

O Supremo Tribunal Federal (STF) julga nesta quarta-feira o alcance das decisões dos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes, que suspenderam o pagamento dos chamados “penduricalhos” do serviço público, benefícios que permitem a servidores e magistrados receber acima do teto constitucional e que não estão previstos em lei.
O julgamento vai definir se ficam mantidas, e em que extensão, as liminares concedidas por Dino e Gilmar que interromperam pagamentos considerados irregulares. A análise ocorre em meio à pressão para que a Corte estabeleça critérios mais claros sobre o tema, alvo recorrente de críticas e sem solução legislativa definitiva.
Na prática, o STF será chamado a arbitrar até onde vão as exceções ao teto do funcionalismo, hoje equivalente ao salário dos ministros da própria Corte, cerca de R$ 46 mil, e quais verbas podem, de fato, ser classificadas como indenizatórias.
O julgamento será feito sob a influência de uma nota técnica elaborada por uma comissão criada no âmbito do STF, com representantes dos três Poderes, que tenta oferecer uma saída estruturada para o problema.
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A principal proposta é usar a legislação do Imposto de Renda como parâmetro para diferenciar o que é remuneração sujeita ao teto do que pode ser considerado indenização legítima. A ideia é reduzir a margem de interpretação que, ao longo dos anos, permitiu a criação de benefícios usados para inflar salários acima do limite constitucional.
O diagnóstico da comissão é que há uma “insegurança jurídica que dura décadas”, justamente pela ausência de critérios uniformes sobre o tema.
Além disso, o grupo propõe a criação de limites globais para o pagamento de verbas indenizatórias, inclusive para evitar que parcelas classificadas formalmente como indenização funcionem, na prática, como complementação salarial. ‘Penduricalhos’ sem fim: pagamentos acima do teto no Judiciário crescem 43% em um ano e superam R$ 10 bi
A aposta é que esse modelo permita uma aplicação mais imediata, sem necessidade de interromper pagamentos de forma abrupta, ao mesmo tempo em que reduz distorções.
Levantamento da comissão também aponta que os pagamentos acima do teto chegam a cerca de R$ 9,8 bilhões por ano apenas na magistratura, além de valores bilionários também no Ministério Público.
Segundo o relatório, a manutenção do modelo atual pressiona o orçamento público e reduz a capacidade de investimento do Estado, além de concentrar renda no topo do funcionalismo.
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Nos bastidores, ministros veem o julgamento como uma tentativa de dar uma resposta à escalada de críticas aos supersalários.
A própria comissão reconhece, no entanto, que uma solução definitiva dependerá do Congresso, responsável por aprovar uma lei nacional que padronize o tratamento das verbas indenizatórias e do teto remuneratório. O STF, contudo, pode acabar assumindo um papel de regulador provisório, seja consolidando a linha mais dura adotada nas liminares recentes, seja abrindo espaço para um modelo de transição.
Foto: Rosinei Coutinho/STF/16-10-2025