

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
A grande dor das coisas que passaram é verso de Camões e título de um poema de Drummond.
Saudade: palavra que nunca envelhece porque nomeia aquilo que em nós também não passa.
O tema tem destaque em quase todas as manifestações artísticas. Na música, na poesia, ou mesmo na crônica, esse território íntimo em que o tempo se deixa revisitar.
Vinícius de Moraes, o “Poetinha”, deu à saudade a forma de pergunta, quase um sussurro dirigido ao ausente:
“E por falar em saudade, onde anda você?
Onde anda os seus olhos que a gente não vê?
Onde anda esse corpo que me deixou morto de tanto prazer?”.
Há, nesses versos, a falta concreta – alguém que esteve e já não está, um corpo que foi presença e se tornou ausência. Aqui, a saudade é memória que arde: recordação de algo vivido, cuja intensidade persiste justamente porque se perdeu.
Em Pedaço de mim, outra obra prima da nossa MPB, Chico Buarque aprofunda essa experiência ao dar à ausência um contorno físico, quase palpável, como se o que falta tivesse peso e medida. A saudade deixa de ser apenas lembrança: torna-se matéria sensível, presença invertida. São versos muito duros, de uma beleza crua e desarmada, que definem a saudade com uma precisão quase cirúrgica:
“A saudade é o revés de um parto,
A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”.
E, no entanto, aos poucos, quase imperceptivelmente, a saudade se desloca. Já não é apenas a dor do que se foi – começa a insinuar-se como a dor do que não chegou a ser.
É aí, então, que emerge uma outra forma de ausência, mais sutil e, talvez, mais vertiginosa: a saudade do possível. Não mais aquilo que tivemos e perdemos, mas aquilo que sequer chegou a acontecer – e, ainda assim, nos habita.
Fernando Pessoa a formulou com a lucidez dos que sabem que a vida também se faz de omissões: “Fiz de mim o que não soube, e o que podia fazer de mim não o fiz”.
Aqui, a saudade já não se ancora na memória, mas na imaginação. Não é o passado que dói – é a hipótese.
A vida que ficou suspensa numa encruzilhada; a carta que não foi escrita; a palavra retida no instante decisivo; o gesto adiado até perder o seu tempo; o caso de amor interrompido quando ainda havia sentimento.
Na arte, como na vida, os caminhos se multiplicam diante de nós, mas o gesto de criar – ou viver – exige escolha. E toda escolha é, em alguma medida, renúncia. Ao fixar um rumo, abandonamos silenciosamente todos os outros. Cada decisão carrega consigo uma pequena elegia.
Assim, somos feitos não apenas do que realizamos, mas também do que deixamos em suspenso, ou, como canta Lulu Santos, somos feitos de silêncio e som. Há vidas inteiras que nos acompanham sem nunca terem sido vividas – e, ainda assim, nos moldam.
Talvez por isso essa forma de nostalgia seja a mais delicada e a mais persistente. O que se viveu se transforma com o tempo, desgasta-se, adquire contornos imprecisos. Mas o que não se viveu permanece intacto, imune à erosão dos dias.
Paradoxalmente, é nessa ausência que reside uma espécie de eternidade. O possível não vivido não envelhece nunca. Permanece guardado num território silencioso onde tudo ainda poderia ter sido.
Imagem de Denis Fedotov do Pixabay