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A CABEÇA (DESAPARECIDA) DE GOYA – ARMANDO AVENA

Redação - 17/05/2024 09:24 - Atualizado 17/05/2024

Um dia andando pelas galerias do Museu do Prado, em Madri, sem organização ou método como gosto de fazer quando ando pelos museus, entrei na sala de Francisco de Goya onde estão expostas a série “As Pinturas Negras”, composta de quatorze quadros sombrios e meio desalentadores, que escurece a alma de quem os vê.

Lembrei-me de Goya e desses quadros impressionantes, que foram pintados em óleo no reboco da parede dos muros de sua casa, na quinta-feira , quando ao começar a escrever meu artigo quinzenal me dei conta de que naquele dia fazia exatamente 196 anos da morte do pintor espanhol. A mais incrível dessas obras é “Saturno devorando um filho”, com a figura do titã Cronos, ou Saturno para os romanos, que governava o mundo e devorava os próprios filhos com medo de que eles lhe tomassem o poder.

Na mitologia, Zeus é o único dos filhos de Cronos que vai escapar deste destino, tomar-lhe o poder e tornar-se o deus do Olimpo. A história é aterradora, mas a sua tradução no quadro de Goya é mais terrível ainda e não há como sair do museu sem ter na mente a expressão demoníaca de Saturno com os olhos arregalados, a arrancar a cabeça do seu filho que não é um bebê, mas uma mulher.

A mitologia grega tem uma força psicológica descomunal e em suas histórias é possível encontrar quase toda psicanálise freudiana, tantas são as metáforas que ali estão. E nem vou contar que muito antes Cronos pôs-se contra seu pai Urano e lhe cortou os testículos quando ele estava na cama com sua mãe Gaya.  Pois é, muito antes de Freud, a mitologia grega já tinha decifrado todo o subconsciente humano, com direito a ego, superego e id.

Mas voltemos a Goya, pois entre As Pinturas Negras”, ainda é possível ver o quadro Judite e Holofernes, provavelmente menos impactante que o de Caravaggio, mas muito mais moderno e o impressionante “A romaria de Santo Isidro”, todos pintados nas paredes de sua casa e posteriormente transpostos para a telas que estão no Museu do Prado. E há muito mais de Goya. Lá está também a dramática série de gravuras “Os Desastres da Guerra”, provavelmente inspirado na guerra em que Napoleão tomou a Península Ibérica. Mas nem só de horrores vive o nosso pintor e no Museu do Prado é possível ver também a belíssima “La Maja Desnuda” e ela mesma em trajes compondo “La Maja Vestida”.

Que se passava na cabeça desse artista maravilhoso? Difícil saber, até porque não se sabe onde ela está. Quando exumaram seu cadáver, muito depois da sua morte, descobriram que ele estava sem cabeça. As especulações foram muitas, desde que a havia regalado a um amigo que estudava os mistérios da frenologia até que fora roubada por um artista que pintou um crânio hiper realista intitulado “El cráneo de Goya pintado por Fierros en 1849”.

Mas nada disso importa muito, o importante é conhecer a obra de Francisco Goya um dos maiores artistas de todos os tempos.

Publicado no jornal A Tarde em 17/05/2024

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