

Um relatório de 196 páginas elaborado por quatro delegados da Polícia Federal aponta a hipótese de que o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), possa ser o “beneficiário final” ou “proprietário de fato” de um fundo de investimentos que recebeu R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
As informações foram divulgadas pela revista piauí, que afirma ter tido acesso à íntegra do documento. Segundo a publicação, o relatório foi encaminhado ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, há cerca de sete meses e posteriormente apresentado aos demais integrantes da Corte.
De acordo com a reportagem, os ministros consideraram o documento juridicamente inconsistente e decidiram mantê-lo sob sigilo.
A investigação menciona o FIP Arleen, fundo que possuía participação no resort Tayayá, empreendimento localizado no Paraná e ligado a Toffoli e familiares. Segundo os investigadores, o fundo recebeu R$ 35 milhões de Vorcaro e posteriormente transferiu a totalidade de seus ativos para uma empresa offshore registrada nas Ilhas Virgens Britânicas.
No relatório, a PF afirma ter identificado elementos que, analisados em conjunto, poderiam indicar que Toffoli teria figurado como beneficiário final ou proprietário de fato do FIP Arleen e de seus ativos.
A investigação também analisou mensagens relacionadas aos pagamentos. Em maio de 2024, Vorcaro teria questionado Fabiano Zettel, seu cunhado e participante das negociações envolvendo o empreendimento, sobre um aporte destinado ao Tayayá.
Segundo o relatório, o então banqueiro demonstrou preocupação com o atraso e afirmou estar em uma situação desfavorável. Meses depois, em agosto, voltou a cobrar informações sobre a transferência dos recursos.
Após receber a confirmação de que o dinheiro havia sido encaminhado a um intermediário, Vorcaro teria questionado onde estavam os valores. Zettel respondeu que os recursos se encontravam no fundo proprietário do Tayayá.
Na sequência, Vorcaro solicitou um levantamento dos aportes já realizados. Zettel informou que R$ 20 milhões haviam sido pagos anteriormente e outros R$ 15 milhões naquele momento, totalizando os R$ 35 milhões citados pela Polícia Federal.
O documento também levanta questionamentos sobre a atuação de Toffoli em um julgamento relacionado a precatórios de uma usina do setor sucroalcooleiro.
Segundo a piauí, os investigadores registraram que o ministro alterou seu voto durante o julgamento e recomendaram um “aprofundamento analítico” para verificar se teria existido alguma influência de Vorcaro sobre a mudança de posicionamento.
A questão chamou a atenção da PF porque o Banco Master mantinha mais de R$ 10 bilhões em precatórios ligados ao setor sucroalcooleiro.
O relatório sobre Toffoli também foi comparado pela publicação com outro documento produzido pela PF sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Vorcaro. Segundo a reportagem, os dois relatórios analisam episódios semelhantes, mas atribuem pesos diferentes a determinados acontecimentos.
Entre os episódios está uma viagem a Londres e uma degustação de uísque que teria custado R$ 3,3 milhões. No documento relacionado a Toffoli, o caso teria recebido tratamento secundário, enquanto no relatório sobre Moraes o episódio ganhou maior destaque.
A diferença na abordagem levantou questionamentos sobre a condução das investigações pelo ministro André Mendonça, que tornou público o relatório envolvendo Moraes, enquanto o documento relacionado a Toffoli permaneceu sob sigilo.
O relatório também cita a relação de Vorcaro com Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações durante o governo Jair Bolsonaro. Conforme a publicação, Faria teria atuado como intermediário e lobista do banqueiro, além de organizar eventos privados para ele.
As informações integram a investigação sobre as relações financeiras e pessoais de Vorcaro com integrantes do Judiciário e do meio político.
O documento, contudo, não afirma como fato consumado que Toffoli seja proprietário do FIP Arleen ou que tenha recebido diretamente os R$ 35 milhões. A própria Polícia Federal trata a possibilidade de o ministro ser “beneficiário final” ou “proprietário de fato” como uma hipótese investigativa baseada nos elementos reunidos durante a apuração.
Foto: Gustavo Moreno/STF



