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ARMANDO AVENA: É HORA DE GASTAR SEU 13º SALÁRIO
ARMANDO AVENA:                                                                                                                                                        É HORA DE GASTAR SEU 13º SALÁRIO

Consumir é bom, poupar é um sacrifício, dizem os marginalistas.  Assim, para que alguém adie o consumo imediato e destine seu dinheiro à poupança é indispensável que haja uma compensação: os juros. Quanto maior a taxa de juros, maior a vontade de poupar.  Além de ser um sacrifício, a poupança é um risco, pois como somos mortais, ao renunciar ao consumo imediato, corremos o risco de morrer e não consumir nunca mais. Por isso, leitor, pense duas vezes, antes de decidir o que vai fazer com seu décimo- terceiro, que começará a ser pago no próximo dias 20. Ao receber o dinheiro, no entanto, a escolha não poderá ser apenas entre consumir ou poupar, antes será preciso ver a situação específica de cada um em relação à sua posição no mercado. Assim, se o trabalhador está endividado, é imperativo que use essa receita adicional para pagar suas dívidas e limpar seu nome para voltar ao mercado com seu crédito restabelecido. Por outro lado, se o trabalhador não estiver endividado e for precavido, deve reservar o 13o salário, ou parte dele, para as inevitáveis despesas que sempre ocorrem no início do ano, como a matrícula dos filhos, a compra de material escolar, o pagamento do IPTU e IPVA e outras tantas. Pode ainda, no terreno da prudência, e no longo prazo, usar o recurso para contratar ou incrementar um plano de previdência privado, especialmente o  PGBL que permite o desconto no Imposto de Renda do próximo ano.

Mas, se o consumidor não se alinha a nenhum desses casos, tem no décimo-terceiro uma receita extraordinária e vê-se frente a escolha entre a poupança ou o consumo, a recomendação é uma só: é hora de consumir. Não é uma recomendação trivial, especialmente num país como o nosso, sujeito a chuvas e trovoadas na economia, mas, apesar disso, o cenário econômico é bom para quem quer e pode consumir. Em primeiro lugar, essa é a primeira vez nos últimos três anos em que as expectativas econômicas são positivas, a incerteza na economia diminuiu, a inflação está em baixa, o emprego está crescendo e a nova equipe econômica parece confiável. Ou seja, após dois anos de brutal recessão, onde a ordem era não gastar, o que se vê agora é perspectiva de crescimento da renda e do emprego, o que torna o consumo uma possibilidade efetiva. Além do clima de otimismo, propício ao consumo, as condições do mercado financeiro não estimulam a poupança e a rentabilidade das aplicações estão tão baixas que não estimulam a poupança e já não faz muito sentido a tradicional recomendação de poupar agora, para aumentar o capital e assim consumir depois. Neste momento, o sacrifício de poupar não está sendo compensado por juros atrativos e a incerteza política foi reduzida, assim, quem não precisa do décimo-terceiro para pagar dívidas ou despesas vencidas e a vencer, esqueça a poupança e vá às compras, adquira o produto que lhe seduz, faça a viagem que adiou ou dê o presente que lhe fará feliz. E o melhor é que ao optar pelo consumo, o trabalhador estará estimulando o crescimento da economia, fazendo girar a roda da renda e do emprego e estimulando a retomada da produção e dos serviços em vários segmentos.

                                                      OLHO NOS TERRENOS

O mercado imobiliário não tira o olho de dois terrenos considerados top de linha em Salvador e cuja propriedade é  do poder público. Um deles é o terreno onde está localizado o Detran e a Rodoviária, exatamente no meio do mais importante centro financeiro e econômico da cidade. O Detran já está em processo de transferência e o governo já anunciou a construção de um nova rodoviária em Águas Claras.  O outro terreno é do Centro de Convenções, no jardim Armação, que o governo pretende demolir. Em relação a área do Detran, o local é especial para a construção de um equipamento urbano como uma praça ou um parque que daria qualidade urbana e ambiental ao novo centro de Salvador. Outros equipamentos próprios de uma cidade turística também seriam bem vindos no local.  Já o Centro de Convenções é um patrimônio arquitetônico da Bahia, irmão quase gêmeo do Centro George Pompidou em Paris, e não deveria ser demolido, mas recuperado. Nessas áreas, o uso imobiliário deveria ser descartado, afinal, são locais propícios para projetos que beneficiem toda a população.

                                                           PREFEITURA DE FEIRA

As eleições para Prefeitura de Feira de Santana em 2020 prometem ser das mais disputadas da história do município. Embora ainda seja cedo para qualquer especulação,  já há nomes mais ou menos postos para o pleito. Um deles é o de José Ronaldo, do DEM, quatro vezes prefeito da cidade e que está sem mandato após perder a eleição para govenador. Outro nome de destaque é o de Dayane Pimentel, a 4ª deputada mais votada da Bahia, presidente do PSL no Estado, e muito próxima do presidente eleito Jair Bolsonaro. O PT, que jamais conseguiu alcançar a Prefeitura de Feira de Santana deve tentar chegar ao poder executivo municipal com Zé Neto, deputado eleito mais votado na cidade com cerca de 50 mil votos, 18% do total.  O atual prefeito Colbert Martins também pode concorrer a reeleição, mas faz uma administração sem brilho e até o momento não conseguiu se desvencilhar da imagem de que está apenas completando o mandato de Zé Ronaldo. Muita água vai rolar até 2020, mas  de um modo ou de outro  Feira de Santana estará no centro da disputa política na Bahia.

                                                     ESCOLA SEM PARTIDO

O presidente Jair Bolsonaro precisa aproveitar sua lua-de-mel eleitoral para focar na aprovação de projetos na área econômica e de desburocratização que possam fazer o país deslanchar o crescimento. Mas existe uma armadilha posta: a discussão de projetos polêmicos capazes de mobilizar setores da sociedade e jogar fel na lua-de-mel do presidente com a nação. Um desses projetos é o famigerado Escola Sem Partido que supostamente pretende impedir a doutrinação nas escolas, mas que, na verdade, deseja impedir a diversidade de pensamento. É um projeto inexequível, afinal quem vai controlar o que o professor diz em sala de aula? Os próprios alunos? Câmaras de vídeos?  O máximo que esse projeto pode conseguir é fazer da escola um palco de guerra, com alunos denunciando professores e fotografando quadros-negros e outros absurdos mais. Mas com certeza terá ter o efeito colateral de mobilizar toda a juventude e as universidades gerando manifestações contra Jair Bolsonaro. Seria um erro se o presidente eleito desviasse o foco econômico para esse tipo de projeto que pouco contribui para o país.

                                                        RESULTADOS DE SETEMBRO

A queda de 1,3% nas vendas do comércio em setembro refletiu a incerteza do momento eleitoral. Quem não sabe o que vai acontecer no futuro, poupa. Mas no acumulado do ano, as vendas no comércio superam de longe o mesmo período de 2017 e devem se ampliar no último trimestre do ano.

