

Uma cidade de cerca de 87 mil habitantes na Região Metropolitana de Natal está prestes a ganhar destaque no cenário nacional de tecnologia. Macaíba, no Rio Grande do Norte, poderá receber um dos supercomputadores mais potentes do mundo, equipamento que faz parte da estratégia do governo federal para ampliar a capacidade brasileira em inteligência artificial e computação de alto desempenho.
A confirmação da cidade como possível sede deve ocorrer durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo (PAX), nesta quinta-feira (20). A agenda está prevista para as 15h e deverá incluir anúncios relacionados a supercomputadores, inteligência artificial e soberania digital.
O PAX foi inaugurado em 2022 e está localizado a aproximadamente 27 quilômetros de Natal. A estrutura reúne empresas, startups, instituições de pesquisa e projetos ligados a áreas como saúde, neurociência, tecnologia espacial, energia, indústria 4.0 e desenvolvimento de cidades inteligentes.
A expectativa é que o complexo potiguar seja escolhido para receber um dos dois supercomputadores que o governo federal pretende adquirir dentro do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). A previsão é de que os equipamentos estejam em funcionamento a partir de 2027.
A decisão ocorre após uma avaliação técnica realizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Técnicos analisaram três áreas dentro do PAX para a possível instalação da máquina, sendo uma delas considerada preferencial.
Entre os fatores que favorecem o Rio Grande do Norte está a disponibilidade de energia de fontes renováveis. Entre 98% e 99% da matriz energética do estado é proveniente de fontes renováveis, característica considerada estratégica para uma estrutura que poderá demandar entre 10 e 15 megawatts de potência de forma contínua.
Outro ponto considerado é a localização do estado diante da expansão da infraestrutura de cabos submarinos de fibra óptica, que amplia as conexões do Brasil com outros continentes. A estrutura já existente no PAX também pesa na avaliação.
O parque tecnológico ocupa aproximadamente 50 hectares e possui cerca de 15 mil metros quadrados de área construída. Atualmente, reúne 38 empresas e startups, além de instituições voltadas à pesquisa e à formação profissional.
No mesmo complexo funciona o Instituto Santos Dumont, que administra o Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra e o Centro de Educação e Pesquisa em Saúde Anita Garibaldi. O local também abriga o Campus do Cérebro, projeto associado ao neurocientista Miguel Nicolelis.
A estrutura de Macaíba foi apontada por uma consultoria ligada ao Banco Mundial como um dos parques tecnológicos que já foram constituídos com a participação dos principais atores da chamada Tríplice Hélice: universidades, poder público e setor produtivo.
A possível chegada do supercomputador também está relacionada a outras iniciativas recentes no município. Em julho de 2026, Macaíba foi selecionada pelo Ministério das Cidades para integrar o Projeto Rede Cidades Mais Inteligentes BR, que reúne 22 municípios brasileiros.
O governo federal decidiu adquirir dois supercomputadores, em vez de apenas um, com investimento total superior a R$ 2 bilhões. Um dos equipamentos deverá ser comprado dos Estados Unidos, enquanto o segundo será desenvolvido a partir de uma encomenda tecnológica com participação da China.
A primeira máquina deverá estar entre os dez computadores mais potentes do mundo. A estrutura prevista terá potência instalada de 9,2 megawatts e capacidade para alcançar uma posição entre os computadores de maior desempenho do planeta.
Os equipamentos serão utilizados principalmente no treinamento de modelos brasileiros de inteligência artificial. O acesso deverá ser compartilhado por órgãos públicos, universidades e empresas, seguindo um modelo de governança que permita atender diferentes demandas de pesquisa e inovação.
A estratégia também prevê transferência de tecnologia em hardware e software. Outra etapa do programa envolve investimentos em processadores baseados em arquitetura aberta coordenada pela RISC-V International.
A escolha de fornecedores de diferentes países ocorre em um cenário de disputa tecnológica internacional, especialmente entre Estados Unidos e China. O governo brasileiro afirma que a cooperação internacional e a transferência de tecnologia fazem parte da estratégia para ampliar a autonomia tecnológica do país.
O Rio Grande do Norte apresentou oficialmente sua candidatura para receber o equipamento em dezembro de 2025 e reforçou a proposta em março deste ano. A documentação entregue ao governo federal contou com o apoio formal de oito instituições, entre universidades, institutos federais e representantes do setor produtivo.
Além do Rio Grande do Norte, outras áreas do país foram avaliadas para receber os equipamentos, incluindo o Rio de Janeiro e Campinas, no estado de São Paulo. A proposta do governo federal é distribuir as estruturas entre diferentes regiões brasileiras, levando em consideração também a necessidade de reduzir desigualdades regionais.
O supercomputador previsto para Macaíba, caso a escolha seja confirmada, deverá integrar uma estrutura nacional voltada ao desenvolvimento de inteligência artificial. A expectativa é que a máquina contribua para pesquisas em áreas como saúde, desenvolvimento de medicamentos, ciência, tecnologia e serviços públicos.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê investimentos de R$ 23 bilhões ao longo de quatro anos. Segundo o governo federal, R$ 14,2 bilhões já foram executados em diferentes iniciativas, incluindo ações de infraestrutura digital e processamento de dados.
O programa também contempla a formação de profissionais. Até o momento, 72 mil servidores públicos foram capacitados em temas relacionados à inteligência artificial, enquanto 202 novos cursos superiores ligados à área foram criados.
Caso a instalação em Macaíba seja oficialmente confirmada, o município passará a ocupar uma posição estratégica na infraestrutura brasileira de computação de alto desempenho. Para o Rio Grande do Norte, a chegada do equipamento também poderá fortalecer o ecossistema de ciência, tecnologia e inovação já instalado no estado.
Foto: Sandro Menezes/Assecom RN



