quarta, 19 de agosto de 2026
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RECUPERAÇÃO JUDICIAL NO AGRONEGÓCIO AVANÇA 22% NO 1º TRIMESTRE DE 2026

Hugo Leite - 19/08/2026 10:28

O agronegócio brasileiro vive um cenário de forte contraste. Enquanto a produção agrícola mantém perspectiva de safra recorde, a pressão financeira sobre produtores rurais e empresas da cadeia produtiva continua elevada.

No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial no setor, alta de 21,9% em relação aos 389 casos do mesmo período de 2025, segundo a Serasa Experian.

O resultado ocorre após 2025 registrar o maior número de pedidos desde o início da série histórica da Serasa Experian. Foram 1.990 solicitações no ano, crescimento de 56,4% em relação a 2024, quando houve 1.272 pedidos.

O avanço revela um dos principais paradoxos do campo: produção elevada não significa necessariamente saúde financeira. Custos de produção, juros altos, crédito mais seletivo, volatilidade das commodities e endividamento acumulado vêm comprimindo as margens, mesmo entre produtores com boa produtividade.

Para Denis Barroso, sócio da Barroso Advogados Associados e especialista em recuperação empresarial, a pressão atual está mais relacionada à estrutura financeira dos negócios do que à capacidade produtiva.

“O produtor não está necessariamente produzindo menos. Em muitos casos, a produtividade continua elevada. O problema é que ele recebe menos por sua produção enquanto os custos para plantar, financiar e operar cresceram significativamente. Quando se somam insumos caros, crédito restrito, juros elevados e preços voláteis das commodities, a margem financeira acaba sendo comprimida”, afirma Denis.

Crédito mais caro

A elevação do custo do dinheiro e a maior seletividade das instituições financeiras mudaram a dinâmica de financiamento do setor. Produtores que dependem de crédito para capital de giro, investimentos e custeio de novas safras passaram a enfrentar condições mais restritivas.

“Hoje o custo do dinheiro se tornou um dos maiores desafios para o agronegócio. Muitos produtores renegociaram dívidas nos últimos anos acreditando em um cenário diferente daquele que acabou se consolidando. Com crédito mais caro e mais seletivo, muitos passaram a enfrentar dificuldades para manter o capital de giro e financiar novas safras”, explica Denis. O impacto também alcança fornecedores, cooperativas, tradings, transportadoras e demais empresas ligadas à cadeia produtiva.

Recuperação judicial 

Apesar do crescimento dos pedidos, a recuperação judicial não deve ser interpretada como consequência automática de uma crise estrutural do agronegócio. Em muitos casos, negócios com capacidade operacional e ativos enfrentam principalmente um desequilíbrio entre geração de caixa e compromissos financeiros.

Para Denis, a recuperação judicial pode ser importante para preservar empresas viáveis, mas deve ser utilizada como parte de uma estratégia de reestruturação.

“A recuperação judicial é um importante instrumento de reorganização empresarial, mas não pode ser vista como estratégia inicial. Quando utilizada sem planejamento ou no momento inadequado, ela tende apenas a prolongar dificuldades que poderiam ter sido enfrentadas anteriormente”, afirma.

O especialista defende que a identificação antecipada dos problemas amplia as possibilidades de negociação e reorganização. “O erro mais frequente é esperar que a crise se torne praticamente insolúvel. Em diversos casos ainda existem alternativas, como renegociação estruturada das dívidas, revisão da operação, venda de ativos não estratégicos e busca por novos investidores. Quanto mais cedo essas medidas forem avaliadas, maiores são as chances de preservar a atividade empresarial”, destaca.

 

Foto: Ascom Aiba/Divulgação.

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