WILSON F. MENEZES: A DESTRUIÇÃO DO PENSAR E A DESOLAÇÃO DO CURSO ECONOMIA DA UFBA

WILSON F. MENEZES: A DESTRUIÇÃO DO PENSAR E A DESOLAÇÃO DO CURSO ECONOMIA DA UFBA

A quem serve o “livre” pensar? Como ser livre se temos que obedecer a um currículo previamente estabelecido? Um curso universitário não pode deixar de definir as identidades das disciplinas oferecidas, bem como o sentido de composição e sequência das mesmas, tendo em vista uma finalidade. O ensino universitário deve ter como objetivo a capacitação de pessoas para melhor atuar profissionalmente e induzir o país à novos horizontes em termos de desenvolvimento econômico e elevação do bem-estar de seu povo. No âmbito da ciência, isso requer uma intermediação das teorias, sempre de maneira contestável. No campo da economia são as teorias econômicas. Inovações nessa área requerem enorme esforço, mas também grande conhecimento do já existente, até mesmo para distinguir o que é e o que não é novo, caso contrário corre-se o risco de inventar a roda. Uma rápida comparação entre os currículos de três universidades chinesas, escolhidas propositalmente, com o do curso de economia da UFBa certamente auxiliará a mostrar a anomalia desse último.
A Peking University oferece um currículo muito quantitativo. Para segui-lo, exige-se um nível muito alto em habilidades matemáticas. Esse curso oferece as disciplinas de Macroeconomia Avançada, Microeconomia Avançada e Econometria Aplicada, de maneira que o programa prepara os alunos para uma solida carreira de economista, a ser exercida em empresas, setor público, instituições financeiras, bancos centrais, organizações nacionais e internacionais, além da pesquisa acadêmica.
A China University of Petroleum oferece um curso de Economia Industrial onde se aplica o conhecimento da teoria econômica e da econometria para abordar questões práticas. Mediante a diminuição do patamar de abstração da teoria econômica para abordar uma variedade de problemas do mundo real, busca-se o instrumental dos métodos quantitativos, juntamente com o auxílio de estudos de caso e analogias históricas, para analisar os mais variados problemas econômicos. O curso leva o “mercado às empresas”, ou seja, analisa as empresas e suas formas de atuação nas diferentes estruturas de mercado. Isso é realizado com base na Microeconomia e suas aplicações práticas.
A Shandong University, uma das maiores escolas de economia da China, abrange cinco departamentos: 1) Economia, 2) Finanças, 3) Finanças Públicas, 4) Economia Internacional e Comércio Exterior, 5) Gestão de Riscos e de Seguros. Esse centro de pesquisa oferece uma variedade de programas com forte integração entre o ensino e o exercício profissional. Encontram-se aí sete programas de doutorado, 12 cursos de mestrado e 6 cursos de graduação. O ensino busca, antes de tudo, treinar talentos para a Matemática Financeira e Engenharia Financeira.
Vejamos o contraste com a Faculdade de Economia da UFBa, onde são oferecidas três disciplinas de Economia Marxista, um curso de História do Pensamento Econômico (com ênfase em Marx), uma Evolução do Capitalismo (por que Hobsbawn e não Alfred Chandler?). Um curso de Introdução à Economia, onde se faz mais um proselitismo marxista, ao invés de iniciar o aluno nas abordagens micro e macro. Ademais, uma “mão invisível” (noturna) colocou História do Pensamento Econômico como pré-requisito de Microeconomia. A Economia do Setor Público somente pode ser vista após cursar Teoria Macroeconômica III, quando no mundo inteiro a abordagem é microeconômica com o estudo dos bens públicos e dos paradoxos da escolha pública. Isso tudo é muito “revolucionário”, somos os únicos a cometer tal cavalgadura, ou seja, fazemos aquilo que a China (Socialista) recusa. Como se não bastasse, inventou-se a “pomposa” disciplina (não existente nos currículos da graduação e pós) para concurso público: “Economia Política, Estruturas Produtivas, Comerciais e Financeiras do Capitalismo Recente”. Vozes discordantes dizem: a utilidade dessa gerigonça é “aparelhar”.
Não adianta oferecer cursos que incorporem o estudo das incertezas; as estruturas de mercado utilizando do instrumental da teoria dos jogos; estudar a burocracia com base na teoria da escolha pública ou mesmo apresentar a abordagem da Escola Austríaca. Quem sai da cartilha é “Neoclássico”, dentre outros impropérios. Isso porque “tudo isso é bobagem e não serve para nada”. Microeconomia nem pensar, Econometria é o assassinato da razão. Estudo das Séries Temporais e Econometria Espacial é coisa de imperialista de olho em nossas riquezas.
A China da Revolução Cultural condenou os pássaros à morte, alegando que os mesmos comiam o arroz, provocando a diminuição de sua produção. Nas colheitas subsequentes, no entanto, o quantitativo desse cereal desabou. Descobriram então que os pássaros, além do arroz, comiam também os insetos e larvas, os quais floresceram em consequência da impiedosa caça. Acho que a Matemática, a Econometria e, sobretudo, a Microeconomia são os pássaros da Faculdade de Economia da UFBa. Descreva-me suas liturgias e adivinharei o verdadeiro sentido de sua heresia heterodoxa, certamente rumo ao atraso intelectual ainda que travestido de “progressismo”.

* Professor Titular da Faculdade de Economia da UFBa, Doutor em Economia pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), Pós-doutor pela Universidade de Paris XIII (Villetaneuse).

1 comentário


  1. Contraditório é que o professor, que implicitamente se coloca como um paladino do “estado da arte” da teoria, provavelmente seria visto como não mais que um curioso por essas universidades que tanto bajula.
    Não publica nada relevante há anos. Se é que alguma vez já o fez. Ao que parece, os queixumes com requintes de ressentimento ocupam boa parte do seu tempo. Mas isso não é importante.
    O que interessa é que o professor parece estar alheio ao debate atual sobre o ensino de Economia. O suposto “estado da arte” da teoria econômica vem sendo cada vez mais contestado pelos seus próprios elaboradores (veja Romer, Paul – The Trouble with macroeconomics, 2016). A teoria econômica convencional (essa elogiada pelo professor) vem sendo cada vez mais considerada um mero apêndice da matemática aplicada, sem relevância prática. Converteu-se numa “ciência autista”. Não conseguiu explicar nem mesmo um evento maiúsculo como a crise de 2008, incompatível com seus dogmas. Movimentos pelo pluralismo no ensino de economia pipocam em todo o mundo (Rethinking Economics, o manifesto “ A quoi servent les économistes s’ils disent tous la même chose? – Manifeste pour une économie pluraliste“, assinado por nomes de peso como R. Boyer e J. Galbraith). Reclama-se a interação da economia com outras ciências humanas, e, pasmem, a inclusão de teorias heterodoxas como marxista e austríaca nos currículos.

    A faculdade de economia da UFBA, assim, mantém-se como um espaço plural. Há marxistas, neoclássicos, neoschumpeterianos, neoinstitucionalistas. Os reiterados ataques a esse pluralismo, mal disfarçadamente, envolvem mais política e vaidade do que propriamente um objetivo de promover a instituição. Fica patente que a liça é pelo poder de dizer o que deve e o que não deve ser estudado na faculdade de economia da UFBA. Todo tipo de autoritarismo precisa ser combatido.

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