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DIA MUNDIAL DA ÁGUA – O CAMINHO DA EFICIÊNCIA HÍDRICA NA INDÚSTRIA PARA UM FUTURO SUSTENTÁVEL

João Paulo - 21/03/2025 07:57 - Atualizado 21/03/2026

Por Ciro Gouveia, diretor-presidente da Cetrel

O Dia Mundial da Água nos convida para uma reflexão que vai além da celebração; é um chamado à ação concreta. Em um cenário marcado pela emergência climática, pela intensificação de eventos extremos e por pressões crescentes sobre os recursos naturais, a gestão eficiente da água tornou-se uma prioridade estratégica. A indústria brasileira não é apenas usuária desse recurso essencial – ela também pode e deve ser protagonista na construção de soluções que garantam a segurança hídrica no longo prazo.

Nas últimas décadas, o conceito de eficiência hídrica evoluiu de forma significativa. Hoje, ele vai muito além da redução do consumo e envolve uma abordagem sistêmica, que considera todo o ciclo da água dentro das operações industriais: captação, uso, tratamento, reúso e devolução ao meio ambiente. Trata-se de gerir a água com inteligência, tecnologia e responsabilidade compartilhada, integrando a agenda ambiental à estratégia do negócio.

A eficiência hídrica, portanto, deve ser compreendida como um pilar central da agenda ESG industrial. De acordo com a publicação Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil 2025, da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a indústria responde por cerca de 10% da demanda total de água no Brasil, ficando atrás apenas da irrigação agrícola e do abastecimento humano. Ainda assim, em regiões altamente industrializadas ou com maior escassez hídrica, a pressão sobre os recursos pode ser significativamente maior, tornando a gestão responsável ainda mais essencial.

Ao mesmo tempo, o cenário de mudança climática tende a intensificar desafios históricos. Estudos da própria ANA indicam que eventos de seca mais frequentes e períodos prolongados de estiagem podem afetar a disponibilidade hídrica em diversas regiões do país. Por exemplo, nas regiões hidrográficas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste, a disponibilidade hídrica pode cair mais de 40% até 2040, impondo um desafio ético e operacional a indústrias de todo o território brasileiro e ampliando a necessidade de estratégias que promovam eficiência, conservação e diversificação das fontes de água utilizadas pela indústria.

Entre essas estratégias, o reúso de água desponta como uma das mais promissoras. Apesar do enorme potencial, o Brasil ainda apresenta índices relativamente modestos nessa área. Estimativas da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e da ANA indicam que menos de 2% da água utilizada no país passa por algum tipo de reúso planejado, índice significativamente inferior ao observado em países com maior maturidade na gestão hídrica, como Israel, Singapura e Austrália.

Na prática, ampliar o reúso significa transformar o efluente tratado em um novo recurso dentro do processo produtivo. A água pode retornar ao ciclo industrial para aplicações diversas, como sistemas de resfriamento ou usos menos nobres, como lavagem de pisos, vasos sanitários ou irrigação. Ao recircular um recurso que antes seria descartado, a indústria reduz a necessidade de captação em mananciais e contribui diretamente para a preservação de corpos hídricos.

O primeiro passo para essa jornada de transformação costuma ser uma avaliação detalhada dos processos produtivos. Diagnósticos especializados permitem identificar perdas, ineficiências e oportunidades de otimização que muitas vezes passam despercebidas na rotina operacional. A partir dessa análise, é possível redesenhar fluxos de uso da água, implementar tecnologias de tratamento mais eficazes e estabelecer metas claras de redução de consumo e aumento de reúso.

No entanto, a gestão responsável da água não termina dentro das plantas industriais. Ela também envolve o cuidado com os impactos potenciais no entorno das operações. O tratamento adequado de efluentes é essencial para garantir que qualquer lançamento em corpos hídricos ocorra dentro de padrões legais de qualidade, protegendo ecossistemas aquáticos e comunidades que dependem desses recursos.

Outro aspecto fundamental é o monitoramento e a gestão de solos e águas subterrâneas. De acordo com levantamentos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), apenas no estado de São Paulo existem mais de 7 mil áreas contaminadas ou em processo de reabilitação, muitas delas associadas a atividades industriais ou logísticas. Embora o país tenha avançado na identificação e recuperação dessas áreas, a remediação ambiental continua sendo um desafio relevante para garantir a qualidade dos aquíferos e prevenir riscos ao abastecimento futuro.

Nesse sentido, tecnologias de remediação e sistemas de monitoramento contínuo desempenham papel decisivo. Além disso, tão ou ainda mais importante do que remediar as áreas já contaminadas é gerenciar e monitorar possíveis fontes de contaminação. Ao prevenir novas contaminações, essa gestão de fontes tende a ser uma grande aliada das indústrias, tanto em aspectos ambientais, quanto financeiros.

A capacidade de resposta a emergências ambientais também se tornou um componente essencial da gestão hídrica industrial. Derramamentos acidentais, falhas operacionais ou eventos climáticos extremos podem gerar impactos significativos se não forem tratados com rapidez e precisão. Estruturas especializadas, equipes treinadas e protocolos de atuação bem definidos são fundamentais para mitigar riscos e preservar os recursos naturais – e a capacidade de resposta a esses incidentes, seja nas plantas industriais ou ao longo da cadeia logística, é o que diferencia uma operação sustentável de uma operação de risco.

Ao adotar tecnologias de ponta em saneamento ambiental, tratamento de águas e gestão de resíduos, a indústria brasileira não apenas cumpre o arcabouço normativo; ela se torna um benchmark global, contribuindo para a construção de um modelo de desenvolvimento mais resiliente e mitigando conflitos pelo uso da água.

Em última análise, a água não é apenas um insumo produtivo. Ela é um patrimônio coletivo e um ativo de valor inestimável, que conecta economia, meio ambiente e qualidade de vida. Tratar a água com responsabilidade significa reconhecer que o desenvolvimento sustentável depende da capacidade de equilibrar produção e preservação e nosso compromisso deve ser devolvê-la com a mesma, ou melhor qualidade com que a encontramos.

No Dia Mundial da Água, essa reflexão ganha ainda mais relevância. Mais do que celebrar, é preciso agir. Investir em uma gestão ambiental integrada e responsável é o caminho para garantir que o progresso de hoje preserve a integridade dos recursos naturais para as gerações futuras.

 

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