

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
O escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura de 2010, autor, entre outras obras consagradas, de A cidade e os cachorros e Pantaleão e as visitadoras, costumava lembrar que um filme não é a tradução de um livro, mas a sua adaptação.
A ideia é particularmente interessante porque reconhece que a adaptação cinematográfica não precisa – e nem pode – reproduzir integralmente a obra literária. São linguagens diferentes: o romance trabalha com palavras, interioridade, imaginação e tempo narrativo; o cinema, com imagem, som, montagem e atuação.
Assim, conhecendo e concordando com a afirmação de Vargas Llosa, fui assistir à superprodução Odisseia, de Christopher Nolan.
As narrativas mitológicas, entretanto, não obedecem a uma única versão. São muitas as histórias e múltiplas as interpretações. Dois livros de mitologia raramente contam exatamente a mesma história. Cada autor recria, modifica, acrescenta, interpreta e, de certa forma, devolve vida própria ao mito. E é justamente essa ausência de uma versão definitiva que encanta e prende os leitores.
Embora Nolan tenha incorporado episódios fundamentais da narrativa atribuída a Homero, senti falta de dois momentos que, a meu ver, poderiam conferir ainda mais força à história.
O primeiro está relacionado ao encontro de Odisseu e seus homens com os ciclopes, gigantes de um olho só que, segundo a tradição, habitavam a Sicília.
Enquanto muitos heróis gregos se distinguiam pela força, Odisseu se notabilizava pela inteligência, astúcia e pela capacidade de encontrar soluções para os mais difíceis problemas.
Na história de Polifemo, essa característica aparece de maneira exemplar.
Antes de enfrentar o gigante, Odisseu lhe oferece um vinho extraordinariamente forte, presente de Maron, sacerdote de Apolo. O vinho é tão potente que normalmente deveria ser diluído em água. Polifemo, porém, bebe-o puro.
Embriagado, o ciclope pergunta o nome do visitante. Odisseu responde:
– Ningúem.
É uma das mais engenhosas armadilhas da literatura.
Quando Polifemo adormece, Odisseu e seus homens cravam no único olho do gigante uma estaca de madeira em brasa. O monstro grita de dor e pede socorro. Os outros ciclopes aproximam-se e perguntam quem o está atacando.
– Ninguém.
O jogo de palavras é simples e genial. Polifemo diz o que sabia sobre a identidade de seu agressor e os outros ciclopes se dispersam atribuindo os fatos a um possível pesadelo do maior dentre os ciclopes.
Odisseu transforma uma palavra em instrumento de sobrevivência.
É justamente aí que o herói se revela: para escapar do monstro, ele precisa deixar de ser Odisseu. Precisa ser Ninguém.
O segundo episódio está no final da história.
Depois de vinte anos de ausência, Odisseu retorna a Ítaca disfarçado de mendigo. Enfrenta os pretendentes de Penélope e, com extraordinária habilidade, empunha o arco que somente ele era capaz de manejar.
Mas há ainda uma cena posterior, talvez uma das mais belas de toda a Odisseia.
Penélope, após tantos anos de espera, sofrimento e incerteza, ainda não está inteiramente convencida de que aquele homem diante dela seja realmente Odisseu. Prudente, ordena às criadas que removam sua cama para o quarto reservado ao estrangeiro.
Neste momento, o herói protesta.
Como poderia levar a cama para outro quarto?
Aquele leito não podia ser movido. Ele próprio o construíra em torno do tronco de uma oliveira viva, que permanecia enraizada no chão. O segredo era conhecido apenas pelos dois.
Penélope finalmente compreende.
O homem diante dela só poderia ser Odisseu.
E, então, os dois se reencontram.
Talvez esses dois episódios revelem mais de Odisseu do que muitas batalhas.
Diante de Polifemo, ele precisou esconder o próprio nome para sobreviver. Diante de Penélope, precisou revelar uma intimidade que somente o verdadeiro marido poderia conhecer.
Primeiro, Odisseu é Ningúem.
Depois, finalmente, volta a ser Odisseu.
E é esse o sentido mais profundo do leito construído em torno da oliveira: suas raízes permanecem na terra, como permanecem as raízes de um amor que o tempo, a distância e a ausência não conseguiram arrancar.
Depois de vagar por mares e ilhas, depois de perder companheiros e enfrentar monstros e deuses, o grande herói da Odisseia não encontra seu verdadeiro destino numa batalha.
Encontra-o quando, finalmente, volta para casa.
Imagem de Pexels por Pixabay