 

ADARY OLIVEIRA: DILIGIS, CADIS CUM FAECE SICUTIS, AMICI
ADARY OLIVEIRA:                                                                                                                                                             DILIGIS, CADIS CUM FAECE SICUTIS, AMICI

A expressão acima escrita em latim significa “Comida feita, companhia desfeita”, se for usada uma linguagem dita civilizada, afável ou bem-educada. Quando se está com raiva usa-se o popular “virando as costas para o parceiro” ou mesmo “cuspindo no prato em que comeu”.

A Petrobras está assim se comportando quando insiste em realizar a decisão equivocada de fechamento das fábricas de fertilizantes de Camaçari, na Bahia, e de Laranjeiras, em Sergipe. Em abril deste ano publiquei um artigo intitulado “Três alternativas para a Fafen” onde mostrava que o problema da baixa lucratividade das duas plantas poderia ser resolvido com uma das seguintes escolhas: uso de política diferenciada de preços; exploração de gás de folhelho; e arrendamento das unidades fazendo operação “swap” do gás natural consumido como matéria prima. A Petrobras fez ouvido de mercador.

As duas fábricas que a Petrobras deseja fechar, com a falsa afirmativa de que elas dão prejuízo, têm capacidade de produção conjunta de 36,3 mil toneladas de ácido nítrico, 1 milhão de toneladas de amônia e 1,1 milhão de toneladas de ureia além de quantidades menores de dióxido de carbono e sulfato de amônio.

Além de suprir toda a cadeia de fertilizantes, fornecendo o elemento N (nitrogênio) da tríade de nutrientes NPK indispensável para a agroindústria, o ácido nítrico e a amônia alimentam várias outras cadeias produtivas. Segundo a Associação Brasileira da Indústria Química (ABIQUIM) mais de duas dezenas aplicações desses produtos seriam prejudicadas pelo fechamento dessas unidades fabris: nylon, espumas, nitrocelulose, tintas e vernizes, explosivos, catalizadores, pigmentos orgânicos, resinas termofixas, galvanoplastia, mineração, limpeza industrial, ração de aves e suínos (aminoácidos), defensivos agrícolas, alimentício (glutamato monossódico, lisina, gás refrigerante), bebidas, metalurgia, açúcar e álcool, tratamento de água, agente redutor de NOx, couro e vários outros produtos químicos.

Nada justifica a redução de 700 empregos diretos e de tributos arrecadados pelos governos da Bahia e Sergipe numa Região em que o governo tem dificuldade de identificar oportunidades de investimentos para contrabalançar um pouco a atratividade exercida pelo Sudeste, por ter melhor infraestrutura industrial e maior mercado consumidor.

A Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen) começou a ser instalada na Bahia em 1962 com a denominação de Conjunto Petroquímico da Bahia (Copeb) para fabricar amônia e ureia usando gás natural como matéria prima. Antes disso a maior parte do gás produzido nos poços do Recôncavo era jogado fora, queimado. Em 1964 a montagem da fábrica foi paralisada pelos militares que estavam no poder. Ela voltou a ser construída no final da década e foi inaugurada em 1971, no mesmo local onde em janeiro de 1974 seria iniciada a terraplenagem para instalação do Polo Petroquímico de Camaçari. A Fafen de Sergipe foi construída no início doa anos 80.

Naquela época a Bahia era o estado maior produtor de petróleo e gás natural do Brasil. Hoje é o quinto. Desde que a Petrobras se voltou para a Bacia de Campos, usando plataformas para águas rasas fabricadas na Bahia, que a monopolista passou a reduzir os investimentos na Bacia do Recôncavo, dando-lhe as costas. Agora, quando anuncia a venda da Refinaria de Mataripe e do Terminal de Madre de Deus, quer também paralisar as Fafens, alegando que são deficitárias. Invista em novas tecnologias, modernize as plantas, use as soluções indicadas para a Fafen e poderá verificar a inveracidade da alegação.

Vale a pena relembrar uma frase do ex-governador Luiz Viana Filho, em 1984, referindo-se à indústria petroquímica: “A estrada era longa e cheia de percalços. Cada passo exigiu algum sacrifício. Cada vitória teve um preço, por vezes alto, mas que devia ser pago para se alcançar o objetivo de assegurar aos baianos uma perspectiva de desenvolvimento”.

Adary Oliveira é presidente da Associação Comercial da Bahia – adary347@gmail.com

ARMANDO AVENA: A DEGRADAÇÃO DA CULTURA E DA POLÍTICA
ARMANDO AVENA: A DEGRADAÇÃO DA CULTURA E DA POLÍTICA

Há algo estranho ocorrendo na cultura e na política brasileira. Na política, o país passou, e talvez ainda esteja passando, por uma fase de deterioração dos valores democráticos, com dezenas de políticos usando o Estado em benefício próprio, com os partidos se apoderando das estruturas da máquina pública e com a população ocupando trincheiras nas redes sociais numa luta entre esquerda e direita. Na área cultural, o que se constata é a perda de qualidade da produção artística, provavelmente resultante  da simbiose perversa entre a política e a cultura e da disseminação na mídia de elementos culturais de baixo padrão.

Na música e na literatura é imediata a constatação do baixíssimo nível de produtos que tomaram conta das livrarias e dos meios de comunicação. Para os  amantes da literatura, por exemplo, dá tristeza  ver que nas livrarias de hoje só quem vende livros são artistas, blogueiros, especialistas em autoajuda ( tipo: “Seja Foda”, “Ligue o Foda-se”) e enlatados estrangeiros.  Para o amante da música de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e tantos outros, dá pena constatar que a poesia foi expulsa das composições, que as letras tornaram-se redações, discursos e perorações dignas de colegiais e que são coladas a facão em músicas de harmonia primária, sertanejo ou funk,  cujos acordes são emitidos por empresários.

São muitos os argumentos que explicam queda na qualidade artística e um deles é, sem dúvida, a política cultural brasileira que nos no últimos 16 anos passou a ser pendular, destinando todos os recursos  para artistas já famosos, que não precisam de subsídios do estado, ou para os famigerados editais que financiam a mediocridade com o  argumento capcioso de que todo mundo pode ser artista e de que tudo pode ser arte. Assim, a música e a literatura no Brasil estão perdendo qualidade e a deterioração é semelhante em outras áreas como o teatro, o cinema, a dança  e a preservação do patrimônio. A degradação cultural é fruto também da carência educacional e do baixo nível de informação e conhecimento da população que, massificada pela mídia, já não identifica o que é verdadeiramente arte e talento.

O mais interessante é que o mesmo processo de desinformação se verifica no campo das ideias políticas, onde a falta de conhecimento é total e ninguém sabe mais o que é liberalismo ou socialismo, tampouco o que é esquerda ou direita, e, por isso, o palco moderno do processo político – as redes sociais – tornaram-se um reduto de gritos e imprecações, de ódios e afetos fanáticos  e das fakenews que contribuem ainda mais para a desinformação geral. Nas redes sociais afirma-se, por exemplo, que o Brasil estava optando pela esquerda, mas ninguém sabe realmente o que é esquerda, e ninguém diz que um partido que fez da corrupção seu “modus operandi” não pode ser considerado de esquerda e está mais perto dos métodos de uma organização criminosa do que do receituário esquerdista.

