

A pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (7) pelo jornal “Folha de São Paulo” confirma aquilo que muitos não querem ver: a polarização política no Brasil tornou-se estrutural, e não há lugar para terceira via.
A polarização já está dada no 1º turno, quando Lula tem 39% das intenções de voto e Flávio Bolsonaro tem 35%, e, no 2º turno, o quadro bipolar permanece. Na verdade, não há sequer candidatos da chamada terceira via, pois Ronaldo Caiado, que aparece com 5%, e Romeu Zema, com 4%, são candidatos do arco ideológico de Jair Bolsonaro.
A polarização não é mais um ponto fora da curva; é estrutural, caracterizando uma divisão que existe na população brasileira desde 2018, quando Jair Bolsonaro e Fernando Haddad se enfrentaram. Está tão enraizada que, na pesquisa espontânea, aquela em que não se mostra nome algum ao eleitor, Lula tem 26% das intenções de voto, e o senador Flávio Bolsonaro, que foi lançado candidato há pouco, já crava 16% das preferências.
Se, em 2018, a polarização emergiu com força e, em 2022, se estabilizou, o que se desenha agora é uma disputa acirrada, que já nasce definida. A antecipação da polarização é o dado concreto. Diferentemente de outras eleições, o eleitor já está com sua posição praticamente formada. Não se trata mais de uma escolha construída ao longo da campanha, mas de uma adesão prévia, muitas vezes consolidada anos antes do pleito. Não há qualquer espaço para uma “terceira via” competitiva, ainda que eleições nesse cenário sejam imprevisíveis.
O voto passou a ser uma escolha pessoal, emocional. A escolha eleitoral deixou de ser predominantemente racional — baseada em avaliação de governo, propostas ou desempenho econômico — e passou a operar no campo da identificação. O eleitor vota menos em um programa e mais em um símbolo. Não é apenas “quem governa melhor”, mas “quem me representa” ou, de forma ainda mais decisiva, “quem representa aquilo que eu rejeito”.
Com isso, a rejeição se torna uma força decisiva, e as campanhas precisam desconstruir mais do que construir: focar em grupos identitários e no pequeno número de indecisos, para, assim, ganhar alguns pontos percentuais a mais, pois a eleição será decidida num contingente reduzido.
Estamos no reinado do voto negativo: vota-se contra o adversário. Esse tipo de comportamento fortalece os polos já estabelecidos, pois cada lado mobiliza seu eleitorado não apenas pela adesão, mas pelo temor do outro. A eleição, assim, deixa de ser uma disputa de convencimento e passa a ser uma disputa de contenção: impedir que o outro vença.
É preciso perceber que o espaço político moderado, que em outros momentos funcionava como fiel da balança, perdeu relevância. A coluna do meio tenderá para o polo que for capaz de desconstruir melhor o adversário.
E desconstruir o adversário não significa apenas criticá-lo ou apontar falhas de gestão. Trata-se de atingir o núcleo simbólico que sustenta sua relação com o eleitor. É enfraquecer sua identidade política, questionar sua credibilidade e, sobretudo, ativar os medos do eleitorado — seja o medo do retrocesso econômico ou do retrocesso político, da instabilidade institucional ou da perda de valores.
A desconstrução eficaz não opera no plano técnico, mas no imaginário: associa o adversário a riscos concretos, corrói sua confiança junto aos indecisos e amplia sua rejeição entre aqueles que já não o apoiam integralmente. Em eleições marcadas pelo voto negativo, vence não apenas quem apresenta propostas mais consistentes, mas quem consegue tornar o outro candidato menos aceitável.
Até aqui, quando o assunto é desconstrução, Lula já se mostrou resiliente e Flávio Bolsonaro ainda é uma incógnita. (EP- 13/04/2026)



