

Quando eu era criança, uma das tarefas que eu tinha em minha casa, no interior da Bahia, era cuidar da lenha. Negociava com os vendedores que mercavam a carga edava preferência ao “sebastião de arruda”, mais fácil de acender e de chama mais quente. Antes de anoitecer tinha de colocar a lenha para dentro da cozinha para não molharcom a chuva, observando o ditado popular que dizia: “vai chover e não tem lenha”. A primeira vez que eu vim para Salvador observei que não se queimava lenha nos fogões, o combustível era carvão vegetal. Os caminhões de cargas-altas e leves traziam os sacos pequenos e o comércio era feito por entregadores tingidos de preto. O gás de botijão, butano, só foi surgir depois do início do funcionamento da Refinaria de Mataripe em 1950. Há quatro anos instalei no telhado da minha casa placas solares para geração de energia elétrica e já uso o forno elétrico ao invés do forno a gás. No Dia das Mães dei de presente a minha mulher uma panela de pressão elétrica. O gás está cada dia mais caro e nos força a seguir mudando de hábito.
Sabíamos de há muito tempo que a geração de energia elétrica solar só seria possível com células fotovoltaicas, mas eram muito caras o que inviabilizava o uso. Oschineses conseguiram fazê-las baratas e inundaram o mundo com as células solares. Hoje quando passo em frente a residências aqui na Capital e no interior do Estado, vejo muitas casas cobertas com as placas fotovoltaicas e a ausência das fumaças que saiam das chaminés. Não só em residências, mas também nas padarias e pequenas indústrias que consomem energiaelétrica. As mudanças não ocorreram só nas residências epequenas fábricas. A Acelen, dona da Refinaria de Mataripe, investiu R$ 500 milhões num parque solar instalado em Irecê e com algumas providências a mais está economizando 11% no consumo energético total e reduzindo substancialmente as despesas com energia elétrica. O volume de energia economizado equivale ao consumo residencial de um estado como Roraima, evidenciando a escala gigante dos ganhos operacionais alcançados. O sucesso da geração de energia solar e eólicano Nordeste foi tão grande que a energia elétrica está sobrando na região e projeta-se a construção de uma linhade transmissão especial para levar esse excesso de energia para as regiões Sul e Sudeste do País. Uma pena, com investimentos industriais poderíamos consumi-la aqui.
O excesso de energia limpa, especialmente a eólica e solar na região Nordeste do Brasil, apresenta várias oportunidades e desafios. Investir em sistemas de baterias que possam armazenar a energia gerada durante os períodos de alta produção se mostra como uma ótima oportunidade de negócio. Os custos dos investimentos na montagem das placas solares e das torres geradoras tendem a ser reduzidos com novas tecnologias. Atecnologia usada na fabricação de baterias para armazenamento acompanhará essa evolução e issopermitirá a expansão dessas instalações. O potencial dos ventos geradores que circulam a mais de 100 metros de altura é enorme e a exuberância da insolação, que antes só gerava seca e calor excessivos, é um grande predicado.
Um bom aproveitamento dessa possibilidade, de gerar muita energia, é usá-las na geração de riqueza, empregos e renda. Um dos caminhos é o seu uso em processos industriais, atraindo para a região indústrias de ponta, indústrias que consomem muita energia, as chamadas eletrointensivas. A produção de energia barata iria viabilizar a instalação de eletrosiderúrgicas, produzindo ferroligas, importante insumo da fabricação do aço. Isso certamente iria fortalecer a empresa produtora de ferro-cromo localizada em Pojuca, que enfrenta dura concorrência de fabricantes localizados na África do Sul. Talvez possa reativar a produtora de ferromanganês localizada em Simões Filho, paralisada pelo alto custo da energia elétrica, que abastecia parte do mercado da produção de aço dos Estados Unidos.
Acredito que o avanço no desenvolvimento tecnológico possa atrair novas indústrias. Lembro-me de uma grande multinacional do setor metalúrgico que queria instalar na Bahia uma unidade para fabricar barras de alumínio metálico. O projeto industrial contemplava a produção de concentrado da bauxita e a sua transformação em aluminano interior da Bahia. No entanto, a manufatura das barras de alumínio seria levada para o Paraguai, por ter energia elétrica mais barata. A empresa poderia alterar o projeto, colocando as instalações industriais perto da matéria prima, se o custo energia fosse mais em conta.
Um outro exemplo é o de uma fábrica de hidrogênio verde projetadapara Camaçari, que chegou a adquirir os eletrolisadores na Itália, mas desistiu devido ao alto custo da energia elétrica.Como esses existem outros exemplos de projetos e poderiam surgir novos. Melhor para os nordestinos se fossem construídos aqui.
Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.)