

Salvador voltou ao centro do debate público sobre urbanização e meio ambiente após o IBGE apontar, no Censo 2022, que a capital baiana possui o menor índice de arborização urbana entre as capitais brasileiras. Segundo o levantamento, apenas 34,1% dos moradores vivem em vias com presença de árvores. Em meio à repercussão nas redes sociais, impulsionada por críticas a obras urbanas e expansão imobiliária, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Sustentabilidade, Resiliência, Bem-Estar e Proteção Animal (SECIS), afirma que tem intensificado políticas de rearborização e planejamento ambiental.
Em nota exclusiva enviada à redação do Bahia Econômica, a SECIS informou que a arborização urbana é tratada como pauta estratégica e vem sendo ampliada ao longo dos últimos anos. A gestão municipal afirma que mais de 130 mil árvores foram plantadas na cidade na última década, dentro de um processo gradual de recomposição da cobertura vegetal. A maior parte dos plantios ocorre durante a chamada Operação Chuva, entre março e junho, período considerado mais favorável ao desenvolvimento das mudas.
“Um dos exemplos desse processo pode ser observado na Avenida Reitor Miguel Calmon, no Vale do Canela, onde 200 mudas de pau-ferro plantadas em 2017 já ultrapassam hoje dez metros de altura, formando copas amplas que contribuem para o microclima urbano e para a qualidade ambiental da região. Situações semelhantes podem ser vistas em outros pontos da cidade, fruto de um trabalho contínuo de arborização iniciado há cerca de uma década”, diz o documento.
Divergência de leitura
Ainda segundo a secretaria, o dado do IBGE considera exclusivamente a presença de árvores nas calçadas das vias, o que “não reflete toda a cobertura vegetal da cidade”. A pasta destaca que Salvador possui mais de 30 m² de área verde por habitante, índice acima da recomendação da ONU, que sugere mínimo de 12 m² por pessoa em áreas urbanas.
A SECIS ainda ressalta que um outro levantamento, o da MapBiomas, divulgado em 2024, indica que a capital baiana é a segunda do país em percentual de área verde, com 26,2% do território coberto por vegetação, o equivalente a mais de 5,5 mil hectares.
“No Índice de Qualidade do Meio Ambiente de 2025, componente do estudo nacional Índice de Progresso Social (IPS), Salvador aparece entre os destaques positivos da Bahia, ocupando a 4ª posição entre os municípios do estado, com pontuação de 69,43, acima das médias estadual e nacional. O indicador considera critérios como áreas verdes urbanizadas, emissões de carbono, focos de calor, supressão de vegetação e vulnerabilidade climática”, revela a pasta.
Planejamento e adaptação climática
A arborização também integra as políticas de enfrentamento às mudanças climáticas em Salvador, sendo apontada pela secretaria como ferramenta para redução de temperaturas, melhoria da qualidade do ar e aumento do bem-estar urbano.
Segundo a SECIS, o município segue diretrizes estabelecidas em um plano diretor de arborização e tem buscado ampliar a participação da população, que pode indicar locais para plantio por meio de canais como o Disque Mata Atlântica.
Entre as ações destacadas pela prefeitura está a criação e requalificação de cerca de 1,5 mil praças arborizadas e a preservação de aproximadamente 26 km² de Mata Atlântica. Equipamentos como o Jardim Botânico de Salvador, o Parque Pedra de Xangô e o Centro de Interpretação da Mata Atlântica também integram a estratégia de conservação ambiental.
No campo da expansão, a principal aposta é o projeto Corredor Verde, iniciado em 2025. A iniciativa prevê a arborização de grandes avenidas com espécies nativas, conectando áreas urbanas e contribuindo para a redução de ilhas de calor e melhoria do conforto térmico. A meta é ampliar esses corredores até 2028.
Outro exemplo citado pela gestão é o plantio de 180 quaresmeiras na Avenida Dendezeiros, além de intervenções anteriores como as mudas de pau-ferro na Avenida Reitor Miguel Calmon, que hoje já formam áreas de sombreamento consolidadas.
Expansão urbana e as críticas ao desmatamento
O avanço de empreendimentos imobiliários e obras de infraestrutura tem sido um dos principais pontos de crítica levantados pela população nas redes sociais, especialmente em áreas com baixa arborização. Questionada sobre o tema, a SECIS informou que não é responsável pelos processos de licenciamento ambiental nem pelas autorizações de supressão de árvores, atribuições que cabem a outros órgãos municipais.
A secretaria destacou que sua atuação está concentrada na formulação de políticas públicas, execução de programas de plantio e estratégias de adaptação climática, além da integração do verde ao planejamento urbano.
Apesar dos dados positivos apresentados pela gestão municipal, o contraste com o índice do IBGE mantém o tema em evidência. Especialistas apontam que o desafio não está apenas na quantidade de áreas verdes totais, mas na distribuição equilibrada da arborização, especialmente nas vias urbanas mais densas.
Com o crescimento da cidade e a intensificação das obras, a discussão sobre equilíbrio entre desenvolvimento urbano e preservação ambiental deve seguir como um dos principais temas do debate público em Salvador.
Foto: Jefferson Peixoto/ Secom PMS e Divulgação