

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu nesta quarta-feira (18) cortar a Selic, taxa básica de juro, em 0,25 ponto percentual (p.p.) para 14,75% ao ano, em sua segunda reunião de 2026.
Esta foi a primeira diminuição da Selic desde maio de 2024, ou seja, em quase dois anos.
Nos últimos dias, houve mudanças nas projeções, uma vez que o balanço de riscos ficou menos favorável associado à alta do petróleo, que passou de US$ 70 por barril para além dos US$ 100 o barril nas últimas semanas.
Na reunião anterior, de janeiro, o Copom já havia indicado que começaria a diminuir os juros neste encontro. A aposta até pouco tempo majoritária, de corte de 0,50 ponto percentual na Selic, perdeu espaço e os investidores passaram a ver uma redução de 0,25 ponto. No fim da tarde desta quarta, a curva de juros indicava cerca de 90% de chance de um corte de 0,25 ponto porcentual na taxa Selic contra 10% de probabilidade de manutenção.
Antes do corte realizado nesta quarta, a Selic estava em 15% ao ano desde junho de 2025. O período de estabilidade ocorreu depois de o BC aumentar a taxa em 4,50 pontos a partir de setembro de 2024. Esse foi o segundo maior ciclo de alta dos juros nos últimos 20 anos, perdendo apenas para a alta de 11,75 pontos entre março de 2021 e agosto de 2022, que ocorreu após o fim da pandemia.
Em comunicado, o Copom defendeu serenidade e cautela para os passos futuros do processo de calibração dos juros básicos.
Juro real do Brasil é o 2° maior do mundo pela oitava vez seguida com Selic em 14,75%
Taxa chegou a 9,51% considerando a Selic e a inflação; ranking leva em conta as 40 maiores economias do mundo e é liderado pela Turquia.
“O Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária, de forma que os passos futuros do processo de calibração da taxa básica de juros possam incorporar novas informações que aumentem a clareza sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre o nível de preços”, disse o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC em comunicado.
Veja comentários de dois especialistas
Natalie Victal – Economista chefe da SulAmérica Investimentos
O Banco Central entregou o esperado, com corte de 0,25 ponto. No comunicado, sinalizou um ciclo de calibração, mas deixou a porta aberta para ajustes no ritmo à frente.
Chamou atenção o peso maior dado ao cenário externo e, principalmente, a projeção de inflação em 3,3%, que nos parece um sinal dovish. O impacto do choque de petróleo recente nas projeções foi limitado, inclusive em administrados, o que surpreendeu.
Seguimos com nossa projeção de corte de 0,50 ponto em abril. Ainda vemos um cenário macro desafiador e espaço limitado para flexibilização, mas a comunicação de hoje foi mais suave e pode estimular o mercado a discutir uma aceleração do ciclo, se o ambiente externo melhorar. A ata deve trazer mais explicação quanto às premissas adotadas na projeção.
Pablo Spyer – Conselho da Ancord e economista
A decisão do Copom traz um recado claro ao mercado: o Banco Central iniciou o ciclo de cortes, mas fez isso com extrema cautela, sem se comprometer com o ritmo daqui para frente.
A redução da Selic para 14,75% reconhece que a política monetária já está funcionando– a atividade começa a desacelerar e a inflação dá sinais de alívio–, mas o tom do comunicado mostra que o trabalho ainda não terminou.
O ambiente externo piorou de forma relevante. A escalada dos conflitos no Oriente Médio elevou o preço das commodities, especialmente o petróleo, aumentando a incerteza global e pressionando as condições financeiras. Esse cenário exige ainda mais prudência de países emergentes. Ao mesmo tempo, no Brasil, a inflação segue acima da meta, as expectativas continuam desancoradas e a inflação de serviços ainda mostra resistência, mantendo o Banco Central em alerta.
Nesse contexto, o Banco Central do Brasil optou por dar início ao processo de flexibilização, mas preservando total flexibilidade para os próximos passos. É um BC que corta juros, mas mantém o pé no freio, acompanhando de perto tanto o cenário internacional quanto a dinâmica doméstica.
A decisão busca equilibrar a convergência da inflação para a meta com a suavização dos impactos sobre a atividade, em um momento de elevada incerteza.
O recado final é direto: o ciclo começou, mas o caminho será gradual e dependente dos dados. O Banco Central abriu a porta para a queda dos juros, mas deixou claro que ainda vai caminhar com cautela.
Lucas Constantino – estrategista-chefe da GCB Investimentos
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu reduzir a taxa Selic em 0,25 p.p., para 14,75% a.a., em linha com o cenário-base da GCB Investimentos, em um contexto de mudanças relevantes nas expectativas desde a última reunião. A decisão marca o início do ciclo de cortes de juros, ainda que em ritmo mais moderado, refletindo o aumento recente das incertezas no ambiente macroeconômico e a necessidade de maior cautela por parte da autoridade monetária.
O comunicado preservou um tom prudente, reforçando que o ritmo e a magnitude dos próximos ajustes seguirão condicionados à evolução dos dados e ao grau de confiança na trajetória de convergência da inflação à meta de 3,0%. Ainda que o início do ciclo tenha sido confirmado, a comunicação do Comitê sugere menor espaço para movimentos mais intensos no curto prazo, diante de um balanço de riscos que se tornou menos favorável nas últimas semanas.
A inflação de fevereiro, medida pelo IPCA, veio acima das expectativas e apresentou leve piora, com aceleração dos núcleos e da inflação de serviços. As expectativas de inflação também permanecem acima da meta no horizonte relevante. Adicionalmente, a escalada recente das tensões no Oriente Médio, com forte elevação dos preços do petróleo, adicionou um novo vetor de risco para a dinâmica inflacionária, cujos efeitos ainda não foram capturados pelos dados correntes. Esse choque tende a se transmitir para a economia brasileira, pressionando os índices de preços ao longo dos próximos meses, tornando o processo de desinflação mais desafiador.
Do lado da atividade, os indicadores seguem apontando para uma desaceleração gradual da economia, refletindo os efeitos defasados de uma política monetária mantida em patamar bastante restritivo por período prolongado. Segmentos mais sensíveis às condições financeiras continuam pressionados, enquanto o mercado de trabalho tem atenuado, no curto prazo, os impactos desse aperto monetário sobre a demanda.
Projeção GCB Investimentos
A decisão de iniciar o ciclo de cortes com um movimento mais moderado reforça a estratégia do Banco Central de calibrar a política monetária em um ambiente marcado, simultaneamente, pelo enfraquecimento da atividade, pelo elevado custo do serviço da dívida do governo, empresas e famílias e pelo aumento das incertezas, especialmente diante dos riscos inflacionários e cambiais associados à atual conjuntura.
A GCB Investimentos mantém a expectativa de continuidade do ciclo de flexibilização ao longo de 2026, porém em ritmo bem gradual, condicionado à evolução da inflação, das expectativas e dos desdobramentos do cenário global, em um processo que tende a ser mais cauteloso do que o inicialmente projetado.
Por fim, além da imprevisibilidade externa, o ambiente doméstico permanece desafiador, com o cenário fiscal e político ainda no radar dos agentes econômicos, às vésperas das eleições presidenciais. A evolução desses fatores será determinante para a trajetória das expectativas e para a condução da política monetária nos próximos trimestres.
crédito: Agência Brasil.