Mas, ao colocar novamente um trem em circulação no Subúrbio Ferroviário, Salvador inicia um novo capítulo de sua história. Antes mesmo da inauguração definitiva, o VLT já altera a paisagem, reorganiza deslocamentos e reacende expectativas em uma região que nasceu ao redor da ferrovia e que, mais de um século depois, volta a olhar para os trilhos como caminho para o futuro.

 

Foto: Joá Souza/GOVBA

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.