

No mundo moderno, o nível de informação é cada vez maior e o de conhecimento cada vez menor. E essa informação, ou desinformação, se multiplica no feed do Instagram e do TikTok e faz a cabeça das pessoas.
“Vivemos num mundo onde há cada vez mais informação e cada vez menos sentido”, disse o filósofo francês Jean Baudrillard. O mais irritante é que a informação é colhida nas redes sociais, sem checar sua veracidade e sem garantias de procedência. E torna-se a ferramenta para justificar os maiores disparates.
Outro dia, por exemplo, fui submetido a uma saraivada de opiniões sobre os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, todos eles oriundos de análises dos pseudos especialistas que pululam nas redes sociais.
Um dos absurdos que ouvi foi a afirmação de que o Estado iraniano era uma ditadura que surgiu apenas por causa do petróleo e que seu povo adoraria que os Estados Unidos assumissem o país como fez com a Venezuela. Santa ignorância! Que o Irã está submetido a uma ditadura teocrática violenta, que mata mulheres e massacra seu povo, é verdade. Mas é preciso saber que essa ditadura, que o povo quer tirar do poder, substituiu a ditadura violenta que foi imposta pelos Estados Unidos.
Fui instado, então, a tomar posição e dizer se estava do lado de Israel ou do Irã. A polarização é a mãe de todas as burrices! Felizmente, não fui tragado por ela e argumentei que tanto Israel quanto o Irã são povos milenares e merecem nosso respeito, independentemente dos líderes que os conduzem. E que, se Donald Trump tivesse lido pelo menos um livro no colégio, não subestimaria o Irã, um povo que já enfrentou muitas ditaduras e muitos poderosos e sempre lutou contra eles.
Basta consultar a Wikipédia ou a Inteligência Artificial, para saber que o Irã é a antiga Pérsia, uma civilização que surgiu por volta do ano 1000 a.C., quase tão antiga quanto Israel. E que, assim como os judeus, os iranianos tiveram grandes líderes como Ciro, o Grande, e Dario I, e durante milênios lutaram contra ditaduras internas e invasões externas. Ambos os povos carregam uma experiência histórica milenar e resiliente e fundaram Estados teológicos que moldaram o Ocidente e o Oriente. O povo judeu construiu uma das mais impressionantes continuidades culturais da história, sobrevivendo séculos sem território e sem Estado. A Pérsia, o atual Irã, é uma das mais duradouras continuidades políticas e territoriais já registradas.
Se Trump tivesse estudado um pouquinho mais, saberia disso e não teria subestimado o Irã e sua história milenar, que entrelaça memória, cultura e poder. Os Estados Unidos poderão jogar tantas bombas quanto forem necessárias para dizimar o Irã, mas seu povo não se submeterá, Civilizações não se medem pela força momentânea, mas por sua identidade e duração. A Pérsia atravessou séculos. Ignorá-la é repetir um erro histórico.
Publicado no jornal A Tarde em 20/03/2026
Manoel Augusto Moreno/Getty Images