Nas redes sociais diz-se agora que o Brasil optou pelo liberalismo, mas ninguém diz que que o verdadeiro liberalismo tem como dogma o direito do indivíduo de fazer escolhas individuas – de, por exemplo, ser religioso ou não, ser homossexual ou não, etc – sem que o estado se envolva nessas questões. O que um professor diz na sala de aula, o que um sacerdote diz na Igreja ou o que um jornalista diz no jornal não pode ser monitorado pelo estado, é objeto apenas da sociedade, ou do sistema jurídico se ele for acionado. Quando o estado se intromete nesses assuntos está flertando com a censura, impedindo a diversidade e o exercício do contraditório e querendo impor uma visão de mundo e aí a democracia começa a correr riscos.  Os valores democráticos no Brasil foram corroídos pelos políticos corruptos de vários partidos que, capitaneados pelo PT, saquearam o estado brasileiro. Mas isso não justifica uma polarização burra entre esquerda e direita, especialmente quando o partido que se diz de esquerda corrompe e aparelha a máquina pública e o partido que se diz de direita liberal pretende intervir e controlar os direitos do individuo, quebrando um dogma do liberalismo.

O problema do Brasil não tem relação com esquerda ou direita, ou com aqueles que defendem liberalismo ou socialismo – na Europa, por exemplo, essas correntes se revezam no poder –, o problema são os políticos corruptos, os partidos de aluguel, o uso da política para o enriquecimento pessoal ou para a manutenção do poder partidário. Dito isso, resta um consolo, pois as instituições brasileiras parecem sólidas e capazes de proteger a constituição, seja qual for o partido que esteja no poder. Na política essa é a alternativa, já na cultura o caminho é mais árduo.

                                        O MINISTRO E O PRESIDENTE

Paulo Guedes, o superministro da economia escolhido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, tem nome, sobrenome e marca. O nome é liberalismo, o sobrenome é privatização e a marca é a dos “Chicagos Boys”. Isso significa que Guedes tentará implementar no Brasil uma política liberalizante de forte conteúdo privatista e baseado nas ideias da escola de economia da Universidade de Chicago, na qual ele fez mestrado e que tem como guru o economista Milton Friedman. Essa escola tem como base retirar o estado da economia e estabelecer o livre mercado, ou seja, eliminar os entraves ao livre-comércio, inclusive as tarifas de importação, o que vai obrigar as empresas brasileiras a viver sem as “mamatas do Estado” e ter competir no mercado internacional. O primeiro sinal dessa política foi a subordinação do Ministério da Indústria e Comércio Exterior ao Ministério da Fazenda.  O problema é que existe  uma contradição entre essas propostas e as ideias do Presidente eleito Jair Bolsonaro, que pretende, como Donald Trump, preservar as empresas brasileiras, privatizar, mas nem tanto e abrir o mercado, mas não a ponto de que haja uma inundação de importados. A  dúvida é se essa contradição será superada e se será Bolsonaro ou Guedes aquele que vai rever os conceitos.

                                                            BOM PARAO TURISMO

Ano passado a Bahia recebeu cerca de 100 mil turistas argentinos e o anúncio da Secretaria do Turismo de que haverá mais um voo saindo de Salvador com destino a Rosário na Argentina, além dos que já existem para Buenos Aires e Córdoba, é alvissareiro. Alvissareiro também foi a inauguração pela Prefeitura de Salvador da Vila Jardim dos Namorados, nos mesmo moldes da Vila Caramuru, no Rio Vermelho.  Apesar da sua imensa orla, Salvador tem pouco espaços de  gastronomia, de lazer e entretenimento que ficam de cara para o mar.

                                                             FORMAÇÃO DO GOVERNO

“O melhor governo é aquele em que há o menor número de homens inúteis”, assim dizia Voltaire. E a máxima vale para o presidente eleito Jair Bolsonaro, que está montando seu governo, e para muitos governadores que, pelo Brasil afora, que estão montando ou reformando o secretariado.

 

JOSÉ MACIEL: O AGRONEGÓCIO NO GOVERNO  BOLSONARO
JOSÉ MACIEL: O AGRONEGÓCIO NO GOVERNO  BOLSONARO

Vitorioso na eleição presidencial, o programa do governo Bolsonaro para o agronegócio permanece vago, sem detalhamento, com várias indefinições e alguns   movimentos de “idas e recuos”. Nesse contexto, destacamos pelo menos dois pontos. O primeiro diz respeito à ideia cogitada inicialmente da incorporação do  Ministério do Meio Ambiente pela pasta da agricultura. Trata-se de uma ideia , a nosso juízo, inapropriada por pelo menos duas razões. A primeira é que poderia passar a impressão aos mercados  de que o futuro ministro da agricultura  poderia “atropelar” as funções relativas ao meio ambiente para este não atrapalhar as decisões  da política setorial e dos agropecuaristas, podendo gerar reações por parte de países importadores.A segunda é que as funções da pasta do meio ambiente, mormente o monitoramento ambiental e os processos de licenciamento ambiental , não se resumem à agropecuária, mas incluem outros  setores, como indústria, mineração, projetos energéticos e outros. Nesse sentido, a nossa preferência seria pela continuidade dos  ministérios separados, porém recomendando um pouco  mais de  celeridade nos licenciamentos ambientais. Porém, tendemos a concordar com a ideia  de reagrupar  no âmbito do Ministério da  Agricultura funções dispersas em outras pastas, como irrigação, pesca, etc.
O  segundo ponto diz respeito aos “ruídos ” de alguns membros da equipe do presidente eleito  na área internacional , com destaque para as críticas aos chineses e a proposta ainda não decidida de localizar a embaixada brasileira  em Jerusalém (tirando de Telavive) , como   fez o governo Trump. Pragmaticamente, não podemos desconhecer a importância das China como o maior comprador das exportações do nosso agronegócio. Com efeito , a China absorveu em 2017  cerca de 28% de nossas vendas agrícolas externas, ante 16% da União Europeia e 7% dos EUA. E esse  número pode crescer. Então, devemos dar um tratamento mais razoável aos  chineses.
Com relação à localização da embaixada, é preciso evitar melindrar alguns países árabes, que abocanham anualmente mais 11 bilhões de dólares de nossas exportações setoriais, atualmente no patamar de algo próximo a 100 bilhões de dólares por ano. Entre 15% e 20% da nossa produção de frangos tem os países árabes como destino. Desse modo, devemos manter e perseguir  a conquista de novos mercados, e, nesse sentido, devemos mirar os mercados dos países de todos os continentes. Pragmatismo em matéria de política internacional é ponto muito importante.
Por outro lado, o programa fala vagamente em priorizar as necessidades de investimentos na logística de escoamento da produção, mas não adianta nenhum detalhe a respeito. De modo semelhante, nos documentos que temos conhecimento, nenhuma menção é feita a alguns instrumentos indispensáveis, como o seguro rural e a pesquisa coordenada pela EMBRAPA. Enfim, estamos esperando um melhor detalhamento das propostas para o setor agropecuário.
José Maciel
 Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com
ARMANDO AVENA: O SUPER MINISTRO BOLSONARO
ARMANDO AVENA: O SUPER MINISTRO BOLSONARO

