

A Polícia Federal (PF) identificou uma estrutura organizada para produzir documentos que dariam aparência de legitimidade a créditos atribuídos à Tirreno Consultoria e posteriormente repassados pelo Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). Segundo a investigação, dados reais de clientes eram extraídos de sistemas internos e utilizados para criar, editar e reunir documentos em larga escala. As informações são do g1.
Uma linha de montagem digital
Segundo a perícia, o processo começava com a extração de dados cadastrais de clientes de sistemas internos, incluindo operações antigas do CredCesta. As informações eram utilizadas na produção de novos documentos.
A investigação identificou ainda a separação de páginas de assinaturas, edição de arquivos em PDF, retirada de datas e montagem de dossiês com diferentes documentos.
Uma ferramenta do Word, conhecida como mala direta, foi usada para gerar 2.700 procurações a partir de uma planilha. Sistemas desenvolvidos pela área de tecnologia também permitiam separar páginas de assinatura de documentos originais.
Em um dos arquivos analisados pela perícia, foram encontrados 1.833 PDFs com páginas de Termos de Consentimento isoladas, que poderiam ser reutilizadas na montagem de novos documentos.
Datas eram retiradas dos documentos
A PF também encontrou indícios de que funcionários tentavam eliminar informações que pudessem revelar quando determinados arquivos haviam sido produzidos.
Em um Termo de Consentimento, por exemplo, a data original de 24 de fevereiro de 2023 foi retirada durante uma edição feita em julho de 2025. Mensagens internas indicam que um funcionário pediu a exclusão da informação.
As Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) também apresentavam inconsistências. Documentos com datas anteriores tinham registros de assinatura digital realizados meses depois.
Em um dos casos, a CCB indicava 21 de janeiro de 2025, enquanto o registro criptográfico apontava assinatura em 20 de junho. Para a PF, a diferença ajudou a estabelecer a cronologia real dos arquivos.
Documentos eram reunidos em dossiês
Após as alterações, CCBs, procurações e Termos de Consentimento eram reunidos em um único PDF para formar conjuntos documentais associados às operações da Tirreno.
A investigação também identificou discussões sobre possíveis alterações em comprovantes bancários. Funcionários teriam debatido a retirada de informações como evento, número do contrato e histórico, incluindo referências à liberação de crédito por Pix.
A própria equipe, no entanto, teria reconhecido a dificuldade de alterar manualmente milhares de comprovantes.
Segundo a investigação, eventuais inconsistências também precisavam ser justificadas caso fossem identificadas em auditorias. Em uma conversa sobre documentos solicitados pela Deloitte, foi sugerido que problemas fossem atribuídos a um erro operacional na seleção dos arquivos.
Documentação chegou à direção
A PF identificou ainda indícios de que a documentação produzida chegou à direção do banco. Em junho de 2025, Daniel Vorcaro solicitou um conjunto de 300 operações com assinatura digital e recebeu arquivos relacionados às CCBs e às procurações.
Segundo o relatório técnico, a estrutura começava com a extração de dados reais e terminava na montagem de documentos apresentados como comprovação de créditos.
Entre as etapas identificadas estavam:
Para a PF, o procedimento buscava transformar informações de operações reais e antigas em documentação capaz de sustentar a existência de uma carteira de créditos atribuída à Tirreno.
Apesar das alterações, registros digitais permaneceram nos arquivos e permitiram aos peritos identificar diferenças entre as datas apresentadas nos documentos e aquelas registradas pelas assinaturas. A investigação aponta, assim, para uma tentativa de fazer operações montadas posteriormente aparentarem ter sido realizadas em período anterior.
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil