sábado, 18 de abril de 2026
Euro Dólar

O COTIDIANO E A RUÍNA – ARMANDO AVENA

Redação - 18/04/2026 16:53

Às vezes acho que o tempo está passando depressa demais ou, talvez, ele passe como sempre passou e nós é que imprimimos cada vez mais velocidade ao tempo que temos.

O progresso no mundo moderno passou a ser sinônimo de velocidade, e isso se dá não apenas no sentido de tornar mais velozes nossos meios de transporte, mas também de aumentar a velocidade e a rapidez com que fazemos as coisas, de modo a ter mais tempo para fazer mais coisas.

Ser bem-sucedido no mundo moderno é ser rápido, veloz, estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Paradoxalmente, a rapidez com que nos movemos no dia a dia tem o condão de fazer o tempo passar mais rápido, ou assim parece, e de tal maneira que, quanto mais velozes somos, mais rapidamente o tempo passa.

Quando estou num avião, penso na velocidade desse meio de transporte e no nosso alheamento em relação a quem o dirige. Lembro-me, então, do escritor Thomas De Quincey viajando de carruagem, ainda no século XIX, impressionado com a velocidade do veículo, mas, ao mesmo tempo, percebendo que ele estava à mercê do condutor e da precisão da carruagem. Em determinado momento, ele vê, vindo em sentido contrário, na mesma pista e na mesma direção, outra carruagem com igual velocidade e sente que “entre eles e a eternidade não há mais que um minuto e meio”. Desesperado, De Quincey grita em sinal de alerta, mas percebe que, se esse primeiro passo competia a ele, o segundo competiria apenas ao cocheiro e o terceiro, a Deus. De Quincey ficaria mais preocupado se visse como são velozes os veículos modernos.

A humanidade parece ter estabelecido como meta agilizar seu dia a dia, fazendo do cotidiano uma azáfama perene que gira cada vez mais rápido e exige cada vez mais deslocamentos. Isso responde, naturalmente, aos ditames da profissão, às necessidades de um mercado cada vez mais competitivo e ao imperativo de ganhar a vida, mas tal velocidade resulta, no mais das vezes, no alheamento de si mesmo.

O cotidiano é nossa ruína, diria o filósofo Martin Heidegger, e fazê-lo correr apenas nos arruinará mais rapidamente. Heidegger afirmou que o cotidiano era a ruína, pois desviava o ser humano de seu projeto essencial, alienando-o de seu objetivo principal e impedindo-o de tornar-se o “Ser em si”. Heidegger escreveu um livro poderoso intitulado Ser e Tempo, no qual afirma que o homem é jogado no mundo sem ter sido consultado e que, por isso, precisa buscar a transcendência, algo além de si mesmo. No entanto, as preocupações cotidianas, cada vez mais aceleradas, criam uma existência inautêntica e o desviam desse objetivo, sacrificando seu eu individual e, assim, distanciando-o do objetivo essencial de sua vida, que é tornar-se si mesmo.

Uau! Perdoe-me, leitor, essa digressão filosófica que não estava prevista, mas é que, de vez em quando, o cotidiano fica muito parecido com a “ruína”.

Publicado no jornal A Tarde em 17/04/2026

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.