O Brasil vai ter um superministério partir de 1o de janeiro e o czar desse império, já anunciado pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, será o economista Paulo Guedes. O novo ministério vai englobar as pastas da fazenda, planejamento, indústria e comércio exterior e será tão importante que nenhuma despesa governamental será criada ou liberada sem a sua anuência, todos os empréstimos do país, inclusive de estados e municípios passarão por ele, bem como a administração do funcionalismo público, o sistema tributário, inclusive os impostos de importação e exportação, o controle das estatais e o BNDES.

Para completar, esse poderoso Ministério da Economia vai definir a política de juros, cambio e inflação. A experiência não é original, Delfim Neto foi um super ministro na época dos governos militares e a economista Zélia Cardoso de Mello teve papel semelhante no governo de Fernando Collor. No primeiro caso, a economia deslanchou e sua política resultou no chamado “milagre econômico”, mas eram tempos ditatoriais, nos quais não havia, nem se permitia, contestações. No segundo caso, a experiência foi um desastre, com direito a confisco da poupança e retorno da hiperinflação. À primeira vista, concentrar tantas funções e responsabilidades num único ministério parece um tiro no pé, pois significa que grande parte dos conflitos de interesses públicos e privados vão parar na mesa do seu titular.

A demanda por recursos em cada área de governo e entre os estados e entes políticos vai parar na mesa do super ministro sem escalas e a disputa por empréstimos, subsídios, tributos e centenas de demandas do setor privado também, o que significa que as pressões serão monumentais e com pouca intermediação. Ao que parece, o super ministro Paulo Guedes sabe o que quer quando defende a reforma da Previdência, a redução do pagamento dos juros da dívida e a privatização de estatais e teve a coragem de colocar o dedo na ferida ao afirmar que o empresário brasileiro está sempre buscando subsídios, refis e financiamentos junto ao Estado e que é hora de torná-lo mais competitivo e integrado à competição internacional. O discurso é bom, mas para ser implantado terá de vir junto com a redução de impostos e a desoneração e, ainda assim, sofrerá oposição de grande parte do empresariado brasileiro acostumado a andar com as muletas do Estado.

Concentrar todas as decisões num único ministério tem um aspecto positivo, pois todo o conjunto de medidas obedecerá a uma única diretriz, mas, ao mesmo tempo, concentrará toda a artilharia do conflito de interesses num único ministro e, no presidencialismo, trocar de ministro é tão simples, ou quase, quanto trocar de camisa. Guedes não precisa de um super ministério para comandar a economia, melhor seria posicionar-se como árbitro do conflito e podia fazer isso apenas como Ministro da Fazenda, já que é dali que o dinheiro sai. De todo modo, ainda é cedo para saber o alcance e o poder desse super ministro de Bolsonaro.

                          O PT ENTRE A  NARRATIVA E A REALIDADE

Pouco antes das eleições, o ex-presidente Lula, preso em Curitiba, perguntou, em carta dirigida à população brasileira, qual a razão do antipetismo que terminou por se mostrar determinante na eleição de Bolsonaro. A resposta é simples: o povo deixou de acreditar no PT. As teses defendidas pelo partido passaram a ser apenas narrativas, meras ficções, e o povo estava ávido por realidade. As ficções do PT estavam e estão por toda à parte. Confrontado com o fracasso do seu governo e de sua política econômica, a presidente Dilma Rousseff criou a narrativa de que tudo estava bem, que o país não precisava de ajuste fiscal e vendeu a ideia ao eleitor. Eleita, fez o oposto do que prometeu e jogou o país na maior recessão de sua história. Colocado frente à frente ao impeachment da Presidente, realizado de acordo com a constituição brasileira, o PT criou a narrativa do “golpe”, mobilizando a população e os militantes com mais uma ficção.

De imediato, criou outra narrativa consubstanciada no “fora Temer”, como se a população não soubesse que Temer foi aliado incondicional do PT e tornou-se presidente porque o partido lhe deu a vice presidência. Confrontado com a corrupção, o partido negou e ainda nega veementemente qualquer “mal feito”, embora, Lula, seu principal líder, esteja preso e o ex-ministro Antônio Palocci fazendo delação. E, frente a constatação de que Lula não seria candidato, o PT construiu mais uma narrativa consubstanciada na bandeira: “Lula Livre” e “Eleição sem Lula é fraude”. Para completar, com a economia em  frangalhos, 13 milhões de desempregados e as empresas quebrando, a campanha do candidato Fernando Haddad oferece ao país outra narrativa ficcional, que no primeiro momento afirma-se no mote de que “Lula é Haddad” e no momento seguinte, esconde o ex-presidente e a cor do partido.

Em seguida cria a narrativa da volta da tortura e do militarismo e termina fazendo, em plena crise fiscal, as mesmas propostas irresponsáveis da campanha de Dilma – aumento do salário-mínimo, botijão de gás a R$ 49,00, etc. O Partido do Trabalhares vive há muito tempo de narrativas, narrativas que se distanciaram dos verdadeiros problemas brasileiros. O PT sabe agora que o brasileiro cansou das narrativas e elegeu o candidato que oferecia a realidade nua e crua.  Resta agora ao Partido do Trabalhadores duas opções: continuar criando narrativas ou fazer uma oposição propositiva visando não apenas o poder, mas o interesse do povo brasileiro.

                                               A CHINA E A PONTE

Além das centenas de pessoas praticando tai chi chuan nos parques da cidade, da comida deliciosa e do inesquecível pato laqueado, duas coisas me impressionaram quando estive em Xangai, a maior das cidades chinesas: o desprezo pelas patentes e a forma de negociação dos chineses. O desprezo pelas patentes está nas milhares de cópias de produtos famosos vendidos em toda a parte e a forma de negociação está nas dezenas de reuniões que os chineses fazem, seguidos de memorando ou protocolos intenções. Mas a decisão de investir vai depender da taxa de retorno do investimento e do montante de capital que será investido. Assim, como a ponte Salvador-Itaparica precisa para sua concretização de pelo menos R$ 1,5 bilhão de dinheiro local, a única hipótese para viabilizar o projeto será o governo Bolsonaro colocar dinheiro federal, diretamente ou través do BNDES.

