terça, 16 de junho de 2026
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CELSO CUNHA NETO – O PALÁCIO RIO BRANCO E A TENSÃO URBANÍSTICA

Redação - 15/06/2026 04:59

Recentemente, foi confirmado que o Palácio Rio Branco, um marco na administração pública brasileira, vai virar o luxuoso Hotel Allard sob a bandeira Rosewood. Essa mudança traz à tona uma discussão super complexa sobre quem realmente tem o direito de se apropriar da nossa história.

Com um investimento de R$ 250 milhões, a ideia é salvar um dos edifícios mais impressionantes da Praça Tomé de Sousa da degradação. A narrativa oficial é bem atraente e se encaixa numa tendência que estamos vendo em várias partes do mundo. De Paris a Lisboa, muitos governos estão transferindo a responsabilidade pela manutenção de seus monumentos para a iniciativa privada, já que não conseguem arcar com os custos. Assim, eles salvam o patrimônio da ruína física, mas até que ponto isso vale em termos simbólicos?

A questão aqui vai além do prédio em si; é sobre como esse espaço vai ser usado socialmente. O Palácio sempre foi um símbolo de poder, mas nas últimas décadas virou um local de pertencimento para o público, com o Memorial dos Governadores e varandas que oferecem vistas incríveis da Baía de Todos-os-Santos.

O consórcio promete manter algumas áreas abertas ao público. Mas a realidade é que a arquitetura hoteleira de luxo muitas vezes funciona com lógicas que excluem. Hotéis “seis estrelas” criam barreiras invisíveis como design interno sofisticado e segurança excessiva que podem fazer qualquer um sentir que não pertence ali. O grande risco é a gentrificação do olhar: pessoas comuns podem se sentir estranhas no palácio que conta sua própria história.

Requalificar o Centro Histórico de Salvador é super necessário e urgente, e investimentos privados podem ajudar na revitalização. No entanto, a cidade não pode ser apenas um cenário para turistas ricos. O verdadeiro teste do Hotel Allard será mostrar que preservar o patrimônio não precisa significar criar divisões sociais.

O Ecletismo em Xeque: A Estética e o Simbolismo do Novo Luxo

Na semana passada, falamos sobre as tensões urbanísticas e os riscos de exclusão social com a transformação do Palácio Rio Branco em hotel de luxo. Hoje, vamos explorar a parte estética e simbólica desse projeto que promete mudar o coração cívico de Salvador.

Pra entender bem essa mudança, precisamos ver a fachada do Palácio como mais do que só tijolos; ela é quase um manifesto político. Reconstruído em 1919 depois do trágico bombardeio de Salvador, esse edifício é uma das joias do Ecletismo no Brasil. Com sua cúpula imponente e colunas coríntias desenhadas pelo arquiteto italiano Júlio Conti, ele foi feito pra exalar autoridade e progresso era pra ser o centro do poder republicano baiano.

Agora, passar esse espaço para as mãos da iniciativa privada traz uma nova conotação: a estética do poder dá lugar ao consumo luxuoso.

O desafio para adaptar isso tudo será gigante. Como implementar as exigências de um hotel seis estrelas como ar condicionado rigoroso e acústica impecável sem perder os afrescos e o caráter original? E como essa nova decoração vai interagir com as escadarias de mármore Carrara e os vitrais antigos? É uma preocupação válida pensar no risco de criar algo “falso histórico”, onde elementos originais ficam ofuscados por um design exageradamente opulento.

E não podemos esquecer do impacto na área ao redor. A Praça Tomé de Sousa é como o coração urbano do Brasil, um espaço pensado pra encontros e vida pública. Colocar um hotel ultra-luxuoso ali muda completamente a dinâmica desse lugar. A movimentação constante de hóspedes, manobristas e segurança privada pode transformar parte da praça numa antessala para um enclave global.

Essa transformação do Palácio Rio Branco pode marcar o início de uma nova era na conservação patrimonial financiada pelo capital privado em Salvador. Mas precisamos estar atentos; a crítica e a sociedade devem ficar alertas. Que os novos lustres e suítes não apaguem o fato de que ali embaixo ainda pulsa toda a memória da primeira capital do Brasil. O Palácio pode ganhar novas estrelas, mas seu verdadeiro brilho sempre virá da sua rica história.

 

 

Celso Cunha Neto

Arquiteto e Urbanista, Critico de Arte membro da ABCA.

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