domingo, 03 de maio de 2026
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ARMANDO AVENA – TRUMP, A GUERRA E A ESTAGFLAÇÃO

Redação - 19/03/2026 06:59

Napoleão Bonaparte, um dos maiores estrategistas de todos os tempos, dizia que seu exército abrigava a todos, menos os ignorantes com iniciativa. “Eles são capazes de destruir um exército”, dizia o corso. E a maior nação do mundo moderno elegeu como seu presidente, Donald Trump, um ignorante com iniciativa.

Cabe lembrar que ignorante é aquele que ignora, que não tem conhecimento. Trump é dotado de inteligência, uma inteligência intuitiva, daqueles que tem talento para muitas coisas, inclusive negócios: é esperto, astuto, sabe ler as fraquezas do adversário, mas é ignorante, no sentido de que lhe falta conhecimento histórico e intelectual e por isso não tem a percepção do estrago que suas ações podem causar.

A característica maior desse tipo de líder é a ausência de previsão, eles decidem bem o lance imediato, mas não pesam desdobramentos, não avaliam alternativas, não trabalham com hipóteses, não tem capacidade de projetar o futuro. Agem como se cada decisão existisse isoladamente, sem cadeia de efeitos e isso pode destruir um exército, um país e, sendo ele presidente dos Estados Unidos, o mundo.

Outra característica desse tipo de líder é seu pragmatismo, ele volta atrás em suas decisões, sem qualquer escrúpulo, quando percebe que errou. E pouco se importa se entre um momento e outro morreram centenas ou milhares de pessoas.

Ao decidir invadir o Irã, Trump, entusiasmado com o sucesso que obteve na Venezuela e insuflado por Benjamin Netanyahu, tomou uma decisão equivocada, típica dos ignorantes com iniciativa.

O resultado está se configurando em uma crise geoeconômica de grandes proporções, como não se via desde os anos 70 e com potencial de desorganizar a economia global.

O aumento abrupto dos preços do petróleo, que já ultrapassaram a marca de US$ 100, é um típico choque de oferta. Energia mais cara encarece transporte, produção industrial e alimentos e irradia inflação por toda a economia global. Esse movimento ocorre num momento em que as principais economias do mundo ainda lidam com inflação e taxas de juros elevadas.

O petróleo caro vai reduzir o crescimento no planeta. As empresas vão enfrentar custos maiores e margens comprimidas, enquanto os consumidores vão perder poder de compra. O resultado pode ser uma desaceleração econômica sincronizada entre os países e com direito a taxas de juros altas, incerteza geopolítica e volatilidade dos mercados financeiros.

E, assim, um espectro passou a assombrar a economia mundial: o espectro da estagflação, que representa inflação alta com baixo crescimento. É o pior dos mundos. Nele, os bancos centrais precisam de juros altos para conter a inflação, e isso agrava ainda mais a desaceleração econômica.

A guerra pressiona as cadeias logísticas, eleva os custos de transporte e seguros marítimos e isso gera inflação e baixo crescimento do PIB. Países como o Brasil podem sofrer com a desvalorização cambial, o aumento do custo de financiamento e a queda nas exportações.

É concreta a possibilidade de um ciclo global de estagflação e Trump precisa voltar atrás mais uma vez e acabar com a guerra.

 

O BC FEZ O QUE PODE

O Banco Central poderia ter reduzido as taxas de juros em percentuais maiores desde o último trimestre do ano. Não fez e agora não pode fazer mais. É que com a guerra no Irã, a incerteza tomou conta da economia, a inflação pode dar um repique e não era prudente reduzir os juros em mais de 0,25%. Já há uma escalada nas taxas de juros futuros e o Tesouro Nacional foi obrigado a fazer esta semana uma grande recompra de títulos públicos, que chegou a R$ 43 bilhões em dois dias. Isso foi essencial para conter a volatilidade no mercado. A ação preventiva do governo denota o medo da disparada dos juros futuros. A guerra pode ter efeito desastroso na economia.

ARMAZENAGEM NO OESTE

A capacidade de armazenagem de grãos no Brasil vai ter um déficit de 135 milhões de toneladas, o maior já registrado. Só haverá lugar para guardar 60% da produção. Na Bahia, o percentual de produção que não tem onde ser armazenado é de 35%. A região do Matopiba, que engloba o Maranhão, o Tocantins, o Piauí e a Bahia, terá um déficit de armazenagem de 22 milhões de toneladas. Os maiores déficits estão em Barreiras, Santa Maria da Vitória e Ribeira do Pombal. Sem ter onde guardar os grãos, os produtores vendem logo. As tradings usam isso para baixar o preço. Sem ter onde armazenar, os produtores têm menos poder de barganha e quem  ganha são as gigantes multinacionais, que dominam o setor.

Publicado no jornal A Tarde em 19/03/2026

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