

A guerra entre EUA e Israel contra o Irã tem potencial para causar estragos importantes nas exportações do nosso agro para os países do Oriente Médio, podendo atingir não só as vendas para o Irã, como também para todos os países da região.
Em primeiro lugar, já estão acontecendo aumentos e oscilações nos preços do petróleo, com previsíveis repercussões nos custos de transportes de produtos agropecuários exportados para o mundo todo, e também de insumos importados e usados na agropecuária, a exemplo dos fertilizantes, e, caso particular, dos fertilizantes nitrogenados comprados do Irã e outros países do Oriente Médio.
Num primeiro recorte, temos que as exportações do agro para o Irã podem ser dificultadas por ameaças de fechamento do Estreito de Ormuz, rota marítima da maior relevância por onde passam navios transportando petróleo e os produtos e insumos já citados, obrigando o Brasil e outros países a buscar rotas alternativas mais caras, e com preços de seguros igualmente mais dispendiosos. A pauta de exportações do agro brasileira para o Irã soma 2, 9 bilhões de dólares anuais (dados de 2025) e é constituída de vendas de milho ( o país persa compra 24% do milho nacional exportado, a maior fatia de nossas vendas externas), soja, farelos, açúcar e outros itens.
Num recorte mais amplo, outros países da região dependem do uso da mesma rota de Ormuz para vender e comprar produtos agropecuários e insumos para uso agrícola, incluindo, claro, os itens comprados ou destinados ao Brasil. Países importantes para o nosso comércio exterior estão incluidos nesse universo, a exemplo da Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, para quem exportamos anualmente 2,9 bilhões de dólares e 2,5 bilhões de dólares de produtos agropecuários, respectivamente. Para a Arábia Saudita, exportamos frango halal (abatidos e armazenados segundo requisitos das leis islâmicas), açúcar, carne bovina , milho e outros produtos. Para os Emirados árabes, vendemos principalmente, frango, carne bovina, soja e outros itens. As vendas setoriais que dependem da passagem pelo estreito de Ormuz para chegar aos seus destinos incluem ainda nações como o Iraque, Kwait, Catar e Bahrein. Arábia Saudita, Catar e Irã , por sua vez, são importantes fornecedores de fertilizantes nitrogenados ao Brasil, a exemplo de ureia, amônia e nitrato de amônia, e essas cargas têm de passar do mesmo jeito por Ormuz para chegar ao Brasil. Irã, Arábia Saudita e Emirados Árabes perfazem 67% das exportações setoriais brasileiras para o Oriente Médio, cravadas na casa dos 12,4 bilhões de dólares anuais, e em trajetória de crescimento significativo.
Irã, Iraque, Kwait, Catar e Barhein não têm praticamente rotas marítimas alternativas de acesso dos produtos brasileiros, pois todos ficam no Golfo Pérsico, e qualquer comércio marítimo depende de passagem por Ormuz. Já os Emirados Árabes e a Arábia Saudita têm rotas alternativas , mas de custo de transporte mais elevado.
Do ponto de vista dos fertilizantes importados, o Irã, Catar e Arábia Saudita exportam para nós algo próximo a 800 milhões de dólares anuais, o que representa algo próximo de 15% de nossas compras do exterior. Esses fertilizantes nitrogenados são usados principalmente nas lavouras de cana, trigo, milho e café. Soja fixa nitrogênio atmosférico através do uso de inoculantes e, portanto, não importa adubo nitrogenado. O restante do suprimento desse tipo de fertilizante vem da Rússia, China , EUA, Nigéria, Omã, Barhein, Bolívia, Egito e outros países.
Outro destaque em que o Brasil pode ser afetado é o mercado de carnes Halal, no qual o Brasil é o maior produtor e exportador mundial. As carnes de frango e bovina são abatidas segundo exigências das leis islâmicas, com o abate humanizado, voltado para Meca, sem estresse para o animal, e as carnes são processadas e armazenadas separadamente, das carnes não-halal, para evitar contaminação. É um mercado de bilhões de dólares anuais. Diante do exposto e do potencial de estrago causado pela guerra, a expectativa é que o conflito e as hostilidades cessem o mais rapidamente possível.
(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail; jose.macielsantos@hotmail.com