                                              MARIA E AS LIVRARIAS

A livraria Cultura entrou em recuperação judicial e muitas editoras retiraram seus livros das prateleiras. A livraria Saraiva está fechando 20 lojas. Por isso, comunico aos leitores que estão me enviando e-mails perguntado onde comprar meu livro, Maria Madalena: O Evangelho Segundo Maria: ele esta à venda na Livraria Leitura, do Shopping Bela Vista, na Livraria LDM do Paseo Itaigara e no  balcão da Editora Caramurê nos shoppings Barra e Salvador. Ou na internet, em todas as livrarias.

ARMANDO AVENA: UM REPTO PARA BOLSONARO
ARMANDO AVENA: UM REPTO PARA BOLSONARO

O candidato do PSL, Jair Bolsonaro, terá um grande desafio pela frente se for eleito Presidente da República neste domingo, conforme previsão de todos os institutos de pesquisa: o desafio de mudar sua concepção sobre os direitos humanos, de ampliar seu horizonte no relacionado ao respeito pelas instituições e de manter e fortalecer a democracia brasileira. O primeiro passo nesse sentido será assumir que a partir deste domingo se tornará presidente de todos os brasileiros e não apenas daqueles que o elegeram e compreender que no ambiente político democrático o chefe do Poder Executivo sofre oposição, tem projetos rejeitados, está sujeito a críticas e admoestações, sem que isso seja motivo para arroubos de autoridade ou nostalgias de tempos ditatoriais. Além disso, precisa fazer com que jamais passe pela sua cabeça, mesmo em momentos de crise, a possibilidade de desrespeitar as instituições e o Estado de  Direito. Esse é o repto para Bolsonaro.

A trajetória e as ideias do capitão de exército, que deve tornar-se presidente neste domingo, vai de encontro a muitos dos valores democráticos e, por vezes, ferem de morte os direitos humanos e individuais, mas o povo brasileiro, ao fazê-lo presidente, lhe dá a oportunidade única de repensar esses valores, mudar sua visão de mundo no que diz respeito a imposição de dogmas e preconceitos, e de entrar para a História como um defensor da democracia. Os críticos de Jair Bolsonaro afirmam que é exatamente a trajetória e as ideias de Bolsonaro que impedem tal esperança e talvez eles estejam certos, mas, se assim for, as instituições parecem preparadas para enfrentar qualquer ataque à constituição, e a população  brasileira, que em pesquisa recente mostrou seu apoio total à democracia, saberá posicionar-se para defende-la.

Naturalmente, o presidente eleito precisa dar uma satisfação aos seus eleitores cumprindo os pontos básicos do seu programa no que se refere às propostas econômicas, ao combate a violência, à redução no números de ministérios e encolhimento da burocracia, à concessão e privatização de empresas estatais e outros temas, mas a população não avalizou a apologia a violência nem a perseguição as minorias e as mulheres, tampouco compactua com o racismo, com comentários jocosos em relação aos nordestinos ou com ataques a instituições como o Supremo Tribunal Federal, guardião da constituição, ou o Congresso Nacional, que é a casa da democracia. Nesse sentido o repto que se faz a Jair Bolsonaro, se ele for eleito presidente, é que abandone os arroubos extremistas e as propostas radicais, admita a diversidade, a liberdade individual e o exercício do contraditório e que firme definitivamente um pacto com a democracia.

Armando Avena é escritor, jornalista e economista. Diretor do portal Bahia Econômica é Professor da Ufba e doutor em Ciências Sociais. 

Publicado no jornal Correio em 29/10/2018

 

 

A. AVENA: BOLSONARO E A BAHIA
A. AVENA: BOLSONARO E A BAHIA

A eleição de Jair Bolsonaro para a Presidência da República, a se confirmar a previsão dos institutos de pesquisa, terá enorme repercussão na Bahia, tanto do ponto de vista político, quanto no que se refere ao cenário econômico. Em termos políticos, o governo do Estado torna-se oposição ao Presidente da República e a Bahia será o mais importante reduto do partido que perdeu as eleições. Além da Bahia, o Partido dos Trabalhadores elegeu apenas os governadores do Ceará e do Piauí e disputa o 2o turno no Rio Grande do Norte, o que faz do governador Rui Costa, juntamente com o senador Jaques Wagner, a principal liderança petista entre os estados governados pelo partido.

O PT fará oposição cerrada ao novo governo e isso terá, inevitavelmente, implicações no reordenamento das forças políticas no estado. Um aspecto importante será a posição dos partidos que na Bahia compõe a base aliada de Rui Costa, mas que nacionalmente devem apoiar o presidente, pois será cada vez mais difícil votar em projetos nacionais que serão condenados explicitamente pelo PT e pelo governador.  Por outro lado, o papel do DEM na formação da base de apoio de Bolsonaro no Congresso Nacional também terá implicações políticas importantes na Bahia, já que, se compor a base do governo federal, o Prefeito ACM Neto, que preside o partido, saíra fortalecido, especialmente se o atual presidente da Câmara de Deputados, Rodrigo Maia, for reconduzido ao cargo.

A movimentação no tabuleiro político baiano será grande logo após a eleição de Jair Bolsonaro e nesse xadrez muitas peças vão mudar de lugar.  Assim, em se tratando de política, muita água vai rolar a partir de segunda-feira quando o país já terá oficialmente um presidente eleito. Sob o ponto de vista econômico, há duas questões a considerar. A primeira diz respeito à política econômica que será adotada caso Jair Bolsonaro seja eleito e que inevitavelmente afetará a Bahia. Tudo indica que Bolsonaro vai manter e aprofundar o ajuste fiscal e dar continuidade às reformas, especialmente a reforma da Previdência. Como os fundamentos da economia estão alinhados, esse tipo de política deve fazer a economia crescer e, se o presidente conseguir maioria no Congresso para aprovar as reformas e manter a estabilidade política, a tendência será a ampliação dos investimentos privados, especialmente se os projetos de concessão e privatização deslancharem rapidamente.

A economia baiana deve responder positivamente a esse processo, mas o grande problema estará no relacionamento entre o governo federal e o governo estadual, que será tenso, especialmente se o governador Rui Costa assumir uma postura oposicionista agressiva. Isso não significa que a Bahia não será contemplada com obras e investimentos federais, não só porque o candidato se comprometeu a retomar as obras paradas, e muitas delas estão na Bahia, a exemplo da Ferrovia Oeste-Leste, mas também pelos compromissos com o estado que é o 4º mais populoso do país e pelo fato de haver outros interlocutores, a exemplo da oposição e mesmo de lideranças não petistas aliadas ao governador que podem comandar a atração de recursos e projetos para o Estado. De todo modo, se a vitória de Bolsonaro se concretizar, a Bahia será outra a partir de 1º de janeiro e um novo cenário político vai se formar tendo como pano de fundo a oposição entre o governo do PT na Bahia e o governo federal.

