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ADARY OLIVEIRA -COISAS ARRISCADAS QUE FIZ

Redação - 14/08/2023 11:00 - Atualizado 14/08/2023

Quando muito moço costumava dizer para meus amigos, que como eu procuravam um encaminhamento para a vida, que a estabilidade inibia o progresso das pessoas. De fato, conheci muitos indivíduos que procuravam um emprego estável num serviço público, conseguido através de um concurso ou de um político, e se acomodavam numa vida estável, muitas vezes abdicando de um talento incrível para artes, ensino, empreendedorismo e política. Peço licença aos meus leitores para contar um pouco de minha experiência de vida, já que estou com 81 anos e não vou ficar para semente, como dizia meu pai.

Na minha vida assumi muitos riscos e, por sorte, sobrevivi a muitas situações de perigo. Quando meu pai, microempresário do comércio de cidade pequena do interior me confidenciou que não poderia encaminhar seu quarto filho (éramos seis) para Salvador para cursar o ginásio, não instalado ainda na cidade onde morávamos, procurei um jeito de ajudá-lo ingressando na Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAr) da Força Aérea Brasileira (FAB), abrindo uma vaga para esse irmão na Capital. Cursei o segundo e terceiro ano científico, primeiro em Barbacena, Minas Gerais, e depois no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Neste último aprendi a pilotar o Fokker T21, monomotor fabricado na Holanda e montado numa oficina no Galeão. Com 18 anos de idade já pilotava o aviãozinho, acompanhado de instrutor. Por sorte ou não, não fui avaliado para ser um bom piloto militar e meu nome figurou na lista dos que seriam desligados da academia da FAB. Muitos de meus colegas ainda estariam vivos se não tivessem seguido a carreira militar.

De volta para a Bahia me submeti às provas do vestibular de engenharia, na Escola Politécnica. O curso da EPCAr era de excelente qualidade e fui aprovado na primeira tentativa. Quando me graduei em engenharia química obtive emprego numa fábrica de cimento, com bom salário, mas com um futuro que eu projetava com limitações, longe do que eu desejava para minha vida. Quando fui comunicar ao gerente que eu estava de saída, que aceitara um convite para um novo emprego em uma repartição do governo, ele comentou: “eu gostaria de ter tido a tua coragem há 12 anos atrás”. Percebi que eu estava certo. Pouco tempo depois eu era Diretor Geral de uma importante repartição pública. Novamente, depois de seis anos, achei que eu ia virar “barnabé”, peça de repartição. Saí para cursar mestrado em Administração de Empresas em São Paulo. Meu irmão mais velho me disse: “você está maluco, vai deixar um emprego desse por uma aventura?”

Em São Paulo fui convidado para ser professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ministrei por um semestre um curso intitulado “Seminário de Administração Pública” e montei um plano na forma de um congresso onde eu convidava dirigentes de empresas para contar suas experiências como administrador. Foi quando acenei meu amigo Luiz Sande, Diretor do Banco Nacional da Habitação (BNH) par proferir uma das palestras. Pouco tempo depois Sande foi nomeado Presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e sabedor de meu bom desempenho na FGV me convidou para ser diretor da BNDESPar, uma das subsidiárias do BNDES. Foi assim que trilhei um caminho que poderia ter sido penoso, mas que me trouxe de volta para a Bahia como presidente de uma das empresas do Polo Petroquímico de Camaçari. Valeu a pena ter arriscado.

Não significa que durante minha vida eu não tenha dado algumas derrapadas e que em algumas vezes tive de andar para trás. Entretanto, fiz muitas coisas boas e uma delas foi ter seguido a profissão de professor, tendo obtido o título de Doutor na Universidade de Barcelona, na Espanha, e de ter lecionado mais de vinte disciplinas pelas universidades por onde perambulei. Se hoje minha escrita é apreciada por muitos, baseada na minha experiência de vida, é que a melhor maneira de se aprender é ensinando e procurando colocar habilidades ao lado dos conhecimentos. Não me arrependo de ter deixado de ser químico da fábrica de cimento, apesar de ter parecido na época uma escolha aventureira.

Não escrevi este texto para me autopromover ou por cabotismo, mas para encorajar aos mais jovens a serem donos de seus destinos, sujeito, e não objeto, das histórias de suas vidas, escolhendo fazer o que gosta, sempre com seriedade e determinação.

Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.)

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