

Alguns artigos, registros e entrevistas recentes de autores brasileiros renomados têm destacado que o aagro brasileirovem se defrontando com um cenário recheado de incertezas, riscos, gargalos e desafios. Uma entrevista do professor Marcos Jank, do INSPER, ao Brasilagro, em 16 de março último, é usada aqui como uma das referências importantes nesse debate.
Em primeiro lugar, as mudanças climáticas adicionaram um cenário de incerteza preocupante e permanente daqui por diante. Nesse contexto, o desenho das políticas públicas voltadas para o agronegócio terá de contemplar mais enfaticamente a inclusão de instrumentos que podem contribuir para suavizar as flutuações de renda do setor e melhorar a adaptação de plantas, lavouras e criações às variações das variáveis climáticas, especialmente o aumento de temperatura e estresses hídricos. Teremos de direcionar parcialmente as pesquisas de variedades de plantas e culturas para melhor adaptação ao calor e aos eventos hídricos extremos e suas variações.
Os Estados deverao atuar em caráter complementar à ação da EMBRAPA e outros órgãos federais por razões que discutiremos em outro próximo artigo, mas a recriacão desses órgãos deve ser feita com com outra configuração , mais enxuta, com menor capilaridade, menores custos e utilizando campos experimentais de preferência em propriedades rurais privadas.
Essas entidades serão úteis, por exemplo na introdução , em escala comercial, de culturas a serem tropicalizadas, como as frutas vermelhas, pistache, tâmaras , dentre outras opções, e na domesticação de plantas nativas de alguns biomas visando possibilitar o seu melhoramento genético e cultivo em escala comercial.
Adicionalmente , o seguro rural tem de receber crescentes volumes de recursos para a subvenção ao prêmio, visando reduzir os efeitos das frequentes flutuações de renda dos agropecuaristas, decorrentes do clima e das oscilações de preços e dos mercados de produtos.
Em segundo lugar, fatores geopolíticos vêm causando grande imprevisibilidade sobre o que esperar de condutas de governantes e líderes em nível mundial, com suas atitudes e decisões de caráter bélico, com consequências nada desprezíveis no presente e no futuro, com possibilidades de interferir negativamente nos preços do petróleo, fertilizantes, transporte de produtos agropecuários e insumos, e interrupção de rotas marítimas cruciais para o comércio internacional, como o Mar Negro e o Estreito de Ormuz, no Oriente Médio. Mesmo com o cenário do fim das hostilidades no confronto Rússia-Ucrânia e na guerra entre EUA e Israel contra o Irã, não é garantido que essas rotas marítimas voltarão a operar normalmente.
Um cenário de instablidade latente, e preços de fretes e seguros elevados parece cada vez vez mais plausível, na visão de alguns analistas. O Brasil terá de diversificar destinos para seus produtos, buscar novas rotas marítimas , certamente mais dispendiosas, e diminuir sua dependência de importação de fertilizantes. Importar fertilizantes em geral , e da Rússia e do Irã, em particular , é um fator de risco para o agro nacional, especialmente em face das possibilidades de retaliação por parte dos EUA, que pode punir países que se relacionem comercialmente com nações não alinhadas com os norte-americanos.
Por seu turno, existem gargalos a serem enfrentados equacionados , que constituem um cenário bastante desafiador. O primeiro é a baixa conectividade do setor rural, particularmente com as redes 4G e 5G, o que dificulta sobremaneira a tomada de decisões de forma instantânea e em tempo de real com a coleta de dados no campo, através de sensores, drones e outros equipamentos.
Isso atrapalha bastante, por exemplo, o processo de disseminação das técnicas de agricultura de precisão, que prescrevem a aplicação de insumos de forma localizada (onde se faz necessário) conforme os mapas de prescrição, reduzindo drasticamente os custos de aquisição e aplicação de insumos, como fertilizantes e defensivos agrícolas . Marcos Jank fala em redução de custos desses insumos de até 70%, em relação aos métodos tradicionais.
Um segundo gargalo se refere ao atraso injustificável de duas obras de ferrovias para o escoamento das safras brasileiras: a Fiol e o Porto Sul e a Ferrogrão, que liga Sinop, MT, a Miritituba, no Pará. A primeira está com um atraso de 14 anos , já que o cronograma original previa sua conclusão em 2014; a Ferrogrão está parada em julgamento no STF desde outubro de 2025, com placar de 2 a 0 a favor da constitucionalidade da obra. Esperamos que a Suprema Corte conclua este julgamento com celeridade.
(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail : jose.macielsantos@hotmail.com