

Em um país onde a Educação deixa muito a desejar – basta ver a posição do Brasil no Pisa – o Nordeste brasileiro começa a sediar centros de excelência educacional e isto tem muita importância, por criar perspectiva de transformações efetivas e concretas, com desdobramentos positivos no desenvolvimento regional.
São duas as instituições federais que, descentralizando territorialmente sua atuação, implantam-se no Nordeste:
O ITA Ceará é o primeiro campus do Instituto Tecnológico da Aeronáutica fora de São Paulo e está localizado na Base Aérea de Fortaleza. A unidade cearense foca em novas áreas de engenharia e oferece dois cursos de graduação inéditos no portfólio do ITA: Engenharia das Energias Renováveis e Engenharia de Sistemas. Cada curso recebe até 25 estudantes por turma, o que representa a chegada de 50 novos alunos por ano.
Fruto de parceria entre os Ministérios da Defesa e da Educação, o novo campus conta com investimentos da ordem de R$445 milhões. O projeto arquitetônico adota princípios bioclimáticos e regionais, como o uso de cobogós, e a estrutura inclui 14 laboratórios didáticos, blocos acadêmicos, além de alojamentos estudantis.
As primeiras turmas do ITA Ceará já iniciaram o ciclo básico em São José dos Campos (SP). A transferência dos alunos e o início oficial das atividades acadêmicas na sede do Ceará estão previstos para 2027.
“Tomar um Ita no Norte” passa a ter, agora, um novo significado.
Já o Piauí ganhou o IMPA Tech Nordeste, a primeira unidade do Instituto de Matemática Pura e Aplicada fora do Rio de Janeiro. Localizado no Tech Park Piauí, o campus oferece o bacharelado em Matemática da Tecnologia e Inovação, com currículo focado em áreas como IA, Ciência de Dados, Computação e Física. Com oferta de 50 vagas por ano, o processo seletivo prioriza medalhistas de olimpíadas do conhecimento, como a OBMEP, e utiliza notas do Enem.
O foco e a importância dessas duas iniciativas são a educação de excelência e o acesso às engenharias estratégicas. Sinalizam, pois, uma mudança de patamar na Educação do Nordeste, com impactos que tendem a se refletir não apenas na formação de profissionais, mas também na inovação e no desenvolvimento econômico regional.
Vêm se juntar a duas outras iniciativas de sucesso, já existentes, mas sempre em expansão, o que bem demonstra o potencial e a capacidade de gerar efeitos multiplicadores que instituições dessa natureza apresentam.
A Bahia conta com o SENAI Cimatec – Campus Integrado de Manufatura e Tecnologia, uma iniciativa da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB), que dotou o estado de uma unidade diferenciada, dedicada ao desenvolvimento tecnológico da indústria, tendo se tornado a principal unidade nacional de tecnologia do Senai.
Reúne hoje um centro tecnológico, uma escola técnica e uma universidade, tendo dado origem a um complexo ecossistema de educação, ciência, tecnologia, inovação e negócios, com atuação em 44 áreas de competência.
A partir do seu campus em Salvador, o Cimatec deu origem ao Cimatec Park, em Camaçari, onde, em área de 4 milhões de metros quadrados – verdadeira fábrica de fábricas – dedica-se à implantação de plantas-piloto, certificação e protótipos em escala real, em laboratórios de alta complexidade.
Curioso é que um dos maiores clientes dessa estrutura são as empresas do pré-sal, inclusive a Petrobras, numa demonstração da importância nacional desse equipamento. Aí está instalado o Centro de Desenvolvimento e Tecnologia da Ford, com 1.500 engenheiros, legado que a empresa deixou na Bahia, exportando serviços para as suas fábricas ao redor do mundo.
O Cimatec também já deu origem a diversos outros campi especializados, dedicados ao desenvolvimento regional, a saber, o Cimatec Sertão – dedicado aos biocombustíveis, a partir do agave, na região semiárida –, Cimatec Mar – dedicado à Economia do Mar –, Cimatec Aeroespacial e Cimatec Digital e Criativo.
Em duas décadas, o Cimatec se tornou maior do que a Bahia!
Um outro importante case de inovação já consolidado no Nordeste é o Porto Digital, no Recife, oriundo de iniciativa do então Departamento de Informática (hoje Centro de Informática) da Universidade Federal de Pernambuco – UFPE.
Tendo iniciado suas atividades a partir das Tecnologias da Informação e Comunicações (TIC), o Porto Digital consolidou-se e ganhou vida própria, autônoma, expandindo sua fronteira de atuação, para além das atividades de TIC, apostando em novas áreas, como a economia criativa, enveredando também por outros setores da economia pernambucana. Tornou-se um grande centro gerador de empregos de qualidade e especialização. O Porto Digital também já se expandiu para o interior de Pernambuco, com a instalação de cinco polos do programa Territórios Inovadores.
É importante observar que, no Brasil, para além do Rio e São Paulo, dois estados se destacam pela formação de importantes ecossistemas de inovação – Pernambuco e Santa Catarina. Em ambos, as respectivas universidades federais foram a alavanca inicial desses processos.
Já é tempo, pois, das universidades e institutos federais e das universidades estaduais nordestinas movimentarem-se no sentido do cumprimento de sua função social e tornarem-se também, a exemplo do que fez a UFPE, alavancas de ecossistemas de inovação. Aqui, as fundações estaduais de apoio à pesquisa têm papel estratégico a cumprir, direcionando boa parte dos geralmente poucos recursos disponíveis para induzir esse processo.
No Nordeste, as universidades estaduais bem que deveriam ser transferidas para a esfera das respectivas secretarias estaduais de Ciência, Tecnologia e Inovação para, no cumprimento do papel do mantenedor, direcionarem esse processo, com a vantagem de permitir que as secretarias de Educação possam ser transformadas em secretarias de Educação Básica, com dedicação exclusiva ao ensino fundamental nível II, médio e profissional, visando superar a terrível defasagem em que se encontram esses níveis de ensino na região, ressalvadas as exceções de praxe.
Afinal, o fortalecimento da Educação constitui a base sustentável para o desenvolvimento e o Nordeste não pode ficar para trás.
Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano-regional. Autor de Bahia Urgências do Presente.