                                                 O PRESIDENTE E A ECONOMIA

Diferente do que apregoam alguns analistas, qualquer que seja o Presidente eleito no próximo domingo ele vai receber o país em boas condições econômicas e com apenas um desafio de peso: ajustar as contas públicas.  É um desafio e tanto, mas a situação econômica é muito melhor, por exemplo, do que no início do segundo mandato de Dilma ou mesmo na posse de Temer, quando o país amargava uma recessão de grande porte. É tão melhor a situação que o PIB cresceu 1,5% nos últimos 12 meses, medido pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) e deve fechar o ano com um crescimento de quase 2% ou mais. Mesmo na questão fiscal houve um refresco e  o déficit público em 2018, que seria de R$ 159 bilhões, caiu para R$ 139 bilhões. Além disso, a Bolsa de Valores atingiu 85 mil pontos e tende a crescer, os investidores mostram-se ávidos por investir e o mercado de trabalho está se recuperando e já criou 720 mil novos empregos entre janeiro de setembro deste ano.

Para completar, a taxa de juros é a mais baixa da história e a inflação está abaixo do centro da meta. Ora, num cenário como este o grande problema é o déficit público e a relação dívida/PIB que será plenamente administrável se for feito um esforço de contenção de despesas e mantido o teto dos gastos. E se, além disso, o novo presidente jogar todo o peso dos seus milhões de votos no esforço para aprovar a reforma da previdência e para montar um plano de concessões e privatizações, estarão dadas as condições para um ciclo de novos investimentos e para o país aumentar suas taxas de crescimento. Mas para que isso aconteça é preciso que presidente eleito não embarque em aventuras, nem tencione o país com medidas autoritárias, projetos polêmicos, ameaças à democracia ou disputas com outros poderes de modo a por fim ao clima de incerteza que espanta o investimento.

                                             REFORMA DO SECRETARIADO

 A se concretizar a eleição de Jair Bolsonaro, como indicam todas as pesquisas de opinião, o governador Rui Costa terá de fazer uma reforma ampla do seu secretariado. Por um lado terá de montar um equipe com mais peso político para manter sua base política no interior, que será cortejada por muitos partidos, munidos de recursos e do apoio do governo federal. Além disso, a Bahia será o principal estado governado pelo PT, tendo de atender a demandas internas e externas, inclusive por cargos, afinal o partido perdeu a eleição em muitos estados e verá o desmonte dos cargos que ainda mantém, inclusive no governo federal. Por outro lado, o governador precisará de um grupo de secretários com perfil mais técnico, que drible o embate político, e tente negociar na base da competência recursos e projetos no âmbito da burocracia ministerial. Os partidos aliados devem continuar compondo o secretariado, mas vão ter de se equilibrar entre o poder estadual e o poder federal.

                                              OTTO E A BANCADA DO SENADO

O senador Otto Alencar continuará como um fiel da balança na política baiana. Otto vai controlar a bancada da Bahia no Senado, pois com a eleição de Ângelo Coronel, nome do seu partido e uma escolha pessoal sua, dois votos da Bahia no Senado estarão automaticamente alinhados e terão peso na votação de projetos. Além disso, o PSD, partido do Senador, elegeu a 2a maior bancada na Assembleia Legislativa e fez Otto Alencar Filho o segundo deputado mais votado da Bahia na Câmara de Deputados, além de fazer mais três federais do partido.

Publicado no jornalCorreio em 26/10/2018

 

 

 

 

 

ARMANDO AVENA: BAHIA: ESTA FALTANDO ECONOMIA
ARMANDO AVENA: BAHIA: ESTA FALTANDO ECONOMIA

Na insonsa campanha eleitoral que resultou na reeleição do governador Rui Costa, o candidato do MDB, João Santana, se destacou pela repetição de um bordão: o problema da Bahia é a falta economia. Abstraindo a intenção política, o diagnóstico estava correto: está faltando economia para dinamizar a Bahia e o governador Rui Costa vai ter de enfrentar o problema se quiser evitar que o estado continue a perder posição relativa no ranking dos maiores PIBs do país. Além disso, sem a dinamização da economia estadual, o crescimento real da arrecadação tenderá a cair e já não há mais espaço para ampliar os impostos como tem sido feito até aqui. O problema da economia baiana é que alguns dos seus principais segmentos perderam competitividade, alguns porque foram afetados pela recessão,  outros por conta da obsolescência e da falta de modernização e outros pela crônica deficiência de infraestrutura.

A indústria, principal setor produtivo do estado, é o caso mais emblemático, já que seu parque industrial vem perdendo competitividade por causa da deficiência de infraestrutura – a rede portuária e ferroviária em seu entorno está a demandar investimentos e modernização há mais de 20 anos –, mas também porque a produção do seu principal ramo produtivo, a produção de petróleo e o refino de combustíveis,  que representa 30% da produção industrial e  25% da arrecadação do ICMS, vem caindo há três anos consecutivos. Com isso, dezenas de empresas industriais, de comércio e serviços, que atendiam a demanda da Refinaria Landulpho Alves estão em crise. Além do problema da RLAM, há questões fundamentais, como a reformulação mundial da Ford e a questão da prorrogação dos incentivos, a possível venda da Braskem para um grupo holandês, os problemas da indústria de equipamentos eólicos, informática e outras  e  não há no governo do estado a definição de uma política industrial efetiva, seja para acompanhar essas questões, para atrair novos investimentos ou articular agentes econômicos.

Além do setor industrial, a falta de economia na Bahia pode ser explicado pela perda de produtividade no setor de construção civil, pela queda nos serviços industriais de utilidade pública e na indústria extrativa mineral, pelo retraimento dos negócios no setor serviços e pela perda de posição relativa no turismo, com dezenas de hotéis fechando as portas e o retraimento do turismo de negócios. Nos últimos anos,  quem vem dando algum fôlego à economia baiana é o setor de energia eólica e a agropecuária, mesmo assim aquela concentrada no Oeste. A verdade é que falta economia na Bahia, falta planejamento e política industrial e isso é fundamental, afinal, tradicionalmente é o governo do Estado que lidera os ciclos de investimentos no estado.

A pouca prioridade dada à economia se revela no baixo orçamento de áreas estratégicas como turismo, desenvolvimento econômico e tecnologia; no fato de que as duas principais secretarias ligadas a planejamento e desenvolvimento econômico não estejam nas mãos de técnicos ou empresários, mas de políticos; e na constatação de que os investimentos, ferroviários, portuários e turísticos, que poderiam dar mais competitividade à atividade econômica não estão saindo do papel. E a culpa não é do mensageiro, mas de uma conjunção de fatores que precisa ser enfrentada sob pena da economia baiana cair ainda mais no ranking nacional. A verdade é que está faltando economia na Bahia, faltando quem pense e aja estrategicamente para estimular negócios, atrair empresas e dinamizar o setor produtivo.

                                                         A FORD E A BAHIA

O complexo automobilístico da Ford, um dos pilares da indústria baiana, está na berlinda. Por um lado, a matriz da empresa anuncia uma reformulação mundial, prevendo a reorganização de sua força de trabalho e a redução de suas operações comerciais, especialmente na América do Sul. Por outro, em Brasília, uma disputa com a Fiat de Pernambuco sobre a forma de prorrogação dos incentivos fez a Ford ameaçar transferir sua produção para São Paulo. Enquanto isso, a Fiat anuncia investimentos de 7,5 bilhões para duplicar sua fábrica em Pernambuco.

