JOSÉ MACIEL – O PROJETO CACAU 500

JOSÉ MACIEL - O PROJETO CACAU 500
No dia 15 de setembro último, assistimos uma “live” coordenada pelos engenheiros agrônomos da CEPLAC Antônio Zugaib, Geraldo Landim  e Ivan Souza, abordando o  chamado Projeto CACAU 500, que visa, entre outros objetivos, a obtenção de altos níveis de produtividade dos cacauais, de forma escalonada  até alcançar a marca de 500 arrobas por hectare (500@por ha), redução de custos unitários e aumento das receitas e da lucratividade. Outros técnicos igualmente qualificados estão também envolvidos com a iniciativa, a exemplo do engenheiro agrônomo Milton da Conceição, assessor técnico da CEPLAC. O trabalho, com objetivos ambiciosos, é muito bem  conduzido , em nível de propriedades rurais , com número de plantas por estabelecimento muitas vezes  acima de 1000 plantas (no espaçamento de 3m por 3 m, esse número equivale a cerca de  1 hectare), o que confere maior confiabilidade no que tange à extrapolação de resultados agronômicos e econômicos para áreas maiores de cultivo. Vários sistemas de produção são utilizados, contemplando em alguns casos técnicas de roçagem, adubação modular, irrigação, polinização artificial, combate às pragas e doenças apenas quando estritamente necessário, poda e rebaixamento da copa, dentre outras, além de um refinado instrumental de análise econômica, com resultados promissores em termos de produtividade, custos unitários, receitas e lucratividade.
Inicialmente, antes de apresentar um sumário dos resultados, queremos pontuar que, antes do advento da vassoura de bruxa (VB), a nossa impressão pessoal era a de que o parâmetro de 100 ou 150 @ por  hectare  era uma espécie de marca limite a ser atingida com as técnicas disponibilizadas pela CEPLAC nos anos 1970 e 1980. Quem alcançasse essa produtividade por área cultivada, realizava, a nosso juízo, uma verdadeira façanha. Como se sabe, com o advento da Vassoura de Bruxa, os níveis de produtividade da terra caíram dramaticamente, e hoje a média baiana  gira em torno de apenas 20@ por hectare, Esse trabalho muda bastante o estado de nossas expectativas e convicções.
Depois da eclosão  da VB , com seus efeitos devastadores, a CEPLAC  começou a desenvolver  tecnologias e criar clones tolerantes à Vassoura-de-Bruxa (atualmente, são disponibilizados 18 clones para uso comercial), e, desse modo, as perspectivas para a produção de cacau altamente produtivo e tolerante à doença foram paulatinamente melhorando. Segundo nos informa o artigo dos três autores do trabalho acima citados , na revista AGROTRÓPICA, de janeiro a abril deste ano, em 2005, a CEPLAC  começou a desenvolver o projeto em  tela, do cacau 500, chegando em 2017 a 700 agricultores participantes, e atualmente este contingente aumentou para cerca de 1000 participantes,
No plano da apresentação de um sumário dos resultados, é possível  visualizar numa das tabelas do estudo da mencionada revista os valores de produtividade máxima por hectare num universo de 13 produtores, com valores superiores  a 200 arrobas  por hectare em muitos casos, além de uma marca de 503 arrobas por hectare para o agricultor Marcos Melo , que lidera este ranking numa área com 1000 plantas, ou aproximadamente  um hectare, obtida numa fazenda em Canavieiras.  Este mesmo agricultor, numa parcela de 10 mil plantas, ou seja, aproximadamente  10 hectares, conseguiu obter uma produtividade  de 287 arrobas por hectare. Vários outros superaram o patamar de 200 arrobas por hectares, alguns em áreas com 4000  plantas de cacau, ou cerca de 4 hectares. É um dado expressivo  , até porque alcançado numa área de escala comercial. Afinal, 500 arrobas por hectare numa plantação de 10 hectares resultam numa colheita de  5 mil arrobas de amêndoas de cacau. Não é pouca coisa. Outros casos de sucesso de lavouras de cacau  podem ser constatados na região, a exemplo das lavouras conduzidas​​pelo engenheiro agrônomo Milton da Conceição, e daquelas da  ​​Agrícola Cantagalo, do empresário ​Ângelo Calmon  ​ de Sá, conduzidas pelo engenheiro agrônomo​Aguimael Eloi de Abreu.
Em termos de receitas , o sistema de produção mais completo (identificado como SP9, com produtividade de 500@por hectare)), aos preços  médios de  R$ 173,14   por arroba, permitiu a obtenção de uma receita bruta por hectare equivalente a R$ 86.560,00 por hectare, a um custo de R$ 26.064,60 por hectare, resultando numa receita líquida  R$ 60.495,40 por hectare. Extrapolando estes dados para uma área cultivada de  10 hectares, poderíamos ter  uma receita líquida   anual de quase R$ 605,000,00 , ou R$ 50.000,00 em base mensal. O ponto de nivelamento nesta marca  de 500 arrobas por hectare, foi de R$ 150,56@ por hectare, ou seja , a diferença entre as 500 arrobas e este valor do ponto de nivelamento dá uma ideia da dimensão do lucro , em arrobas por hectare. A obtenção de produtividade menor, digamos 100@ por hectare ,resultou num ponto de nivelamento de 62,14 arrobas por hectare  e um lucro de 38 arrobas por hectare. Conseguir uma marca de 100 arrobas por hectare não parece tarefa tão difícil, pois isso pode ser atingido , salvo engano , com uma média de 30 frutos por planta.
A despeito dos resultados até aqui animadores, não nos parece tarefa fácil replicar e estender esses modelos de renovação e produção de cacauais de alta produtividade  a um universo significativamente maior de produtores , dados o elevado nível de endividamento de parcela expressiva de produtores, os níveis de garantias exigidas pelos bancos nos novos financiamentos e a preocupante situação de esvaziamento da CEPLAC, com reduzido contingentes de pesquisadores e extensionistas , o que dificulta sobremaneira​ vencer o desafio de estimular  a adesão de um número crescente de produtores e assisti-los adequadamente. Esse preocupante cenário impõe a  necessidade de encarar e coordenar uma luta politica de convencimento de nossas lideranças politicas e empresariais  junto à ministra Tereza Cristina e ao presidente da república para recuperar a CEPLAC, e uma das ideias consistiria , por exemplo, em promover a incorporação da CEPLAC pela EMBRAPA, conforme sugestão do estimado amigo e colega Márcio Porto. Sabemos que viabilizar tal ideia não é tarefa trivial, mas a mesma deve ser tentada. Essa temática merece um debate urgente.
(1) Consultor Legislativo  e doutor  em Economia pela USP. E-MAIL: jose.macielsantos@hotmail.com