

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Na velha Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, onde aprendi os fundamentos da engenharia e para onde mais tarde retornaria para exercer a atividade docente por 25 anos initerruptos, tive o privilégio raro de conviver com personalidades cuja inteligência transcendia os limites da técnica. Dentre tantos outros, lembro, com carinho e admiração, os ensinamentos de Guilherme Requião Radel.
Engenheiro, professor, empresário, pecuarista e escritor, Radel pertencia àquela linhagem cada vez mais rara de espíritos múltiplos. Foi membro da Academia de Letras da Bahia e deixou extensa e variada produção intelectual. Em meio a seus escritos, há um texto que sempre me pareceu extraordinário: A obra pública ou um dos diálogos que Platão não escreveu.
O título, por si só, já anuncia a ousadia da proposta.
O autor imagina Sócrates caminhando por Atenas ao lado de um discípulo imaginário, Ascórbius, um jovem inquieto e perplexo diante de um problema bastante terreno: como realizar, de forma justa, uma concorrência pública destinada à construção de um templo para Poseidon, deus dos mares.
Com fina ironia e admirável domínio da filosofia, Radel recria o ambiente dos antigos diálogos de Sócrates revelados por Platão e faz o velho mestre ateniense conduzir a conversa exatamente como fazia nas praças gregas: perguntando. Sempre perguntando. Fingindo ignorância para iluminar o pensamento alheio.
“Que vem a ser uma concorrência pública?”, indaga Sócrates.
E dessa pergunta aparentemente simples nasce toda a arquitetura moral do texto.
À medida que o diálogo avança, as falsas certezas começam a ruir. Os conceitos se depuram. As palavras perdem a névoa da aparência. E aquilo que parecia apenas um problema administrativo transforma-se numa profunda reflexão sobre ética, justiça e responsabilidade pública.
Ao eleger Sócrates como interlocutor, Radel também presta homenagem ao filósofo que ensinou o Ocidente a desconfiar das certezas absolutas. Não por acaso, o texto se abre sob a sombra da célebre máxima:
“Só sei que nada sei.”
Mais do que frase histórica, trata-se de uma profissão de humildade intelectual. Para Sócrates, o verdadeiro sábio não era aquele que acumulava respostas, mas aquele que jamais deixava de interrogar a si mesmo.
Dessa inquietação permanente nasceu a Maiêutica — o método socrático dos sucessivos questionamentos, destinado a fazer emergir a verdade escondida no interior do espírito humano. Sócrates acreditava que o conhecimento não se impunha de fora para dentro: precisava nascer.
E Radel compreendeu isso com rara sensibilidade.
Seu texto não doutrina; provoca. Não conclui pelo leitor; convida-o a pensar.
Em uma das passagens do diálogo, Ascórbius hesita diante das palavras:
“ASCÓRBIUS – Mestre, eu não entendi dessa forma. Achei que falavas de justeza e não de justiça.
SÓCRATES – Estás falando como Górgias. Acaso não sabes que justeza e justiça são a mesma coisa, expressos por palavras diferentes, mas que nasceram de uma só?”
Tendo Sócrates se tornado um grande adversário dos sofistas, a ironia do texto é delicada, mas certeira. A crítica ultrapassa a Grécia Antiga e alcança, silenciosamente, o mundo contemporâneo — esse tempo em que tantas vezes o discurso tenta substituir a substância das ideias.
Ao final, Ascórbius pergunta ao mestre por que não escreve um tratado sobre o assunto. E então surge uma resposta profética:
“Ainda mais, meu excelente Ascórbius, eu já ando arriscado de perseguições pelo que penso; imagina se ainda fosse escrever o que penso.”
A frase ecoa como prenúncio do destino de Sócrates, condenado justamente por exercer o perigoso ofício de pensar livremente.
E, com admirável fidelidade ao espírito socrático, Radel encerra sua narrativa:
“ASCÓRBIUS – Pelo menos, meu caro Sócrates, faz-me uma recomendação.
SÓCRATES – Continua a meditar, meu excelente Ascórbius.
(Sócrates se levanta e sai.)”
Poucas vezes um encerramento disse tanto com tão pouco.
Sócrates sai de cena, mas deixa atrás de si aquilo que nenhuma sentença foi capaz de destruir: a obrigação moral da reflexão.
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