

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Já é carnaval, está decretada a alegria geral; revogam-se as disposições em contrário.
Todo ano, quando se aproxima o carnaval, constato a força da alegria. Nesta época, nada – absolutamente nada – é capaz de desviar a determinação obstinada de um povo que busca viver intensamente esse sentimento, ainda que seja para tudo se acabar na quarta-feira.
Na nossa história, há passagem singular que bem ilustra a soberania do Reinado de Momo.
Há mais de 100 anos, o País perdia uma de suas figuras mais ilustres, José Maria da Silva Paranhos Júnior, o Barão de Rio Branco, mestre da diplomacia internacional, cuja inteligência, em diversos momentos, foi determinante para a consolidação das nossas atuais fronteiras.
O ano de 1912 se iniciaria marcado pelo tumulto, com o bombardeio do Porto da Barra, na Bahia, episódio que ensejou a renúncia do ministro Rio Branco.
Atendendo a apelo do então presidente Hermes da Fonseca, Rio Branco chegou a voltar atrás na decisão da sua renúncia, mas, no dia 05 de fevereiro, seu estado de saúde se agravou e a nação passou a viver dias de angústia e agonia, até o desfecho definitivo, com a sua morte, a 10 de fevereiro de 1912.
Em todo o País, em particular no Rio de Janeiro, a morte do Barão de Rio Branco provocou grande comoção e logo se iniciou o debate sobre possível adiamento do carnaval, programado para acontecer na semana subsequente.
Embora a República já estivesse então consolidada, a Monarquia se restabeleceu, instaurado o Reinado Provisório de Momo.
O presidente da República chegou mesmo a reconhecer a limitação de seus poderes diante da força popular, declarando: “Não tenho competência para isso. Festa do povo, é ao povo que cabe adiar ou não o carnaval (Jornal A Noite, 10/02/1912)”.
Polêmica estabelecida, o adiamento terminou acontecendo e, oficialmente, o carnaval de 1912 foi transferido para abril.
Ainda assim, o povo invadiu as ruas e festejou a alegria, homenageando Rio Branco, com o desfile espontâneo na principal via da cidade, que, a partir de tão singular episódio, passaria a se denominar Avenida Rio Branco.
Naquele ano, o Rio de Janeiro teria dois carnavais…
Alegria dobrada…
A mais justa e mais sincera homenagem que se poderia prestar a tão ilustre brasileiro….
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