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EMPRESÁRIA BAIANA É SELECIONADA PARA CONFERÊNCIA NO VALE DO SILÍCIO

João Paulo - 02/04/2026 15:00 - Atualizado 02/04/2026

Jéssica Owadokun, 35 anos, empresária, soteropolitana e fundadora da plataforma de educação financeira A Base da Riqueza, foi selecionada pelo programa Do Silêncio ao Silício para integrar a delegação brasileira na Conferência Brazil at Silicon Valley (BSV) 2026, que ocorre entre 6 e 8 de abril no Google MP7, em Sunnyvale, Califórnia. A baiana é uma das poucas empreendedoras negras do país a chegar a um dos espaços de inovação mais concorridos do mundo — um evento restrito a convidados que em 2025 reuniu 880 líderes, incluindo 450 CEOs e 250 executivos C-level.

A seleção acontece num cenário de desigualdade persistente. Segundo levantamento do Sebrae com base na PNAD Contínua, empreendedores negros ganham, em média, 46,2% menos do que empreendedores brancos — R$ 2.477 contra R$ 4.492 no quarto trimestre de 2024, o maior valor da série histórica para ambos os grupos. Para mulheres negras, a disparidade é ainda maior: elas recebem menos de 40% do rendimento de homens brancos donos de negócio e apenas 52,5% do que ganham mulheres brancas no mesmo segmento. Isso apesar de serem mais escolarizadas: 42,6% das empreendedoras negras têm ensino médio completo, ante 33,7% dos homens brancos empreendedores.

As barreiras vão além da renda. O Instituto RME aponta que 45% das empreendedoras negras têm crédito negado, índice 50% superior ao registrado entre empresárias brancas. A formalização avança, mas ainda alcança apenas 24,7% dos empreendedores negros — o que significa que cerca de 75% ainda operam na informalidade, com as regiões Norte e Nordeste concentrando as maiores taxas de exclusão.

“Empreendedoras negras têm mais estudo, mais resiliência e mais criatividade do que qualquer estatística consegue medir. O que falta não é capacidade, é acesso. E é exatamente isso que eu vou buscar no Vale do Silício.”

— Jéssica Owadokun, fundadora da A Base da Riqueza

Salvador, maior cidade negra fora do continente africano e centro do empreendedorismo afro-brasileiro, é de onde parte Jéssica. A seleção pelo programa Do Silêncio ao Silício — iniciativa que custeia passagem, hospedagem, visto e alimentação de empreendedores negros em imersão no Vale — foi disputada: na primeira edição, mais de 300 candidaturas concorreram a dez vagas. O programa, criado pela administradora Danielle Marques, já levou duas turmas ao Vale do Silício e acompanha os participantes por ao menos 18 meses após o retorno.

A Brazil at Silicon Valley foi criada em 2019 por estudantes brasileiros de Stanford e Berkeley. Em sua oitava edição, a conferência traz o tema Beyond Human Scale e debate o impacto da inteligência artificial na tomada de decisão empresarial. A participação é restrita a convidados e a conferência é considerada uma das mais seletivas entre as iniciativas voltadas a líderes e fundadores brasileiros.

Paralelamente à conferência, Jéssica usará a visibilidade da viagem para lançar as inscrições da comunidade digital da A Base da Riqueza. A plataforma oferece aulas gravadas, encontros ao vivo e conteúdo sobre finanças pessoais, finanças para negócios e estruturação empresarial, com foco nas causas que levam pequenos negócios a fechar: falta de planejamento, decisões sem dados e desconhecimento dos mecanismos financeiros que separam empresas sustentáveis das que não chegam ao quinto ano.

O empreendedorismo negro movimenta cerca de R$ 2 trilhões por ano no Brasil, segundo estimativas do Sebrae, e representa 52,7% de todos os donos de negócio do país — ainda abaixo dos 56,6% que a população negra representa na demografia brasileira. A presença de uma empresária baiana na BSV é, ao mesmo tempo, conquista individual e sinal de um segmento que existe, produz e exige espaço.

“No Brasil também se constrói inovação. Essa conferência é a prova de que empreendedores negros têm lugar no palco global.”

— Jéssica Owadokun

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