

As eleições presidenciais de 2026 no Brasil começam a se desenhar sob um signo dominante: a incerteza. Diferentemente de pleitos anteriores, em que os polos principais se apresentavam de forma relativamente nítida com razoável antecedência, o cenário atual combina fragmentação política interna, fadiga do eleitorado com a polarização tradicional e variáveis externas que não podem ser ignoradas. O resultado é um quadro aberto, instável e altamente sensível a eventos.
Do lado do governo, Lula aparece como candidato natural à reeleição. Mas tem enormes desafios políticos. O presidente entra na disputa carregando o peso de um nível expressivo de desaprovação do governo e um alto nível de rejeição. Parte desses índices relacionam-se à polarização que ainda se mantém, mas de forma diferenciada, pois o país está socialmente exausto, economicamente pressionado e menos tolerante a promessas abstratas.
O eleitorado de Lula é fiel e permanece relevante, sobretudo entre os mais pobres e no Nordeste, mas já não é hegemônico. A esquerda institucional, por sua vez, parece prisioneira do lulismo: não construiu, até aqui, um nome alternativo competitivo nem uma narrativa de renovação. Assim, Lula é, ao mesmo tempo, a maior força e o maior limite do campo progressista.
A direita, por outro lado, vive um paradoxo. Aumentou sua base social, tem capilaridade digital e capacidade de mobilização, mas carece de unidade e de um candidato consensual. A hipótese de Flávio Bolsonaro como representante da extrema direita explicita essa dificuldade. Diferentemente de Jair Bolsonaro em 2018, Flávio não carrega o mesmo capital simbólico nem o carisma disruptivo que transformou o pai em fenômeno eleitoral. Seu nome tende a manter coesa a base bolsonarista mais ideológica, mas dificilmente amplia fronteiras. Nesse sentido, a extrema direita corre o risco de falar apenas para si mesma, reproduzindo um discurso identitário e defensivo.
É justamente nesse vazio que o Centrão tenta se mover. O problema é que o Centrão, por definição, não produz lideranças presidenciais com facilidade. Seu poder reside na ocupação do Estado, na negociação permanente e na adaptação ao vencedor, não na formulação de projetos nacionais.
E, diga-se a verdade, não quer Flávio Bolsonaro, pois sabe que ele não é capaz de enfrentar o Presidente Lula, mas tampouco tem consenso sobre um candidato próprio. A verdade é que o Centrão vide de emendas e não tem um projeto minimamente coerente para o país. A aposta em uma “terceira via” continua existindo no discurso, mas segue frágil na prática.
A possibilidade de a direita chegar dividida ao primeiro turno é, portanto, real. E isso altera profundamente o cálculo eleitoral. Um campo conservador fragmentado favorece Lula no curto prazo, mas aumenta a imprevisibilidade no médio prazo, sobretudo no segundo turno. Afinal, alianças improvisadas, apoios envergonhados ou transferências de voto incompletas podem produzir resultados inesperados.
A esse cenário interno já complexo soma-se uma variável externa nada desprezível: a política norte-americana. Caso Donald Trump volte ao poder e adote uma postura ativa contra governos de esquerda na América Latina, é plausível imaginar algum grau de interferência, ainda que indireta, no processo brasileiro.
Isso pode ocorrer por meio de declarações públicas, apoio simbólico a candidatos alinhados ideologicamente, pressão diplomática ou mesmo estímulo a narrativas de deslegitimação eleitoral. Ainda que o impacto concreto desse tipo de ação seja difícil de medir, seu efeito simbólico e comunicacional pode ser significativo, especialmente em um ambiente já saturado de desinformação.
Paradoxalmente, uma eventual hostilidade explícita de Trump a Lula pode tanto prejudicar quanto beneficiar o presidente brasileiro. De um lado, reforçaria o discurso da direita radical e internacionalizaria a oposição ao governo. De outro, poderia fortalecer Lula junto a setores moderados e nacionalistas, que veem com desconfiança qualquer ingerência externa nos assuntos internos do país. Mais uma vez, o resultado não é previsível.
Em síntese, as eleições de 2026 não serão decididas apenas pela força dos nomes em disputa, mas pela capacidade de cada campo político de interpretar um país em transição, menos ideológico do que no passado recente, mais pragmático e mais desconfiado. A esquerda enfrenta o dilema da continuidade sem renovação; a direita, o da mobilização sem unidade; e o Centrão, o da influência sem protagonismo. Quando todos têm limites claros e ninguém apresenta hegemonia evidente, a política deixa de ser um jogo de certezas e passa a ser, como poucas vezes antes, um território de risco. É isso que torna 2026 um ano decisivo — e verdadeiramente imprevisível. (EP —05/01/2026)



