

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano – o maior patamar em duas décadas. A decisão foi justificada como necessária para garantir a convergência da inflação em direção à meta, ao mesmo tempo em que busca suavizar as oscilações da atividade econômica e preservar condições para o pleno emprego.
O ambiente externo ainda se mantém incerto em função da conjuntura e da política econômica nos Estados Unidos, com reflexos nas condições financeiras globais. Em relação ao cenário doméstico, o conjunto dos indicadores segue apresentando, conforme esperado, trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, enquanto o mercado de trabalho ainda mostra sinais de resiliência.
Em um ambiente de elevada incerteza, o Copom reforçou a necessidade de cautela na condução da política monetária e destacou que seguirá vigilante, podendo ajustar a taxa caso considere apropriado retomar o ciclo de aperto.
Abaixo, seguem comentários da SulAmérica Investimentos, Federação das Indústrias de Minas Gerais (FIEMG), Ancord, CBIC, GCB Investimentos e de outros especialistas a respeito da decisão:
Natalie Victal – Economista chefe da SulAmérica Investimentos
A decisão de manutenção veio em linha com o esperado. O cerne da comunicação também esteve alinhado à nossa expectativa, ao sinalizar que o cenário-base aponta para março. No entanto, o comunicado foi um pouco mais dovish ao indicar explicitamente que, sob o cenário-base, o Copom antevê um corte já na próxima reunião. Vale a ressalva de que o Relatório Focus projeta um corte de 50 pontos-base em março; assim, o cenário-base embutido nas projeções que fundamentaram essa sinalização é de 50 bps.
Para reforçar o compromisso com a meta, o Comitê destacou a necessidade de serenidade quanto ao ritmo e à magnitude do ciclo de cortes, o que não deve provocar revisões relevantes para a taxa terminal. Em relação ao ritmo, permanece uma divisão entre 25 e 50 bps no diagnóstico. Dito isso, a apreciação do câmbio e a perspectiva de dados um pouco mais fracos referentes a dezembro tendem a fortalecer a hipótese de um corte de 50 bps, enquanto a possibilidade de 75 bps também passa a ganhar alguma probabilidade.
A projeção de inflação em 3,2% veio em linha com o esperado.
No conjunto, mantemos nossa projeção de um corte de 50 bps em março e de taxa terminal em 13% em 2026.
Pablo Spyer – Conselho da Ancord e economista
O Copom manteve a Selic em 15%, como esperado, mas promoveu uma mudança relevante na comunicação ao indicar, de forma explícita, a intenção de iniciar o ciclo de cortes de juros já na próxima reunião, em março, caso o cenário base se confirme. O comunicado reconhece o arrefecimento da inflação e os efeitos da política monetária, ainda que destaque desafios importantes, como a resiliência do mercado de trabalho, pressões em serviços e expectativas de inflação ainda desancoradas.
Ao antecipar a flexibilização, o Banco Central oferece um forward guidance ( orientação futura) claro, mas cuidadosamente condicionado, reforçando que o compromisso com a meta impõe cautela quanto ao ritmo e à magnitude dos cortes. A mensagem é de que o ciclo de aperto terminou, mas o ciclo de afrouxamento será conduzido com serenidade, dependente dos dados e da evolução do cenário fiscal, do câmbio e do ambiente externo.
Lucas Constantino – estrategista-chefe da GCB Investimentos
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 15,0% a.a., em linha com as expectativas da maior parte do mercado e com o cenário-base da GCB Investimentos. A decisão reforça a postura conservadora adotada pela autoridade monetária em um contexto no qual a inflação ainda não convergiu para a meta, as expectativas permanecem desancoradas e o ambiente doméstico e global segue marcado por incertezas relevantes.
O comunicado trouxe uma mudança relevante na comunicação ao retirar o trecho em que abordava a necessidade de uma política monetária “em patamar significativamente contracionista por período bastante prolongado”, ao mesmo tempo em que passou a antever, de forma condicional, o início do ciclo de flexibilização já na próxima reunião, caso o cenário esperado se confirme. Vale destacar que, apesar dessas mudanças, o Copom preservou um tom cauteloso, reforçando que o ritmo e a magnitude dos ajustes dependerão da evolução dos dados e do grau de confiança no processo de convergência da inflação à meta, evitando sinalizações automáticas sobre os próximos passos.
Nos últimos meses, os dados de inflação apresentaram melhora gradual, influenciados pela valorização cambial, pela queda nos preços dos alimentos e pelo arrefecimento dos custos ao produtor. Ainda assim, o Comitê destacou que os núcleos de inflação seguem pressionados e que as expectativas permanecem acima da meta, o que exige cautela adicional na condução da política monetária.
Do lado da atividade, os indicadores continuam apontando para uma desaceleração gradual da economia, refletindo os efeitos defasados de uma política monetária mantida em patamar altamente restritivo. Segmentos mais sensíveis às condições financeiras, como a indústria e o varejo, permanecem pressionados pelo ambiente de juros elevados e crédito mais caro, enquanto o setor de serviços tem mostrado sinais de acomodação. Por outro lado, o mercado de trabalho segue apertado, com desemprego baixo e massa salarial elevada, contribuindo para amortecer os efeitos da política monetária sobre a demanda no curto prazo.
