

“Escrevi uma carta longa porque não tive tempo de escrevê-la curta”
Frase atribuída a Blaise Pascal, matemático e filósofo francês (1623 – 1662)
Originado nas artes visuais, na década de 60 do século passado, tendo como epicentro os Estados Unidos, o movimento minimalista surgiu como reação ao
expressionismo abstrato e buscava reduzir os excessos, focando no que é absolutamente essencial. Na arquitetura, teve como um dos seus principais
ativistas Ludwig Mies van der Rohe, que cunhou uma frase emblemática: “less is more (menos é mais)”.
Entretanto, duas décadas antes, Pablo Picasso, com a série Le Taureau (1945), ofereceu uma importante contribuição para a filosofia minimalista. O primeiro
desenho é um touro musculoso, com detalhes anatômicos, e, em cada versão seguinte, Picasso elimina excessos e o animal vai sendo depurado, linha por linha,
até se tornar quase um ideograma – poucos traços, nenhuma sobra.
A imagem final não descreve o animal – evoca. O observador passa a ser coautor do trabalho, pois o olhar completa o que a mão escolheu não dizer.
Também na literatura podemos encontrar exemplos de minimalismo e, se Picasso elimina linhas, o escritor elimina adjetivos, evita advérbios, busca
precisão e produz textos que sugerem ideias sem apresentar detalhes, deixando ao leitor o papel de imaginar.
Exemplos clássicos de literatura minimalista são o famoso texto de Augusto Monterroso: “Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá” e o microconto
atribuído a Ernest Hemingway: “Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados”.
Por sua vez, na literatura brasileira também há autores que navegaram pela escrita minimalista: Dalton Trevisan, Mário Quintana, Sérgio Sant’Anna, Adriana
Falcão, Antônio Prata, Marcelino Freire e tantos outros. Marcelino Freire, por sinal, reuniu diversos autores no livro Os cem menores contos brasileiros do
século XX (Ateliê Editorial).
Escrever de forma contida exige maturidade do escritor, que precisa renunciar ao exibicionismo, ao uso abusivo de metáforas e à tentação de explicar o que já
está claro. E também pressupõe maturidade do leitor: o texto conciso parte da premissa de que o leitor será capaz de completar o sentido.
Para produzir um texto curto, o autor trabalha duro, transpira, lê, relê, corta, modifica, pensa, reflete.
A simplificação exige domínio absoluto e só quem conhece profundamente a forma pode abandoná-la sem perdê-la.Assim como no desenho de Picasso, na literatura minimalista o essencial não
está no que se mostra, mas no que permanece implícito.
A simplicidade verdadeira não é ponto de partida – é ponto de chegada.
Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS –
Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL –
Academia Brasileira Rotária de Letras