

Em um cenário de abertura gradual do setor elétrico brasileiro, o mercado livre de energia ganha cada vez mais relevância para empresas que buscam competitividade, previsibilidade de custos e sustentabilidade. Em entrevista exclusiva, a diretora da Neoenergia Comercialização, Rita Knop, analisa o avanço desse modelo no país, explica quem já pode migrar para o novo ambiente de contratação e destaca os cuidados que empresas devem ter ao escolher seus fornecedores de energia. A executiva também aborda as oportunidades estratégicas para os negócios e a visão do grupo Neoenergia sobre o futuro da comercialização de energia no Brasil e na Bahia.
Bahia Econômica – O mercado livre de energia vem crescendo no Brasil. Como a senhora avalia o estágio atual desse mercado e quais mudanças recentes ampliaram o acesso de consumidores à migração?
Rita Knop – O mercado livre no Brasil surgiu em 1995, mas começou a funcionar efetivamente em agosto de 1998. Desde então, os grandes clientes de energia tiveram a oportunidade de definir seus novos fornecedores. Depois dessa trajetória de aprendizado, chegamos ao atual momento em que todos os clientes de média e alta tensão, e que possuam faturas acima de R$ 5 mil, podem fazer essa migração. A expansão do mercado livre em 2025 mostra essa tendência. Mais de 82 mil clientes estão hoje no mercado livre, um crescimento de 41% só no ano passado.
Esse é um momento importante para decisões estratégicas, sejam de companhias maiores ou as pequenas e médias empresas. Por isso, nós, da Neoenergia, nos preparamos para apoiar essas empresas com suporte especializado que possam explicar as possibilidades ao empresário e oferecer opções sobre como conduzir esse processo sem riscos para o negócio.
BE – Hoje, quem já pode migrar para o mercado livre e quais perfis de empresas mais têm buscado essa alternativa na Bahia? Há expectativa de ampliação para novos consumidores nos próximos anos?
Rita Knop – Estamos no meio de um processo que foi iniciado em março de 2024, quando todas as empresas que possuam contas de luz acima de R$ 5 mil foram autorizadas a escolher seus fornecedores. Supermercados, varejo em geral, hospitais, restaurantes e pequenas indústrias são alguns segmentos que ingressaram no mercado livre. Esse processo vai avançar mais em novembro de 2027, quando empresas de todos os portes poderão também escolher seus fornecedores de energia. Por fim, o processo de abertura do mercado irá se completar em novembro de 2028, quando todos os consumidores (inclusive os residenciais) poderão escolher de quem compra energia. Estamos falando de empresas de diversos setores, desde supermercados, hotéis, pequenas indústrias, panificadoras e varejistas até hospitais e clínicas, entre outros, mas também de todos os 90 milhões de consumidores do sistema elétrico no Brasil. São consumidores que até agora estavam no mercado regulado, mas que estão buscando previsibilidade e redução de custos a partir da entrada no mercado livre. No entanto, é importante escolher bem a comercializadora, esse processo precisa ser bem-feito: a empresa precisa estar bem assessorada para não optar por ofertas de energia a custos irrealistas que não serão entregues. Esse é o principal alerta para este momento.
BE – Além da possível redução de custos, quais vantagens estratégicas o mercado livre oferece para as empresas em termos de previsibilidade, gestão energética e competitividade?
Rita Knop – Há diversas vantagens, incluindo a possibilidade de ter contratos que mantenham o preço da energia estável, mesmo com as oscilações típicas do mercado. A migração traz proteção contra oscilações de preços por razão hidrológicas, gera estabilidade financeira ao ter contrato de médio e longo prazo, permite planejar o fluxo de caixa e aumenta a eficiência na gestão do negócio, minimizando riscos operacionais relativos ao fornecimento de energia. A decisão, no entanto, exige planejamento e escolha criteriosa do fornecedor de energia a fim de evitar riscos. Tudo começa com um diagnóstico da realidade do cliente e para isso é preciso um atendimento personalizado, já que cada empresa tem suas peculiaridades. A entrada no mercado livre pode ser o momento adequado para a empresa rever sua estrutura energética e promover a transição para fontes limpas, reduzindo ou até eliminando a pegada de carbono. Isso pode ter um peso enorme na relação com outros clientes, sobretudo por receber um certificado internacional atestando o uso de energia de fontes renováveis, o I-REC (International Renewable Energy Certificate). Há projetos de migração que permitiram à empresa a mudança completa da matriz energética do negócio, fornecendo energia renovável para sistemas de climatização e caldeiras. A migração pode ser o motor para a revisão de processos internos e melhoria da eficiência energética. São benefícios que extrapolam a questão do custo, envolvem uma mudança mais profunda e positiva para o negócio.