No campo fiscal, o cenário segue desafiador. Medidas de estímulo recentemente anunciadas, somadas ao ambiente pré-eleitoral, adicionam incerteza à trajetória da dívida pública e ao processo de reancoragem das expectativas, reforçando a necessidade de manutenção de uma postura prudente por parte do Banco Central.
Projeção GCB Investimentos
A GCB Investimentos mantém a expectativa de que o ciclo gradual de flexibilização monetária tenha início em março. Projetamos que a taxa Selic possa recuar para níveis próximos a 12,0% a.a. ao final de 2026, condicionada à evolução dos dados, à trajetória das expectativas de inflação e ao fortalecimento dos fundamentos macroeconômicos e fiscais.
Embora o enfraquecimento da atividade e o comportamento mais benigno dos preços abram espaço para cortes ao longo de 2026, o ambiente doméstico seguirá desafiador, marcado por maior imprevisibilidade em função do cenário eleitoral, das incertezas externas e dos problemas estruturais da economia brasileira, especialmente o desequilíbrio das contas públicas.
José Márcio Camargo – Economista-chefe da Genial Investimentos
Em decisão unânime, o Comitê de Política Monetária (Copom) optou pela manutenção da taxa básica de juros em 15% ao ano, mas, embora o patamar tenha sido preservado, o comunicado trouxe sinalizações fundamentais para as próximas reuniões. O ponto de maior inflexão foi a retirada da diretriz que mencionava a exigência de uma política monetária significativamente contracionista por um período bastante prolongado. A exclusão desta frase, que vinha sendo um dos pilares das decisões anteriores, indica que o Banco Central não vê mais a necessidade de manter o rigor atual de forma tão persistente.
Confirmando o cenário esperado, o Comitê antecipou que deve iniciar o processo de flexibilização da política monetária já na próxima reunião, em março. Esta foi a parte mais surpreendente do comunicado, superando a minha expectativa inicial de que o sinal para o início dos cortes não seria tão explícito. A mudança no tom sugere que o Banco Central adquiriu maior confiança na efetividade da política monetária e na trajetória de redução da taxa neste momento.
Contudo, o Copom ponderou essa postura mais otimista ao destacar que o mercado de trabalho permanece aquecido, o que gera preocupações sobre possíveis pressões inflacionárias futuras. Somado a isso, o fato de as expectativas de inflação para 2026 e 2027 continuarem desancoradas reforça a necessidade de manter a política em terreno contracionista por mais tempo. O cenário desenhado pelo Banco Central indica que a política monetária continuará restritiva para garantir a convergência das metas, porém em um patamar menos severo do que o observado nos últimos meses.
Renato Correia – presidente da CBIC
Setor da construção teme impacto prolongado de juros elevados
O setor da construção vê com cautela a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de manter a taxa básica de juros em 15%. Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, o cenário de juros altos limita tanto a demanda por imóveis quanto a capacidade das empresas de viabilizar novos projetos. Segundo ele, o impacto vai além do crédito habitacional e atinge toda a cadeia produtiva do setor.
“Uma política monetária contracionista encarece o crédito imobiliário, reduz a demanda por novos empreendimentos e desacelera a atividade da construção. Juros altos aumentam os custos, restringem o acesso ao financiamento e afetam a confiança dos investidores”, afirmou.
A construção é um dos setores mais sensíveis à taxa de juros, por depender de financiamentos de longo prazo e por ter forte efeito multiplicador sobre o emprego e a renda. A avaliação é de que os efeitos podem se estender até 2026, mesmo com a expectativa de maior disponibilidade de recursos para o financiamento imobiliário. “É necessária uma trajetória de queda dos juros como condição para uma retomada mais consistente da atividade econômica”, complementou o presidente da CBIC.
Cristiano Oliveira – diretor de pesquisa macroeconômica do Banco Pine
O Copom manteve a taxa Selic em 15% a.a. em decisão unânime, em linha com a precificação da curva de juros e com o consenso dos analistas do mercado. O comunicado divulgado após a decisão indica que o Comitê pretende “iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião” (18 de março) e que “manterá a restrição adequada para assegurar a convergência da inflação à meta”.
Em nossa avaliação, a decisão e o tom do comunicado foram bastante apropriados. O Banco Central sinaliza disposição para reduzir a taxa real de juros de forma gradual e cautelosa, mantendo a política monetária no terreno restritivo, consistente com seu compromisso com o centro da meta de inflação.
Mantemos a expectativa de corte de 0,50 p.p. na reunião de março e de Selic em 11,50% a.a. ao fim de 2026.
Rodrigo Marques, economista chefe da Nest Asset Management
O Copom destacou o elevado grau de incerteza no qual a política monetária vem sendo conduzida no Brasil. Ainda assim, sinalizou que, caso o cenário-base se confirme, a flexibilização da política monetária poderá ter início já na próxima reunião, com cortes de magnitude conservadora, de 25 pontos-base. Trata-se, portanto, de uma decisão de manutenção com viés dovish.
Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil