

Motivados pelo som potente das torcidas, estudantes baianos da rede pública de ensino brilharam no palco da 6ª Festa Literária Arte e Identidade, recitando poemas autorais inspirados no afrofuturismo, no protagonismo negro e nas próprias vivências. Entre os dez finalistas, três jovens poetisas se consagraram vencedoras do 3º Concurso de Escrita Criativa “Versos de Identidade”, na última sexta-feira (18), no Pelourinho, em Salvador. Em versos carregados de sentimento e coragem, os finalistas transformaram sonhos, dores silenciadas e experiências em palavras, diante de uma plateia lotada que acompanhou cada apresentação com muitos aplausos.
O pódio inteiramente feminino foi formado por Ysllana Anunciação (Colégio Estadual Cidade de Candeias), Lorrana Araújo (Escola Estadual de Tempo Integral Teodoro Sampaio) e Ana Rita Lima (Colégio Estadual Nelson Mandela), que expressaram suas vozes em estrofes a partir do tema “O Futuro é Ancestral”. Além do troféu, todas receberam prêmios em dinheiro e três livros da literatura negra infantojuvenil.
Bicampeã do concurso, Ysllana Anunciação, de 17 anos, conquistou o primeiro lugar pelo segundo ano consecutivo, desta vez com o poema “Raízes que iluminam o amanhã”. Ela conta que, para escrever, se inspirou na Rainha Amina, que governou o Reino de Zazzau, na Nigéria, no século XVI, e em Nelson Mandela, primeiro presidente negro da África do Sul e o principal símbolo global da luta contra o Apartheid.
“O tema deste ano me incentivou a relembrar o passado dos nossos ancestrais, que lutaram muito para a gente estar aqui usando a nossa voz e construindo um futuro brilhante. Eu me inspirei na Rainha Amina, citada na música de Tasha & Tracie, e em Nelson Mandela, que foi muito importante para nossa história. Como é meu último ano na escola, eu queria fechar com chave de ouro, mas a poesia sempre vai estar no meu coração. Eu pretendo continuar escrevendo, declamando e inspirando outras pessoas”, comenta Ysllana.
Já o poema “Sankofear” levou Lorrana Araújo, de 15 anos, ao segundo lugar. Inspirada pela amiga Gabrielly Oliveira, uma das finalistas da edição de 2025, ela encontrou na trajetória da colega e no símbolo Sankofa, presente na sua escola, referências para construir seu poema e representar todas as meninas negras que também escrevem e querem ser ouvidas.
“Ela fez uma revolução na escola. Todo mundo que estava lá e viu ela apresentando sentiu a potência dela e também se viu impulsionado a fazer arte e literatura. Nossa escola tem um símbolo chamado Sankofa, que significa ‘volte e pegue’, então eu trouxe isso para o meu poema, que é sobre voltar para trás e pegar as suas raízes, trazendo de volta para o futuro”, relata Lorrana.
O terceiro lugar foi entregue a Ana Rita Lima, de 15 anos, autora do poema “O Futuro é Ancestral”. Para ela, participar do concurso representou uma forma de enfrentar os estereótipos impostos à população negra e superar as próprias limitações, fortalecendo sua relação com a arte e a escrita.
“Participar foi uma forma de passar por cima dos estereótipos de racismo e preconceito que colocaram e impuseram sobre a gente, mas também das minhas limitações, porque eu mesma me limito muito. Foi uma virada de chave para mim e a realização de um sonho. A arte é a minha vida e, independente de qualquer concurso, eu continuo escrevendo. É uma forma de me acalmar, é uma forma de viver para mim”, declara Ana Rita.
Protagonistas do futuro – Realizada durante a programação da 6ª Festa Literária, a etapa final contemplou os dez estudantes selecionados entre 35 participantes inscritos do 8º ano do Ensino Fundamental II ao Ensino Médio de escolas municipais e estaduais de Salvador e Região Metropolitana. Cada finalista subiu ao palco para declamar seu poema autoral diante do público e do júri, que avaliou as apresentações e definiu os três vencedores.