BE – Quais são os principais pontos que uma empresa deve analisar antes de migrar — especialmente na escolha do fornecedor e na estrutura contratual — para evitar problemas futuros?
Rita Knop – Esse é um ponto que deve ser observado com cautela. A empresa que está contratando a energia precisa observar se a comercializadora tem, não apenas geração própria de energia, mas também robustez financeira, processo de governança e gestão de riscos, histórico de bom atendimento, capacidade de sustentar contratos em cenários de grande oscilação do mercado de energia. Ao observar tudo isso, a empresa passa a ter previsibilidade na gestão do negócio. Isso pode garantir previsibilidade na entrega da energia em momentos de instabilidade do mercado. Nem todas as comercializadoras tem geração própria. Hoje, o Brasil possui quase 500 comercializadoras de energia autorizadas pela Aneel e credenciadas na CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica), órgão que realiza a contabilidade dos contratos. Esse volume enorme de empresas abre muitas perspectivas, mas também traz o risco de ofertas irrealistas, com preços que não são factíveis. A indústria ou o varejo que deseje migrar pode, de forma inadvertida, contratar essa energia barata por longos períodos. Embora pareça uma economia em um insumo vital, há casos em que a comercializadora não consegue sustentar a oferta e quebra. Como não possui geração própria, pode não conseguir cumprir o contrato. Isso deixa o consumidor em uma situação muito complicada, pois ele terá de adquirir a energia no mercado por conta própria — ao preço do momento — para suprir o que não foi entregue. O “barato” pode custar muito caro.
BE – Muito se fala sobre riscos associados a comercializadoras sem lastro ou garantia suficiente de energia. Que tipos de problemas isso pode gerar para o consumidor e como as empresas podem se proteger?
Rita Knop – A compra de energia de uma comercializadora que após algum tempo deixa de ter capacidade de honrar o contrato pode criar problemas muito graves. A empresa sem contrato terá de buscar energia emergencialmente, o que pode gerar um preço muito maior do que o negociado anteriormente. Essa situação pode reduzir ainda mais as margens de 1%, 2% que já apertadas em alguns setores. Essa situação já ocorreu, em razão de comercializadoras que pediram recuperação judicial. Esses episódios criaram problemas financeiras severos para muitas empresas que tinham contratos com essas comercializadoras. A comercializadora precisa demonstrar práticas efetivas de governança e compliance, estrutura sólida para mitigar riscos e, sobretudo, capacidade financeira para enfrentar oscilações de mercado. Olhar atentamente para a história da comercializadora, observar a solidez, verificar se tem capacidade própria de geração são pontos que ajudam a empresa interessada a ingressar no mercado livre a fazer uma escolha mais consciente e segura. Por isso que empresas que querem entrar no mercado livre precisam sempre desconfiar de ofertas excessivamente vantajosas.
BE – Como a Neoenergia Coelba tem atuado para orientar consumidores nesse processo e qual é a visão da companhia sobre o futuro da comercialização de energia e do mercado livre na Bahia?
Rita Knop – A Neoenergia Coelba é a distribuidora que fornece energia para clientes do mercado regulado. O que estamos tratando aqui é da Neoenergia Comercializadora, que é uma operação independente e autônoma da distribuidora. Nossa orientação para quem deseja entrar no mercado livre é focar na solidez e na estrutura da companhia comercializadora. Neste momento estamos falando de empresas de média e alta tensão, que tenham contas de luz com valor acima de R$ 5 mil. Em novembro de 2027, empresas ainda menores ganharão a oportunidade de comprar energia no mercado livre. O mercado livre é uma oportunidade para o cliente ter previsibilidade dos gastos com energia. Além disso, a Neoenergia garante a entrega de energia de fonte renovável e certificada, o que permite que a empresa contratante adeque seu negócio às exigências de sustentabilidade e descarbonização. A recomendação é sempre planejar a migração com suporte especializado e ter assim uma gestão de risco mais adequada. Isso permite um plano estruturado, que pode resultar inclusive em maior eficiência energética e ganhos expressivos no médio e longo prazo, por meio de um contrato seguro.
Foto: Acervo Neoenergia



