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ADARY OLIVEIRA: DE TAL MODO PASSAM OS DIAS

Redação - 28/10/2019 08:03

Selecionei três acontecimentos da semana para traduzir o que está acontecendo: manchas de óleo, reforma da previdência social e manutenção do Lava jato.

Nos anos 1960 as manchas de óleo eram comuns em nossas praias. Voltávamos para casa com a sola dos pés sujos e eu costumava usar óleo vegetal, comestível, e um pedaço de estopa para fazer a limpeza. O petróleo é solúvel em óleos mais leves e o óleo vegetal estava mais à mão e não trazia nenhuma complicação. Dizia-se que o petróleo das praias tinha origem em lavagem de porão de navios e sumiam tão rápido, como haviam chegado. A quantidade era pequena, não havia proibição e os órgão de meio ambiente ainda não estavam instalados. Pela quantidade do petróleo venezuelano que está chegando, não se trata de uma simples lavagem de tanques e sim de um grande derramamento.

Certa feita, na Praia de Jauá, conversava com amigos na beira mar, quando me chamou atenção uma plaqueta plástica que ia e voltava com as fracas ondas da preamar. Um dos banhistas a recolheu e leu a inscrição dizendo que se tratava de um estudo das correntes marítimasfeito pelo Instituto Oceanográfico da África do Sul, pedindo a devolução da chapinha, o que foi feito. As mesmas correntes que fizeram Amir Klink, partindo da África, chegar a Itacimirim, navegando num barco a remo, e as mesmas correntes que trouxeram o velho Pedro Álvares Cabral para Porto Seguro, no Descobrimento do Brasil.

A reforma da previdência foi aprovada e, por estarmos à beira do abismo, todos temiam que déssemos um passo à frente. O que é incrível é que alguns políticos, defendendo interesses partidários, posicionamento político pessoal ou mesmo por ideologia, tenham votado contra. Erraram, por mais que procurem justificativas para o ato ou que tentem convencer seus ex-eleitores dizendo-lhes saber de que lado está soprando o vento, para acertarem na postura de ação no futuro. Lamentável é que muitos dos que votaram a favor negociaram o apoio em troca de emendas, verbas e favores, para não usar palavrões ou termos de baixo calão que melhor lhesqualifiquem. Os negociadores do governo não podem seguir esse caminho, pois ele não tem volta. É verdadeiro o dito popular de que por onde passa um boi passa uma boiada. Como o dinheiro é finito e a ganância não, ficam comprometidas as reformas futuras.

O combate à corrupção simbolizado no Lava Jato, passou a ser atacado pelos que se beneficiam das práticas criminosas de enriquecimento, entrincheirados em artifícios jurídicos que encontram justificativas no estado de direito. São poucos, mas são poderosos. A comunidade não está de acordo com o desejo de se condenar o Lava Jato, deixando livres os corruptos. Recentemente, assisti a uma manifestação onde estavam reunidos elementos das classes A e B da nossa sociedade, em que um político foi vítima de uma estrondosa vaia por ter criticado o Lava jato. Imagine a quantos decibéis teria alcançado o ruído provocado pela vaia se o ambiente fosse de pessoas de classe mais popular.

O Lava jato foi o fenômeno de caráter social dos mais importantes da história do Brasil. O fato de estar carregado de esperança, por ver a justiça ser aplicada para punir poderosos, não tem similar em nossa história. Não se pode admitir, portanto, que ele seja reprimido pelos que ladinamente postam-se como espertalhões para manterem o status quo da roubalheira e da criminalidade.

De tal modo passam os dias e permanece a esperança de que as convulsões sociais do mundo tendam para posição de equilíbrio, buscando a mesmice comandada pelas forças entrópicas, estabelecendo a paz no Irã, acomodando o desejo separatista dos catalãs da Espanha, reduzindo os antagonismos chilenos, trazendo expectativa de prosperidade aos vizinhos argentinos e uruguaios na troca recente de novos governantes, e que Bolsonaro tenha arejado a mente nos países asiáticos de cultura milenar por onde passou nos últimos dez dias. Nós por aqui temos que trabalhar muito, para que a construção do país seja boa e ordeira, como pretendemos.

Adary Oliveira é engenheiro químico e professor – [email protected]

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