ADARY OLIVEIRA- TESOUROS ESCONDIDOSNA BAÍA DE TODOS OS SANTOS

ADARY OLIVEIRA- TESOUROS ESCONDIDOSNA BAÍA DE TODOS OS SANTOS

A Baía de Todos os Santos (BTS) esconde muitos tesouros que precisam ser deparados, bastando a realização de estudos e pesquisas para serem encontrados. Concluí o artigo que publiquei na semana passada no Jornal Tribuna da Bahia dizendo que as jazidas de Gás Natural (GN) localizadas em Aratu foram descobertas nos anos 1950 e esse hidrocarboneto passou a ser vendido por preço atrativo. Tal fatopuxou para a região fábricas de cimento, aço, metanol, amônia, ureia e metacrilato de metila. Em 1968 o GN fornecido à Cimento Aratu foi cortado e substituído por óleo combustível, elevando demais o custo de fabricação de cimento e decretando o fechamento da fábrica. Posteriormente a Petrobras elevou de forma exagerada o preço do GN einviabilizou a produção de metanol da Metanor e o aço da antiga Usiba, hoje Gerdau. A manufatura de amônia e ureia não foi paralisada porque a Unigel arrendou as fábricas da Petrobras a tempo e a de metacrilato de metila sobreviveu por ter sido ampliada e modernizada.

No mesmo artigo comento as importações do Gás Natural Liquefeito (GNL) e os 19 terminais de regaseificação que estão sendo operados, construídos e projetados no Brasil, sugerindo cinco pontos que deveriam ser estudados na Bahia para instalação de terminais semelhantes. Volto a escrever sobre o assunto para revelar dados e apresentar novas sugestões.

Meu primeiro emprego como engenheiro foi de assistente do chefe químico da Cimento Aratu, em 1966. Fui testemunha do corte do GN feito unilateralmente pela Petrobras e participei da montagem de tanques, dutos e caldeiras para a sua substituição pelo óleo combustível de baixo ponto de fluidez (BPF), mais sólido do que líquido à temperatura ambiente. A justificativa dada pela estatal é que o gás estava sendo reservado para os projetos da Usiba e do Copeb. O que vale ressaltar é que se ninguém de saterrou os gasodutos que levavam o GN para a aciaria da Usiba, localizada próxima à Ponta da Sapoca, em Salvador, e para a fábrica de cimento, na borda da Baía de Aratu, em Simões Filho, eles ainda estão lá. Esses gasodutos estão conectados com a malha de dutos que passam por Camaçari e Candeias.

Na época do fechamento das fábricas o GN era fornecido na Bahia para seus consumidores por US$ 17,00/milhão de BTU (MM de BTU). Recentemente o preço desse hidrocarboneto caiu e em julho deste ano o GN adquirido pela Petrobras na Bolívia, precificado em Santa Cruz de La Sierra, custou US$ 4,33/MMBTU e foi transportado através do gasoduto Bolívia-Brasil (Gasbol) para consumidores e para a rede de dutos da Transportadora Associada S.A. (TAG). Os gasodutos de transporte dessa empresa margeiam o litoral de Fortaleza a Porto Alegre, passando pela Bahia. Também em julho passado, o GNL comprado nos Estados Unidos e trazido de navio para o Terminal de Regaseificação da Bahia (TR-BA) foi realizado pelo preço FOB de US$ 8,76/MMBTU.

Se novos navios regaseificadores fossem ancoradosna BTS, um na Ponta da Sapoca, no cais de descarregamento de minérios da Gerdau, e outro no antigo cais de recebimento de calcário da antiga fábrica de cimento, se poderia fazer pelo menos dois estudos de viabilidade. O primeiro, para saber se com os novos preços se viabilizaria a reabertura da aciaria da Gerdau. O segundo, para avaliar a conveniência, ou não, da reativação da planta de metanol, álcool que hoje é importado para a fabricação do biodiesel. Com mais gás seria possível fazer a ampliação de outras fábricas, inclusive a de amônia e ureia, já que cerca de 80% desses insumos do agronegócio são importados.

Os grandes produtores mundiais de GNL dos Estados Unidos, Catar, Nigéria e Angola, estão ávidos para vender mais gás e estão à procura de grandes consumidores, sendo bom negócio para eles a instalação desses navios. Os custos adicionais de transporte marítimo, armazenagem, regaseificação, transporte em dutos e distribuição não são de grande monta e negociáveis. Os importadores poderiam receber ajuda a mais se o GN usado para fabricar amônia e ureia tivessem o mesmo tratamento fiscal dos fertilizantes importados e se aqueles usados para a geração do gás de síntese para a redução dos minérios de ferro na fabricação do aço, fossem submetidos ao regime de drawback suspensão, já que a Gerdau é exportadora de aços planos e longos.

A Baía de Todos os Santos esconde muitos tesouros e vale a pena investigar. Novas unidades fabris, geradoras dos empregos e outros benefícios, podem ser atraídas, dando mais velocidade à roda que faz girar a economia.

Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.) – adary347@gmail.com