SUBITO VEL CONTINUUM – POR ARMANDO AVENA

SUBITO VEL CONTINUUM - POR ARMANDO AVENA

“Na vida, nada se resolve, tudo continua”, disse o escritor francês André Gide, e, apesar do ser humano estar reiteradamente profetizando certezas e vaticinando o fim disso e o começo daquilo, no mundo, na maioria das vezes, tudo é um continuum, ou melhor, um processo. Há, é verdade, transformações que acontecem de repente, especialmente no âmbito da tecnologia, mas o continuum parece predominar sobre o subito.

A Covid-19, por exemplo, que trouxe a incerteza ao nosso dia a dia a ponto dos planos passarem a ser feitos na base do “quando a pandemia acabar”, não vai acabar de repente, ela vai se enfraquecer aos poucos com a vacinação. E novas cepas aparecerão e serão combatidas  pelas vacinas existentes ou por outras que serão criadas, mas isso será um processo e dificilmente haverá um Dia D, quando de súbito a covid  desaparecerá. Aliás, a expressão dia D não representa o fim ou o começo de tudo, significa apenas o dia em que um ataque (militar) estratégico será desferido, ou seja, é parte de um processo.

De vez em quando, na minha labuta com a economia, sou confrontado com vaticínios de súbitas mudanças, do tipo: era do petróleo já acabou e em breve não usaremos mais combustíveis fósseis. Dificilmente isso acontecerá rapidamente ou de uma hora para outra, o mais provável é que os países continuem a usar petróleo por muito tempo, ainda que utilizando cada vez menos. Foi o que aconteceu com carvão, cada vez mais execrado, mas que, infelizmente, ainda permanece em uso em muitos países. Claro, temos que reduzir cada vez mais o uso de combustíveis fósseis, sob pena de aceleramos o aquecimento global, colocando em risco o próprio planeta, mas isso não acontecerá “de repente”, faz parte de um processo, que inclui a conscientização das pessoas e das empresas, e coloca a variável poluição como antieconômica.

O mesmo acontece com os automóveis  cujo fim já foi vaticinado em nome de um ambiente mais limpo e de um transporte público mais eficiente. Mas, novamente, os automóveis não desaparecerão repentinamente, eles se transformarão,  tornando-se primeiro híbridos, depois totalmente elétricos e deixando as áreas centrais das cidades.

É verdade que o avanço tecnológico está resultando em uma obsolescência quase que imediata de bens e serviços. O advento do Uber, Ifood, Netflix, Spotfy, Youtube dão a impressão de mudanças repentinas, mas, se percebemos bem, taxistas, restaurantes, cinemas, rádios e televisão  ainda permanecem. Claro, eles não representam o futuro, no entanto, sua extinção não se dará de súbito. As exceções existem mas, ao que parece,  na saúde, na tecnologia, na economia e na vida, as transformações não se dão aos saltos, tornam-se dominantes de forma gradual e contínua.

Pubicado no jornal A Tarde em 10/12/2021