                                                        LULA E AS ELEIÇÕES

No atual estágio do processo eleitoral, com as pesquisas indicando a vitória do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, cabe indagar  qual terá sido o objetivo e as intenções do ex-presidente Lula, ao conduzir o processo eleitoral no âmbito do PT da forma como conduziu? Parece claro que o objetivo de Lula não era ganhar a eleição pois, se assim fosse, escolheria seu substituto desde o início do processo eleitoral, para que ele tomasse corpo, ampliasse os apoios e chegasse ao segundo turno com luz própria. Parece claro também que Lula não estava preocupado com a manutenção do poder no âmbito da esquerda, pois, se assim fosse, teria apoiado a candidatura de Ciro Gomes com um vice do PT, como sugeriu o senador eleito Jaques Wagner.

Talvez o único objetivo do ex-presidente tenha sido demonstrar a sua própria força, sua capacidade de alavancar um candidato inexpressivo em menos de 1 mês e coloca-lo no segundo turno, para depois deixar a campanha por conta própria. Desse modo saiu-se bem no 1o turno e, fora da campanha, não terá responsabilidade pela derrota no 2o turno. Pode ter sido uma jogada de mestre, bem próxima das maquinações dos velhos caudilhos da América Latina, mas pode ter sido também o canto de cisne que que decreta o fim do espetáculo.

                                                   HADDAD E BOLSONARO

A forma como os dois candidatos a presidente, Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, estão se apresentando na televisão está quebrando todas as regras do marketing. A primeira delas afirma que não se ganha eleição batendo forte e todos os dias no adversário, mas é isso que a campanha de Haddad está fazendo. Sempre foi consensual, por outro lado,  que um candidatado jamais afirma que já ganhou, mas Bolsonaro diz em alto e bom tom que já está com a mão na faixa. Quem trabalha com marketing sabe também que ninguém compra um produto que é ou parece falso, mas  Haddad está desdizendo, sem explicar porque, tudo o que  disse no primeiro turno, marcando a campanha pela inautenticidade.

Até ontem Haddad era Lula e, de repente, o presidente some, o vermelho desaparece, e fica uma sensação de que “estão querendo me enganar”.  O marketing sempre considerou também que o programa eleitoral e a televisão eram a  melhor forma de eleger qualquer candidato, mas Bolsonaro desdenha de ambos, faz um programa simples, quase um PowerPoint, dá entrevistas por internet, com baixa qualidade de imagem e som, e não participa de debates.

ADARY OLIVEIRA: OS MENINOS DA RUA NOVA
ADARY OLIVEIRA: OS MENINOS DA RUA NOVA

Nos meados do Século XX a Rua Nova começou a se formar entre a Rua do Curral e o Campo do Gado num dos municípios do interior do Estado da Bahia. Deram a ela o nome de um dos líderes republicanos, mas o nome não pegou. Apesar da rua não ser calçada, pois o pavimento era de barro, as casas eram bonitas, tinham jardins, quintal, passeio e meio fio. Não possuíam tubulação hidráulica, mas tinham reservatórios que eram abastecidos por caminhão tanque ou pelos aguadeiros que traziam água em carotes ou em pipas, coletada nos riachos perenes circundantes da formosa e linda serra nas proximidades.

Os meninos da Rua Nova jogavam bola do Campo do Gado e divertiam-se com as brincadeiras da época: jogo de pá e cambito, picula (esconde-esconde), macaco (amarelinha), caracol, artista e bandido, bumba meu boi, entre outros. Os garotos da época que conseguiram estudar se transformaram em bons profissionais e hoje levam uma vida de classe média considerada boa. Os que não estudaram, com poucas exceções, ficaram na pobreza e não vivem bem. Está aí uma prova de que o estudo liberta as pessoas e permite a realização de trabalho profissional que dignifica os homens.

Alguns meninos da Rua Nova ficaram pelo caminho. Um deles, o Tité, habilidoso com a bola, jogava na linha e fazia gols como ninguém, sumiu da rua. Tinha contraído uma tosse e passou a faltar aos jogos. Foi visto pela última vez com aparência esquelética, sentado numa pedra defronte de sua casa na Rua do Curral. Estava tuberculoso e não havia quem lhe prestasse serviço médico. Era comum dizer que quando os meninos atingiam os 15 anos, eles seguiam em frente e tinham vida longa.

Um dos moradores da Rua Nova era um comerciante muito dinâmico. Ele comprava produtos agrícolas da região e revendia-os em Salvador. Seu armazém era ocupado por mamona, farinha de mandioca, feijão, milho, ouricuri, pó de palha, fumo (tabaco) e tudo o mais que se produzisse. Ele financiava a produção adiantando recursos para os pequenos lavradores e embarcava os lotes de mercadorias para a Bahia, como chamavam Salvador, em caminhões, via rodoviária, ou em vagões, pela estrada de ferro. Antes de se estabelecer nessa vila ele tentara a vida no Rio de Janeiro, em 1935. Por não ter cursado nem o primário o emprego que ele conseguiu foi de ascensorista, num dos edifícios da Praça Tiradentes.

A falta de instrução fez com que ele levasse uma vida muito dura nos três anos que viveu por lá. Quando voltou para a Bahia casou-se com uma moça prendada e prometeu educar seus filhos para não passarem pelas dificuldades que ele passou no Rio. Revisitou a Cidade Maravilhosa em 1950 para assistir à Copa do Mundo. Quando voltou trouxe na bagagem um jogo de camisas do Flamengo para o time do mesmo nome que ele presidia na cidade, e uma bola de couro nº 1, para alegria dos garotos do Campo do Gado.

Seis dos meninos da Rua Nova, seus filhos, passaram a ser encaminhados para Salvador para estudarem em colégio interno, pois na vila não havia curso secundário, só o primário. Os meninos se deram bem nos estudos e todos concluíram o curso de graduação. Três deles finalizaram o doutorado em geografia, música e eletrônica. Abraçaram profissões que não lhe permitiram voltar para a cidade de origem, se fixaram na Capital.

Um outro personagem da Rua Nova, fazendeiro próspero e filho de coronel chefe político, também tinha seis filhos e os educou bem. Todos concluíram o curso de graduação. Dois se formaram em medicina e seguiram a carreira política inspirados no avô, sendo muito bem-sucedidos. Um deles foi Prefeito e é Deputado. O Outro foi Deputado, Secretário de Estado, Governador e hoje é Senador da República.

Quem viveu naqueles tempos e testemunhou o desenrolar daquelas histórias acredita, com razão, que se todos os meninos de hoje forem bem-educados, poderão no futuro contribuir muito, muito mesmo, para a formatação do país desenvolvido que todos desejam.

