

Os cinco candidatos à Presidência da República mais bem colocados nas pesquisas de intenção de voto apresentaram propostas diferentes para a política externa brasileira nas eleições de 2026. Os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) dedicam capítulos ao tema e mostram visões distintas sobre a relação do Brasil com Estados Unidos, China, países asiáticos, Mercosul e Brics.
Apesar das diferenças, há um ponto de convergência entre os programas: a intenção de ampliar mercados para produtos brasileiros, atrair investimentos estrangeiros e diversificar parceiros comerciais. A principal divergência está na definição de quais países e blocos devem ocupar posição estratégica na política externa brasileira.
O presidente Lula propõe ampliar e diversificar as relações comerciais do Brasil, com aproximação de países da África, Ásia, Oriente Médio e Europa. O programa também prevê o aprofundamento das relações com o Brics e o G20.
Na visão apresentada pelo candidato, o Brasil deve manter uma política externa autônoma e ampliar sua participação nas discussões internacionais. O plano também defende reformas no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) e na Organização Mundial do Comércio (OMC), buscando aumentar a influência brasileira nos organismos multilaterais.
O programa de Lula também dá destaque ao conceito de soberania. Segundo levantamento recente, o termo aparece 42 vezes no documento apresentado para 2026, contra 22 menções no programa de 2022. A estratégia está relacionada à defesa da autonomia brasileira diante das grandes potências e à utilização da política externa como instrumento de desenvolvimento.
Flávio Bolsonaro defende uma política de maior abertura comercial, especialmente para bens de capital, tecnologia e insumos. O plano prevê a ampliação de acordos comerciais e a busca por novos mercados.
Entre as propostas está a adesão do Brasil à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), além de medidas para reduzir a dependência externa em setores considerados estratégicos. O candidato também propõe ampliar a internacionalização de pequenas e médias empresas e atrair investimentos estrangeiros para projetos ligados à transição energética.
A relação com o Mercosul também aparece entre os pontos de debate. Flávio já defendeu mudanças na estrutura do bloco e criticou o que considera limitações para que o Brasil negocie diretamente acordos comerciais com outros países.
Ronaldo Caiado coloca a expansão dos mercados para produtos brasileiros entre as prioridades de sua política externa. O candidato defende a atração de investimentos internacionais e o aumento da complexidade tecnológica das exportações brasileiras.
O plano também prevê a consolidação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia e uma aproximação maior com mercados da Ásia, da África e da região do Indo-Pacífico. Outra proposta é mapear dependências externas do Brasil e diversificar os parceiros para reduzir riscos econômicos.
A estratégia apresentada por Caiado procura combinar fortalecimento do comércio regional com uma expansão das relações brasileiras para outras partes do mundo.
Renan Santos apresenta uma proposta com maior foco na América Latina. O candidato defende o fortalecimento da liderança brasileira na região e a ampliação das relações com países da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean).
O plano cita especialmente Vietnã e Filipinas como parceiros e também prevê maior integração com países de língua portuguesa, como Portugal, Angola e Moçambique.
Em relação ao Brics, Renan Santos adota uma postura mais pragmática. A proposta busca reduzir a dependência brasileira em relação à China e diminuir a exposição ao dólar. O candidato também defende que o Brasil tenha atuação como mediador de conflitos no continente africano.
Entre os cinco principais candidatos analisados, Romeu Zema apresenta a posição mais crítica em relação ao Brics. O candidato do Novo defende que o Brasil deixe o bloco e busque uma aproximação maior com países ocidentais e com nações da região do Pacífico.
Zema também propõe a entrada do Brasil na OCDE e o fortalecimento das relações dentro do Mercosul, especialmente com a Argentina. Ao mesmo tempo, defende mudanças na estrutura do bloco para torná-lo mais flexível e facilitar acordos comerciais.
O programa ainda prevê medidas para facilitar a entrada de turistas de países considerados seguros, incluindo a possibilidade de isenção de vistos.
Embora apresentem propostas diferentes, os candidatos reconhecem a importância do Mercosul para os interesses comerciais brasileiros. O bloco reúne Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia como Estados Partes e segue sendo uma das principais plataformas de integração econômica da América do Sul.
A diferença está no papel que cada candidato pretende atribuir ao Mercosul. Enquanto alguns defendem o fortalecimento da integração e de acordos conjuntos, outros propõem uma estrutura mais flexível, com maior liberdade para negociações individuais.
A relação com Estados Unidos e China é outro dos principais pontos de divergência. Os programas variam entre uma aproximação maior com Washington, a manutenção de relações estratégicas com Pequim e uma política de diversificação para evitar dependência de qualquer potência.
O debate ocorre em um cenário internacional marcado por tensões comerciais. O Brasil enfrenta atualmente tarifas impostas pelos Estados Unidos e tenta negociar uma solução, ao mesmo tempo em que mantém a China como um dos principais parceiros comerciais.
As propostas dos presidenciáveis, portanto, apontam para diferentes caminhos: Lula prioriza o multilateralismo e o fortalecimento do Brics; Flávio Bolsonaro aposta em abertura comercial e maior integração econômica; Caiado defende diversificação de mercados; Renan Santos concentra esforços na América Latina e na Asean; e Zema propõe a saída do Brics e uma aproximação maior com a OCDE e países do Pacífico.
Com isso, a política externa deverá ser um dos temas relevantes da disputa eleitoral de 2026, principalmente diante das mudanças no cenário internacional, da disputa comercial entre grandes potências e da necessidade de o Brasil ampliar mercados sem aumentar sua dependência de um único parceiro.
Foto: Montagem/g1



