

Neste momento, quando tanto se fala em geopolítica, e as grandes potências ostentam os seus projetos globais – a China, com a Rota da Seda, e os Estados Unidos, com a América Primeiro – o Brasil, um país continental, precisa olhar-se no espelho, contemplar a sua importância, para cuidar da sua grandeza.
Na falta de um projeto de país e de uma doutrina de defesa, o Brasil precisa, no mínimo, zelar por sua integridade nacional – e aqui cabe um destaque especial à Amazônia – para desempenhar o seu papel no concerto das nações.
Mas não é o que se vê. Desleixado para consigo mesmo, nosso país vai sobrevivendo aos trancos e barrancos, sem nenhuma ambição de ser grande, apesar do seu imenso potencial.
Tomemos como referência as questões internas de transporte e logística, onde se vê, claramente, um país desintegrado, negligente e irresponsável.
Olhando o cenário a partir da Bahia, identificam-se quatro grandes eixos longitudinais, que atravessam o estado, no sentido norte-sul, peças-chave na articulação entre o Sudeste e o Nordeste do país, todos apresentando graves problemas.
No setor rodoviário, a BR-116, uma rodovia longitudinal de 4.713km de extensão, que se estende de Fortaleza, no Ceará, até Jaguarão, no Rio Grande do Sul, com trechos tão importantes como a Via Dutra, entre Rio e São Paulo, tem na Bahia o seu pior segmento, operando completamente saturada.
Com 1.002km de extensão em território baiano, a BR-116 está dividida em dois trechos: O Sul – agora denominado Rota 2 de Julho (que inclui a BR-324, no trecho Feira de Santana-Salvador) – está em processo de relicitação, para nova concessão, entre Feira de Santana e a divisa BA-MG, depois de uma fatídica experiência com uma licitação de menor preço e parcos investimentos. Mas somente em novembro deste ano, ou seja, um ano e meio depois da rescisão do contrato anterior! O trecho Norte – denominado Rota dos Sertões (que inclui a ligação Ibó-Salgueiro (PE) – também se encontra em processo de concessão, este programado para março próximo. E esta é a melhor perspectiva.
A BR-101, também nacional e longitudinal, com 4.824km de extensão, a partir de Touros, no Rio Grande do Norte, até São José do Norte, no Rio Grande do Sul, é praticamente uma paralela à BR-116. Antes tida, na Bahia, como litorânea e turística, tornou-se fundamental para o transporte de cargas, que extrapolou da BR-116.
Nessa rodovia, apenas o trecho entre a Divisa SE-Feira de Santana encontra-se, há muitos anos, em um processo de duplicação que nunca se conclui. Recentemente, o risco de desabamento da ponte sobre o rio Jequitinhonha, no Estremo Sul baiano, levou à interdição do tráfego, dando uma clara ideia do precário estado de funcionamento em que se encontra.
No setor ferroviário, a situação é ainda mais grave, uma vez que a malha da antiga Leste Brasileira (depois incorporada à Refesa), concedida em 1996, foi abandonada pela Ferrovia Centro Atlântica (FCA), sua concessionária, já tendo sido desativada a Linha Norte – de Esplanada a Propriá (SE), e o trecho Juazeiro-Senhor do Bonfim, na Linha Centro.
A importante e estratégica Linha Sul, de Salvador a Corinto (MG), opera a uma vergonhosa velocidade de 11km/h, razão pela qual tem apenas um cliente, o mesmo que ocorre na Linha Centro, entre Mapele e Senhor do Bonfim/Campo Formoso. O abandono aconteceu também em relação à antiga malha ferroviária do Nordeste, com outro concessionário, não obstante atenderem ambas ao eixo urbano-industrial da Região.
Em um interminável processo de renovação antecipada de uma concessão que vence em agosto próximo – aliás, com inaceitável ameaça de extensão – cogita-se da manutenção do trecho Corinto (MG)-Campo Formoso, agora denominada Ferrovia Minas-Bahia, espera-se que com os investimentos necessários.
Por sua vez, a Hidrovia do Rio São Francisco – outrora, “rio da unidade nacional” – com seus 1.371km navegáveis, entre Juazeiro-Petrolina (PE) até Pirapora (MG), encontra-se desativada em todo o seu percurso. Aqui, destaque-se, que o Polo Juazeiro-Petrolina é o mais importante aglomerado urbano do interior do Nordeste (menor apenas do que Teresina, capital do Piauí, e Feira de Santana), além de ser o maior polo de fruticultura irrigada do país. Adicione-se, às suas margens, o perímetro irrigado do Baixio de Irecê, há pouco concedido ao setor privado, e as conexões ferroviárias em Juazeiro (desativada pela FCA) e no futuro eixo Fico-Fiol (Ferrovia Leste-Oeste), além de servir às zonas produtivas do Médio São Francisco e do Norte de Minas. Está, no entanto, fora das prioridades do Ministério dos Portos e Aeroportos.
Estas situações configuram o isolamento logístico da Bahia – um crime contra a nação – que comprometeu profundamente o desempenho da economia estadual, que caiu do sexto para o sétimo lugar no ranking do PIB dos estados e perdeu nove pontos porcentuais de participação no PIB do Nordeste!
Como se vê, o Brasil não zela sequer pela articulação logística do seu território, deixando de criar as condições para tornar-se um ator relevante no cenário internacional. Assim, será, sempre, o país de um futuro que nunca chega.
Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de Cidades e Municípios: gestão e planejamento.