A proposta desta edição aproximou a escrita jovem das referências do afrofuturismo, movimento que articula ancestralidade, tecnologia, imaginação e futuro para criar novas possibilidades de representação e protagonismo negro. Guiados pelo tema “O Futuro é Ancestral”, os estudantes foram convidados a olhar para suas raízes e, ao mesmo tempo, projetar outros futuros por meio da poesia.
Para a curadora Karla Daniella Brito, a principal mensagem deixada pelo evento deste ano foi a esperança. Ao acompanhar os estudantes escrevendo sobre ancestralidade e afrofuturos, ela destaca a importância de reconhecer a própria história e se enxergar como parte da construção do futuro.
“É muito bom ver nossos estudantes se vendo nesse futuro enquanto protagonistas. Está tudo dentro deles, o reconhecimento dessa pertença, a honra de quem eles são. A gente entra em uma disputa de narrativa social, em que as histórias que trazem geralmente são deslegitimadas pelas construções do capital. Daqui eles saem com esperança, com a certeza de que o que eles têm é potente, significativo e que, com essas chaves, eles mudam o mundo”, afirma.
Karla ressalta ainda que incentivar os jovens a escrever e participar de iniciativas como o concurso “Versos de Identidade” amplia não apenas a experiência artística, mas as possibilidades para outros caminhos é fundamental para que eles possam alçar outros voos. “Primeiro, a experiência estética, esse lugar de potência daquele que escreve e inscreve a sua narrativa sobre o mundo. Mas não só sobre isso. É sobre se envolver com a escrita, essa tecnologia que abre, inclusive, portas para o Enem, concursos públicos e o mundo do trabalho”, explica.
Mais do que uma competição, o concurso amplia a presença dos jovens na programação da Festa Literária Arte e Identidade e oferece um espaço para que compartilhem suas próprias narrativas. A experiência fortalece a expressão artística, o sentimento de pertencimento e a autoconfiança dos estudantes, incentivando a participação e o reconhecimento de suas vozes na produção e circulação cultural baiana.
Onde novas narrativas são criadas – Ao longo dos três dias de programação, a 6ª Festa Literária Arte e Identidade reuniu um público geral de aproximadamente cinco mil pessoas, com a participação de dois mil estudantes de escolas e instituições sociais que trabalham com infância e juventude, além de 30 expositores na Feira Maria Felipa e cerca de 90 atividades gratuitas, distribuídas pelos quatro espaços do evento e instituições culturais parceiras.
Sob o tema “O Futuro é Ancestral – Arte e Literatura Afrofuturista”, a programação conectou crianças, adolescentes e adultos a experiências de leitura, escrita, música, artes visuais e literatura, entre cortejos culturais, mesas literárias, oficinas, apresentações artísticas, contação de histórias, jogos digitais e de tabuleiro, lançamentos de livros, sessões de filmes e muito mais. A ancestralidade atuou como referência para pensar identidades e narrativas sobre o futuro, com atenção especial aos jovens que fazem parte da nova geração de leitores e escritores.
A Festa Literária Arte e Identidade é uma realização da Associação Cultural e Carnavalesca Quero Ver O Momo. Conta com apoio financeiro do Estado da Bahia, por meio do Fundo de Cultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda. Tem também os apoios da Secretaria Municipal de Cultura e Turismo, Vale do Dendê, e Madureira Aluga.
Apoio institucional: Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais do Estado da Bahia (SEPROMI), Centro de Culturas Populares e Identitárias (CCPI), Fundação Cultural do Estado da Bahia (FUNCEB), Fundação Pedro Calmon (FPC) e Instituto Anísio Teixeira (IAT). Parcerias: Casa do Carnaval, Casa e Escola Olodum, Museu de Energia, Museu Solar Ferrão, Casa Do Idoso, Projeto Axé e Museu Eugênio Teixeira Leal.
Vencedoras do Concurso Versos de Identidade Ano III | Créditos: Bruno Pecoraro



