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JOSÉ MACIEL – OS ESTADOS DEVEM RECRIAR SUAS INSTITUIÇÕES DE ASSISTÊNCIA TÉCNICA E PESQUISA AGROPECUÁRIA?

Redação - 27/04/2026 05:00

O esvaziamento e a extinção de órgãos estaduais de pesquisa agropecuária têm suscitado o debate acerca da necessidade e oportunidade de seu fortalecimento ou recriação em alguns casos, e esta reflexão será o tema da coluna de hoje.

Em realidade , a maioria dos estados importantes extinguiu ou esvaziou  suas entidades que executavam atividades de pesquisa agropecuária, em caráter complementar ao trabalho de pesquisa da EMBRAPA e do sistema federal , que incluía algumas universidades, alegando falta de recursos orçamentários, Rio Grande do Sul, Paraná, SÃO Paulo e Bahia, por exemplo, extinguiram ou reduziram consideravelmente suas  atividades de pesquisa e experimentação agropecuária,  atividades essas conduzidas por empresas e instituições que deram enorme contribuição ao país.

Criado pelo Imperador D. Pedro II, em 1887 para dar suporte tecnológico à cafeicultura nacional., o  lendário e ainda existente Instituto Agronômico de Campinas (IAC) tem um acervo de resultados de pesquisas importantes, sobretudo nas áreas do café, cana-de-açúcar, algodão e citrus, dentre outros produtos. No café, o Instituto criou mais de 60 variedades, incluindo aquelas resistentes a pragas e  à ferrugem ;  na cana, atuou no melhoramento genético  de variedades visando elevar o  teor de scarose e adaptadas à colheita mecanizada. Na área de citrus, o foco foi o melhoramento genético visando obter resistência a doenças, como o Amarelinho e variedades de porta-enxertos para a produção de suco. O IAC não faz concurso há muitos anos para reposição  de pesquisadores aposentados e o governo andou cogitando equivocadamente a venda de algumas fazendas que abrigavam campos experimentais, mas teve que recuar em face da reação da comunidade científica.

A FEPAGRO, fundação de pesquisa agrícola do Rio Grande do Sul, depois de um esforço importantede pesquisas em várias áreas, como fixação biológica de nitrogênio em soja, correção de acidez de solos gaúchos e outras áreas,  foi extinta em  2016, e sua tentativa de destinar suas atividades de pesquisa a um departamento da Secretaria estadual de Agricultura foi um retumbante fracasso. Atualmente, a Federação  da Agricultura do Estado já se alinha aos que pretendem recriá-la.

Na Bahia, a extinção da EBDA  em 2015, também foi considerada um equívoco, do nosso ponto de vista. As relevantes contribuições da EBDA e da EPABA, sua antecessora, nas pesquisas e distribuição de mudas de inúmeras espécies de fruteiras para  a  formação de pomares em várias regiões do Estado, e as pesquisas com algodão e abacaxi, em Itaberaba,  constituem parte de um legado de inestimável valor, A assistência técnica da atual sucessora , a Bahiater, não atinge mais do que 5% do contingente de propriedades rurais baianas(  cerca de 35 mil propriedades rurais), enquanto a EMATER-RS  assiste cerca de 206 mil estabelecimentos rurais no Rio Grande   do Sul, algo como 60% do contingente total de propriedades rurais do Estado.

Diante desse cenário, a recriação  dos órgãos estaduais, incluindo a nossa EBDA, se nos afigura oportuna , por conta dos apertados e declinantes orçamentos da EMBRAPA,  de lacunas importantes na agenda de culturas e criações de interesse da Bahia não cobertas pela EMBRAPA e da necessidade de empreender esforços na pesquisa e introdução em escala comercial de lavouras que estão sendo tropicalizadas e domesticadas , a exemplo das frutas vermelhas , como maçã, pera, caqui, oliveira, pistache, tâmara, umbu e outras.

O pistache, por exemplo, vai ser pesquisado na Serra do Ibiapaba, no Ceará , por decisão da EMBRAPA , e a Chapada Diamantina, na Bahia, com seu clima tropical de altitude, semelhante ao  da Região cearense escolhida, foi inicialmente preterida. Um órgão estadual atuante e qualificado pode reivindicar de forma tecnicamente fundamentada  o pleito de estender essa pesquisa estratégica à região da Chapada Baiana. O umbu com suas variedades criadas pela EMBRAPA, precisa da atuação de um órgão estadual para difundir e formar pomares nas regiões baianas com aptidão climática para esta cultura.

Obviamente que a recriação da entidade baiana tem de se dar em novos moldes, mais enxuta, com menor capilaridade, sem necessidade de adquirir muitas fazendas para implantar seus campos experimentais. Paralelamente a esse movimento, a Bahia tem de continuar tirando proveito de órgãos federais de pesquisa, como a EMBRAPA FRUTICULTURA, EMBRAPA SEMIÁRIDO, EMBRAPA CERRADOS e outros, para que mais pesquisas agropecuárias sejam realizadas em nosso território.

(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-MAIL:  jose.macielsantos@hotmail.com

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