sábado, 25 de abril de 2026
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GUERRA NO IRÃ FAZ PETRÓLEO DISPARAR E REABRE PRESSÃO NO BRASIL: O QUE MUDA NO SEU BOLSO E NAS EMPRESAS

João Paulo - 05/03/2026 11:20 - Atualizado 05/03/2026

Os advogados tributaristas Bruno Medeiros Durão e Adriano de Almeida explicam como a alta do Brent e do dólar pode pressionar inflação, juros e o custo tributário das empresas em 2026, em meio à transição da reforma tributária (CBS/IBS)

O mundo entrou em “modo crise” depois da ofensiva militar conjunta de Estados Unidos e Israel contra alvos no Irã, no sábado (28), anunciada como Operação Epic Fury. Reportagens e declarações oficiais indicam que o ataque atingiu estruturas estratégicas e levou à morte do líder supremo Ali Khamenei,  informação que, segundo o noticiário, foi confirmada por veículos internacionais e atribuída a comunicações de autoridades e mídia estatal iraniana.

A consequência mais rápida foi financeira: energia no centro do tabuleiro, dólar mais forte e corrida por proteção. Na reabertura, o Brent oscilou em alta forte, com movimentos de dois dígitos em algumas janelas, e a discussão passou a ser menos “quanto subiu hoje” e mais “por quanto tempo o risco vai ficar no preço”.

No Brasil, o choque chega em um ponto sensível: a inflação já havia surpreendido em fevereiro. O IPCA-15 subiu 0,84% no mês e acumulou 4,10% em 12 meses, acima das expectativas do mercado, segundo o IBGE.

O risco central do conflito é a logística. O Estreito de Ormuz é uma das rotas mais críticas do planeta: em 2024, passou por ali uma média de 20 milhões de barris/dia, o equivalente a cerca de 20% do consumo global de líquidos de petróleo, de acordo com a agência de energia dos EUA (EIA).

Em outras palavras: mesmo sem “faltar petróleo” fisicamente, só a chance de interrupção, encarecimento de seguro e frete, ou ataques a infraestrutura já é suficiente para elevar o preço, e, por tabela, exportar inflação para o resto do mundo.

A gasolina tem um peso grande no índice oficial de inflação. O IBGE destaca que, na estrutura do IPCA, a gasolina tem peso de 5,07%,  entre os maiores itens da cesta.

No próprio IPCA-15 de fevereiro, o IBGE registrou alta de 1,38% em combustíveis, com gasolina (+1,30%) e etanol (+2,51%) subindo.

Se o Brent ficar próximo (ou acima) de US$ 100 e o dólar seguir pressionado, o canal mais rápido de transmissão é combustíveis → frete → alimentos/serviços, com efeito adicional em expectativas de inflação e no custo do crédito.

O Banco Central já tratou em estudos de como choques de energia entram no balanço de riscos da inflação, justamente porque combustíveis e energia elétrica têm potencial de contaminar a dinâmica de preços.

Quando a inflação vem acima do esperado e o mundo adiciona um choque de petróleo, o debate de juros tende a ficar mais duro. Foi essa a leitura destacada no noticiário após a surpresa do IPCA-15: mesmo com a inflação em 12 meses desacelerando, o resultado de fevereiro elevou a cautela sobre a velocidade de um ciclo de afrouxamento.

Para o consumidor, isso significa risco maior de juros altos por mais tempo (ou cortes menores), o que pesa em cartão, financiamento, renegociações e crédito para pequenas empresas.

O efeito para empresas brasileiras não é só “macro”. Ele vira planilha e, muitas vezes, vira contencioso: custo de insumo e transporte sobe, contratos em dólar ficam mais caros, importação exige revisão de preço e margem, e o Fisco tende a olhar com lupa operações que “descasam” documentos, créditos e bases de cálculo. “O risco, para a empresa brasileira, é viver uma tempestade perfeita: custo subindo por fora (petróleo e câmbio) e, por dentro, mais complexidade de apuração e conformidade. Em cenário de estresse, qualquer erro de parametrização fiscal vira autuação — e qualquer atraso de crédito vira perda de caixa”, afirma Bruno Medeiros Durão, advogado tributarista.

Na prática, uma escalada prolongada pode acionar gatilhos tributários muito concretos:

Importação mais cara: câmbio impacta valor aduaneiro, frete e seguro, e aumenta a base de tributos incidentes na entrada (e o custo de capital de giro).

Efeito combustível na cadeia: logística mais cara pressiona preços e pode elevar disputas por repasse, com impacto em margens e na coerência entre preço praticado e documentação fiscal.

ICMS de combustíveis em 2026: o ICMS sobre combustíveis opera sob regime de incidência “uma única vez” (monofásico), previsto na LC 192/2022, e teve alíquotas “ad rem” atualizadas para 1º de janeiro de 2026, segundo o Comsefaz.

Esse desenho muda a dinâmica de preço ao longo da cadeia e tende a aparecer rapidamente na bomba, o que amplifica o repasse.

O estresse explode justamente quando a reforma tributária entra em fase prática. Em 2026, começa a alíquota-teste do IVA Dual: CBS (0,9%) e IBS (0,1%), com período educativo para adaptação, segundo Receita Federal e Agência Brasil.

A tensão externa pode tornar essa transição mais cara e mais sujeita a erro porque mexe com:

* precificação (reajustes em ondas, necessidade de atualizar tabelas e cadastros),

* importações (novas rotinas e conciliações),

* faturamento e documentos fiscais (destaque correto, classificação e trilha de auditoria),

* gestão de crédito e caixa (em momentos de volatilidade, crédito “demora” vira custo financeiro).

No meio desse cenário, em que o custo das operações muda quase “em tempo real” com o dólar e o petróleo, a preocupação das empresas deixa de ser apenas repassar preço: passa a ser também garantir que cada reajuste esteja refletido corretamente na documentação fiscal, na formação de base de cálculo e no aproveitamento de créditos, justamente no primeiro ano em que a reforma começa a rodar em modo de teste. É aí que a volatilidade vira risco de compliance, e risco de passivo. “2026 já é, por definição, um ano de calibragem e testes. Só que, com volatilidade de dólar e petróleo, o risco de descasamento entre preço, crédito e documentação fiscal aumenta. A recomendação é reforçar trilhas de auditoria, governança de notas e conciliações, para não deixar a transição para CBS/IBS virar passivo tributário escondido”, diz Adriano de Almeida, advogado tributarista.

Se o conflito desescalar rápido, o petróleo tende a devolver parte do prêmio e o impacto no Brasil pode ficar mais concentrado em volatilidade de curto prazo.

Se a crise se prolongar sem bloquear rotas, o preço pode permanecer elevado por “prêmio de risco”, encarecendo combustíveis e alongando a pressão sobre inflação e juros, com custo de compliance e caixa subindo para empresas.

Se houver choque logístico relevante (Ormuz/seguros/fretes), o impacto tende a ser o mais duro: combustível e transporte contaminam a cadeia, aumentam a incerteza e elevam a chance de “erros caros” no período de testes da reforma.

No fim, o recado para o Brasil é simples: a guerra pode estar a milhares de quilômetros, mas o efeito chega em reais, na bomba, no frete, nos juros e, para empresas, na combinação de custo + tributo + transição CBS/IBS em pleno 2026.

 

Imagem de Simon J por Pixabay

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