segunda, 27 de julho de 2026
Euro Dólar

14ª EDIÇÃO DO PRÊMIO MULHERES NEGRAS CONTAM SUAS HISTÓRIAS REÚNE LIDERANÇAS

João - 27/07/2026 08:18

O Centro Histórico de Salvador recebeu, neste sábado (25), um dos momentos mais marcantes da agenda do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Em sua 14ª edição, o Prêmio Mulheres Negras Contam Suas Histórias homenageou dez lideranças femininas com trajetórias consolidadas na cultura, na saúde, na justiça, nas comunidades tradicionais e na gestão pública.

O evento propôs um resgate reflexivo sobre o papel das mulheres negras e indígenas na formação do país. Das primeiras africanas trazidas no tráfico negreiro e submetidas ao trabalho forçado nas lavouras às lideranças que ergueram movimentos comunitários e abriram caminhos no meio acadêmico, a premiação busca preencher lacunas históricas de reconhecimento.

A idealizadora e articuladora da premiação, Mãe Diana, reforçou que a escolha do local carrega um significado de reparação simbólica. “Que trajetória bonita nós estamos fazendo. Estamos aqui resistindo e empoderando cada mulher em um espaço que, no passado, já foi mercado onde vendiam os nossos”, destacou. Em seu discurso, ela relembrou o início do projeto, há 14 anos, e homenageou figuras marcantes que acompanham a caminhada do prêmio: “O patriarcado existe, mas nos terreiros e na vida quem manda somos nós, mulheres negras e de Axé. Viva todas nós!”

As dez homenageadas desta edição refletem a diversidade de frentes em que o protagonismo feminino atua na Bahia. No campo das artes, da saúde e do direito, foram contempladas a pesquisadora artística Antonieta Ribeiro, a médica Dra. Luamorena Leoni e a juíza de direito Dra. Antonia Faleiros. A segurança pública e a comunicação contaram com o reconhecimento da aspirante a oficial da PM Layz Souza, da mestra em segurança pública Iracema Silva e da influenciadora Lucinha Negra Lu. A força comunitária, ancestral e política esteve representada pela líder comunitária Ana Caminha, pela cacica Renata Tupinambá, pela yalorixá Mãe Vera de Oxum e pela secretária de Políticas para as Mulheres, Camilla Lima Batista.

Ao discursar em nome das homenageadas de matriz comunitária, Ana Caminha, representante da comunidade tradicional de pescadores e pescadoras da Gamboa de Baixo, lembrou que o prêmio precisa ser visto no plural. “A minha vida e a de tantas lideranças é de correria o tempo todo. Essa homenagem não é só da Ana Caminha, é das ‘Anas Caminhas’, das mães, das mulheres pretas, pobres e periféricas. Entrar no Tira-Chapéu e dizer pra Salvador que este espaço também é nosso e que o Centro Antigo é do povo  é algo muito forte. Minha avó e as mulheres que me ensinaram a ter voz forte me mostraram que, diante de qualquer doutor, eu continuo sendo Ana da Gamboa de Baixo.”

A dimensão da ancestralidade indígena e do interior baiano foi trazida por Camilla Lima Batista, advogada e secretária estadual de Políticas para as Mulheres e homenageada da noite. Nascida em Delmiro Gouveia (AL), bisneta de Lampião por parte de pai e descendente do povo Xukuru-Kariri por parte de mãe, Camilla dedicou a homenagem às trabalhadoras do campo e à sua caminhada estudantil e comunitária. “Falar sobre mim é um desafio porque fui criada na coletividade, o nosso vocabulário é sempre ‘nós’. O século é das mulheres negras, indígenas, quilombolas e de fundo de pasto. 70% do alimento saudável que chega à mesa das pessoas vem da agricultura familiar, do trabalho dessas mulheres. O serviço público e a gestão de terras precisam ouvir a sociedade civil, sem burocracias travadas, para garantir o direito à demarcação e a uma vida sem violência.”

A sensação no salão era a de um espaço de acolhimento e respiro coletivo. Presente no encontro, a historiadora e ativista do movimento negro  Nairobi Aguiar ressaltou a dimensão da celebração: “Nós, mulheres negras, fomos ensinadas a vida toda a lutar e a resistir, mas muitas vezes deixamos de celebrar a nossa existência. Momentos como este servem para nos lembrar da potência que somos vivas e da importância de podermos celebrar o nosso bem-viver.”

Com o público lotado de mulheres plurais, a 14ª edição do Prêmio Mulheres Negras Contam Suas Histórias reafirmou que reconhecer e dar visibilidade a lideranças populares é uma ferramenta contínua de transformação social em Salvador.

Crédito das fotos: Umbu Comunicação/ Sobral Media

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.