ENTREVISTA COM DEMIR LOURENÇO, DIRETOR EXECUTIVO DO TECON SALVADOR

ENTREVISTA COM DEMIR LOURENÇO, DIRETOR EXECUTIVO DO TECON SALVADOR

Por: João Paulo Almeida

Bahia Econômica – O terminal de Salvador é um dos maiores do nordeste e está completando 21 anos com uma movimentação 3.243.827 contêineres. Quais os planos do terminal para essa data especial?

Demir Lourenço – Comemoramos mais um ano de operações no Tecon Salvador no mesmo mês em que, na Bahia, é celebrado o aniversário da capital, Salvador. Desde que assumimos esse compromisso há 21 anos, nossos esforços têm sido no sentindo de qualificar o terminal baiano, um equipamento de grande importância para o desenvolvimento da economia do estado, com o que existe de mais moderno e tecnológico no mundo. A Bahia tem hoje um dos mais importantes terminais do país, uma das instalações mais competitivas na América do Sul. Nessas duas décadas, investimos mais de 918 milhões. As atuais intervenções em curso, que demandam um aporte de R$ 443 milhões (de 2018 até 2021), foram fundamentais para que a Bahia esteja integrada ao itinerário dos New Panamax e siga posicionada estrategicamente entre as principais rotas comerciais do mundo. Os navios New Panamax são os maiores porta-contêineres que deverão começar a escalar a costa brasileira em futuro próximo, com 366 metros de comprimento e capacidade para transportar até 14 mil contêineres (medida de 20 pés), e nós já estamos preparados para esse momento. Desde 2018, o Porto de Salvador conta com autorização para operar esse tipo de embarcação e dispõe de condições especiais, sem restrições de navegabilidade, por apresentar características ambientais e infraestrutura exigidas pela Marinha. Até 2050, o Tecon Salvador receberá novo aporte de investimentos do Grupo Wilson Sons, algo em torno de R$ 272 milhões para a continuidade das obras de expansão. Todos os recursos privados investidos se convertem em patrimônio para a Bahia.

BE – Qual a expectativa de geração de emprego a partir destes investimentos feitos.

Demir Lourenço – A fase atual de investimentos é realizada com 100% de recursos próprios e empregou aproximadamente 700 profissionais diretos e 2.100 indiretos, sendo 90% dos contratados moradores de Salvador e cidades vizinhas.

BE – Qual a expectativa e projetos do terminal para o ano de 2021 nesse período de pandemia?

Demir Lourenço – O ano de 2021 é ainda um ano muito desafiador. A pandemia, a gente percebe, recrudescendo. A quantidade de fatalidades cresce dia a dia, e por conta disso a Bahia está em lockdown já há algumas semanas, não sabemos quanto tempo mais isso vai perdurar. Nosso desafio, sendo uma atividade essencial, é manter nossa operação preservando a saúde e a integridade física dos nossos colaboradores. Esse é o ano do início da consolidação dos investimentos realizados. Nós terminamos recentemente etapas importantes da obra de expansão, investimentos, inclusive, que foram antecipados e estamos dando continuidade com a dragagem do novo cais, Santa Dulce dos Pobres, e aprofundando o Cais Água de Meninos.

BE – Quais os investimentos previstos no terminal em 2021?

Demir Lourenço – Neste ano, estamos concluindo um grande ciclo de investimentos. Finalizamos a obra de repavimentação da retroárea, acrescentando mais 30.000 m², e estamos, agora, com os ajustes finais de cercamento e de infraestrutura para que esse espaço entre em operação. Estamos realizando a dragagem do novo cais para 16 metros e aprofundando o cais Água de Meninos para os mesmos 16 metros, nos antecipando, fazendo frente a uma nova realidade com relação ao tamanho e capacidade dos navios que logo estarão em trânsito na costa brasileira.

BE – Como o senhor avalia a importância da ferrovia Centro Atlântida que passa pela Bahia e pode terminar em Aratu?

Demir Lourenço – Acredito que a Ferrovia Centro Atlântica teria um potencial muito grande de contribuir com a Fiol, que é um projeto que, a gente sabe, vai ser licitado agora já parcialmente construído pelo Governo e que será entregue à iniciativa privada no início de abril. Ela teria muito a contribuir para o transporte dos produtos, dos materiais e dos insumos do Oeste da Bahia para Salvador e Aratu. Você poderia me questionar quanto ao impacto disso, já que a Ferrovia vai entrar dentro da cidade, uma cidade que tem 3 milhões de habitantes, o incomodo que ela traia seria muito grande. E nesse aspecto, ressalto que ela tem um ramo que termina em Camaçari, no Polo Petroquímico. De lá, poderia ser feito um transbordo e transporte rodoviário até o Porto de Salvador. Quanto a Aratu, é essencial que a Ferrovia termine dentro do Porto. O Porto de Aratu fica fora da cidade, com capacidade de receber trens diariamente. Eu diria que isso é essencial inclusive para o seu crescimento. Diante disso, eu torço muito para que a decisão do Governo seja de renovar antecipadamente a concessão da FCA com a Vale do Rio Doce ou que a opção seja por realizar uma nova licitação, mas que essa decisão tenha como principal objetivo um compromisso com os investimentos para esse trecho baiano, algo que durante o primeiro arrendamento não teve os investimentos que eram necessários.

BE – O governo anunciou na semana passada que tem poucos recursos para investir em infraestrutura devido a gastos extras esse ano devido a pandemia. Isso pode atrapalhar o terminal?

Demir Lourenço – Não vejo isso. Do meu ponto de vista, o foco dos investimentos do Governo tem que ser em segurança, educação, saúde. E de uma forma acertada, ao longo das últimas décadas, as atividades portuárias estão sendo mais e mais privatizadas. Se vê o sucesso da privatização dos terminais de contêineres que aconteceu ali no final dos anos 90 e início de 2000, que fez com que o Brasil, pelo menos na área de contêineres, tenha tecnologia de ponta. Os terminais que existem no Brasil hoje, e obviamente o Tecon Salvador está incluído dentro dessa análise, eles não devem em nada a qualquer terminal mundial, seja a termos de tecnologia, de equipamentos, de sistema e mesmo de treinamento de seus colaboradores. O que nos falta aqui é escala. Agora, escala virá com o crescimento da economia, nós dependemos do crescimento do país. Nesse sentido, nós estamos fazendo a nossa parte, e muito importante, que é antecipar a infraestrutura para possibilitar esse crescimento de escalas aqui na Bahia.

Foto: divulgação