

Bahia Econômica – A guerra dos EUA e Israel contra o Irã fez os preços do barril de petróleo dispararem. Como isso afeta a indústria baiana, que tem um forte componente vinculado a óleo e gás?
Carlos Henrique – A guerra afeta a indústria da Bahia em vários aspectos. A elevação dos preços do petróleo, que resulta na alta dos combustíveis, encarece o custo do transporte para a indústria na Bahia. Existem vários ramos da indústria que são afetados. Dentre eles, citamos a questão do petróleo e a Acelen; a questão dos fertilizantes e a Fafen; e a indústria petroquímica, com a Braskem, dentre outras. Na indústria petroquímica, por exemplo, o que podemos observar é a questão da nafta, que atualmente ficou mais cara que o petróleo e é um elemento essencial para a Braskem. Então, essa guerra tem afetado a economia industrial em todo o Brasil e na Bahia também.
Bahia Econômica – A indústria baiana atravessa um momento difícil, com o setor petroquímico enfrentando dificuldades para competir no mercado internacional. O Congresso aprovou um projeto de lei complementar que institui um regime tributário de transição para a indústria química e petroquímica em 2026, com um incentivo maior. Isso resolve? A guerra pode abrir mercados para as empresas baianas?
Carlos Henrique – Esse regime tributário foi uma reivindicação nossa, também do setor industrial. É um projeto que atendia bem as demandas do momento em que foi aprovado, mas hoje em dia o setor enfrenta dificuldades pois o regime já não é suficiente. A FIEB tem dialogado muito com o governo sobre esse momento e esse novo regime e buscado algumas alternativas para o cenário atual. Com a alta do preço do preço do petróleo, a indústria petroquímica é uma das mais afetadas. Na Bahia a Acelen, por exemplo, precisa comprar o petróleo de fora e isso acaba onerando muito os custos.
Bahia Econômica – A Bahia possui um dos maiores potenciais do país em energia solar e eólica, e muitas empresas estão investindo. Como o senhor avalia esse setor, tanto do ponto de vista da produção quanto da transição energética?
Carlos Henrique – Estamos falando de um dos setores mais importantes para a indústria da Bahia. A energia solar e a energia eólica são grandes potenciais que o estado tem, porém é preciso uma rede de transmissão com melhor estrutura. A energia solar, por exemplo, tem uma geração de duplo valor: tanto pelo seu potencial verde quanto pelo potencial de geração de energia. Por isso, a FIEB sempre defende políticas públicas que possam criar uma melhor rede e infraestrutura para o setor.
Bahia Econômica – Em relação à infraestrutura, que desafios a Bahia enfrenta no sentido de viabilizar um ambiente logístico mais amigável ao setor industrial?
Carlos Henrique – Existem vários pontos que podem ser destacados aqui. Na minha avaliação, o principal deles é a questão das ferrovias. Nós temos dois projetos vitais para a indústria da Bahia praticamente parados: a FIOL e a FCA. A entrada de investimentos na parte da Bahia no que tange à nova concessão da FCA foi um ponto muito positivo, e esperamos que esse trecho da ferrovia passe por melhorias. Essas ferrovias vão resolver gargalos fundamentais para o desenvolvimento da indústria no estado.
Bahia Econômica – O senhor acredita que a ponte Salvador–Itaparica pode ser um vetor de crescimento para a economia baiana?
Carlos Henrique – A ponte seria uma dessas obras de infraestrutura que ajudariam a indústria no estado. Precisamos destacar que o projeto da Ponte Salvador–Itaparica, na sua PPP, não inclui obras estruturantes necessárias para o complexo viário do oeste. Ou seja, a PPP contempla a ponte e a estrada na ilha. Precisamos de obras como a interligação com as BRs 242 e 101, a duplicação da Ponte do Funil, dentre outras obras que, interligadas ao projeto da ponte, irão transformar o setor industrial e agrário no estado. Começar a ponte é fundamental, mas destacamos que, além dela, o projeto precisa de outros pontos.
Bahia Econômica – A economia baiana é muito maior do que as economias de Pernambuco e Ceará em volume de PIB, assim como o setor industrial. Mas muitos analistas dizem que a indústria baiana é focada em grandes empresas e em commodities, enquanto as cearenses e pernambucanas são voltadas a setores mais intensivos em mão de obra, com mais impacto na geração de emprego. Como o senhor vê essa questão?
Carlos Henrique – Cada estado tem sua força. Nessa questão de commodities, por exemplo, a Bahia é forte; no setor têxtil, o Ceará se destaca mais, mesmo com a Bahia produzindo 20% do algodão do Brasil. Aqui chegamos a um ponto importante: a FIEB defende o fortalecimento da cadeia de produção de insumos como elemento fortalecedor da indústria. Nós entendemos que, quanto mais nossa indústria de insumos for forte e menor for a dependência do mercado externo, menos vulneráveis estaremos a questões externas. Mas, sem comparar com a indústria do Ceará ou de qualquer outro estado, entendemos que temos na Bahia indústrias intensivas em mão de obra, como a petroquímica, a energia verde, dentre outras, que são muito atrativas para o mercado de trabalho.
Bahia Econômica – A Universidade SENAI Cimatec lançou o Instituto de Estudos Avançados, dedicado à pesquisa interdisciplinar sobre transformação digital e sustentabilidade, além de uma nova Business School. Como essas iniciativas ajudam a Bahia e o setor industrial?
Carlos Henrique – Esse projeto de Business School visa fortalecer a governança econômica no estado. Nós temos vários setores ligados à inteligência artificial já atuantes na economia da Bahia, então todos esses projetos têm ajudado muito na formação de profissionais mais qualificados no estado.
Bahia Econômica – O senhor foi eleito para a presidência da FIEB e seguirá no cargo até março de 2030. Quais são as prioridades para a sua gestão?
Carlos Henrique – Nosso planejamento estratégico para o novo mandato é focado em sete pilares: fortalecimento da indústria no estado, sustentabilidade, infraestrutura, segurança no trabalho, associativismo, inovação e tecnologia, e busca por novas indústrias.