 

Adary Oliveira

Presidente da Associação Comercial da Bahia

 adary347@gmail.com

ARMANDO AVENA: ELEIÇÃO 2018: A IRONIA DA HISTÓRIA
ARMANDO AVENA: ELEIÇÃO 2018: A IRONIA DA HISTÓRIA

Na democracia o povo fala através da urnas e o que se ouviu no último domingo foi um grito estrondoso de parcela expressiva da população. A reação a esse grito veio com chavões políticos de todo tipo e com manifestações iradas de ambos os lados da militância, mas poucos analisaram com racionalidade o recado do povo. O que mais se ouviu foi que uma onda conservadora varreu o Brasil e que o brasileiro demonstrou ter valores conservadores e por isso votou em massa no candidato que defendia essas ideias. Não foi bem assim. O grito não foi ideológico, foi apenas para avisar que o brasileiro não aceita mais a forma como o país vem sendo governado, com governos e políticos exercendo o fisiologismo e a corrupção a exaustão.

O candidato do PSL, Jair Bolsonaro, catalisou essa insatisfação, mas isso já aconteceu outras vezes na história recente do país. Em 2002, uma insatisfação semelhante tomou conta do Brasil, e a população, farta do governo Fernando Henrique Cardoso, votou em massa por algo diferente, algo que representasse o novo. Naquele momento o político que catalisou a insatisfação da população brasileira tinha o nome de Luiz Inácio Lula da Silva. E assim, Lula, um político de esquerda,  ganhou o primeiro turno das eleições com 46,4% do votos e elegeu-se no segundo turno com a promessa de fazer uma nova política. Passados 16 anos, o povo brasileiro novamente se manifestou contra o fisiologismo e a corrupção, mas agora é um político de direita, Jair Bolsonaro, que catalisou a insatisfação da população e, prometendo mudar a política,  ganhou o primeiro turno com os mesmos 46% de votos.  Que ironia da História!

Mas quais seriam as razões para essa reviravolta? A resposta é simples: Lula e seu partido, que chegaram ao poder prometendo mudar a política, passaram a agir com os mesmos métodos que combatiam e ampliaram desmedidamente o fisiologismo na política, a irresponsabilidade na economia e o aparelhamento do Estado, institucionalizando a corrupção e a propina como instrumentos do processo político.  O resultado das eleições foi um movimento contrário a essa prática, um grito de repúdio a corrupção e a  ideia de que “os fins justificam os meios”. Por isso,  é possível afirmar sem erro que a maioria da população brasileira ao votar em Jair Bolsonaro e nos demais candidatos, estava votando contra o PT.

E quanto ao segundo turno? Na democracia, o segundo turno é fundamental para fazer com que um dos candidatos amplie o apoio e passe a representar a maior parte da população e, para isso, vai precisar eliminar os radicalismos e pender para o centro. No caso de Jair Bolsonaro, a tendência é que haja uma certa flexibilização no seu discurso, diminuindo a apologia ao armamento generalizado e as ofensas  as minorias e as mulheres, para assim tornar-se mais palatável a maioria do eleitorado. No que se refere a Fernando Haddad e o Partido dos Trabalhadores, o caminho seria  o partido fazer uma profunda autocrítica e, reconhecendo os graves erros que cometeu e que todos os dias enchem  as páginas dos jornais, propor um novo pacto à sociedade, apelando para outras lideranças mais confiáveis neste momento. Mas autocrítica não é da natureza do PT, por isso, o mais provável é que as mudanças sejam cosméticas (tipo trocar a cor vermelha pelo verde e amarelo), mas sem concessões na essência ou na forma de fazer política. Esse é o cenário e, como sempre ocorre nas democracias, será o povo que dará o veredicto final.

                                                O NORDESTE E A ELEIÇÃO

Triste Nordeste, ó quão dessemelhante. Parafraseio o poeta Gregório de Mattos para assim denunciar as bobagens que ouvi sobre o papel da região Nordeste nessas eleições. Houve de tudo, desde raivosos posts culpando a região por votar maciçamente no PT, e assim impedir a vitória de Jair Bolsonaro no primeiro turno, até manifestações efusivas afirmando que o Nordeste tornou-se o bastião da esquerda  e do pensamento progressista no país. Isso sem contar nos mapas querendo eliminar a região da geografia brasileira. Na verdade, o desempenho eleitoral do Nordeste reflete apenas sua pobreza, pois a região é tão dependente dos recursos dos governos, especialmente do governo federal, que tende sempre a votar em quem está no poder.

Isso acontece porque a administração pública em seu conjunto é responsável por cerca de 25% do PIB nordestino e mais de 50% dos municípios da região tem como principal e as vezes única fonte de renda os recursos da Previdência Social e do Bolsa Família. É por isso que, em 1998, Fernando Henrique Cardoso, disputando com Lula, ganhou em todos os estados do Nordeste, com exceção do Ceará porque Ciro Gomes era candidato, e obteve 54% dos votos na região contra cerca de 30% de Lula. Dizia-se, então, que os grotões do Nordeste elegeram FHC. Agora deu-se o mesmo e o Nordeste votou em peso com o PT que ainda representa o governo, apesar de Temer. É a dependência econômica ao governo federal que explica o voto nordestino e só será diferente quando a região for emancipada em termos econômicos e educacionais.

                                                 2º TURNO: OS NÚMEROS

Desde que foi instituído o 2º turno, em 1989, a maior diferença de votos no primeiro turno entre os dois candidatos que disputavam o 2º turno se deu em 2002, quando Lula colocou uma vantagem de 23 pontos percentuais sobre o 2º colocado José Serra. A segunda maior diferença foi a verificada nesta eleição entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, da ordem de 17%. Em todas as disputas de 2º turno, o candidato que venceu no 1º turno tornou-se presidente. A julgar pelo padrão histórico e pelos números da pesquisa Datafolha, que coloca Bolsonaro com 58% das intenções de votos e Haddad com 42%, só o imponderável poderá mudar o quadro eleitoral.

                                                  É PRECISO FALAR DE ECONOMIA

A politica econômica precisa entrar na pauta do país e dos candidatos. Dois dos pilares econômicos estão alinhados – a inflação e o câmbio – mas o problema fiscal se deteriora a cada dia e a relação Dívida/PIB já atingiu 76%. Se a relação continuar aumentando vai ficar cada vez mais caro rolar a dívida e a conta dos juros vai aumentar.  É verdade que o déficit primário do governo caiu dos R$ 150 bilhões previstos inicialmente para R$ 139 bilhões, por conta de receitas adicionais e pequena redução nas despesas, mas o problema continua. A Previdência e as transferências a Estados e Municípios absorvem mais de 95% dos recursos do Tesouro, e o que sobra para investimentos é muito pouco. Os candidatos precisam, portanto,  detalhar sua política econômica no horário eleitoral, afinal, os brasileiros precisam saber o que esperar em 2019.

                                                 OS MARQUETEIROS E A TV

Esta eleição parece que vai marcar o ocaso dos marqueteiros políticos e da propaganda eleitoral na televisão. Eleição se ganha com emoção e a emoção parece ter se mudado para as redes sociais.