

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
“Dê ao homem uma máscara e ele dirá a verdade”
Oscar Wilde, escritor, poeta e dramaturgo irlandês (1854-1900)
Timidez? Medo? Fuga? Estratégia? História de vida? Atitude política? As razões que levam escritores a recorrer a pseudônimos e heterônimos são múltiplas e, quase sempre, reveladoras. É um fenômeno que atravessa a psicologia, a história literária e a própria condição humana: a necessidade de ser outro como forma de, paradoxalmente, poder ser mais verdadeiro.
Embora os conceitos se entrelacem, são maneiras distintas de o escritor “ser outro”. No pseudônimo – forma mais comum – o autor apenas se esconde sob um nome fictício. Já no heterônimo surge um novo escritor, com personalidade e biografia próprios. Naquele, o autor se oculta, neste se multiplica.
O exemplo mais célebre dessa multiplicação é o do poeta português Fernando Pessoa, que viveu literalmente em pelo menos quatro grandes heterônimos: Alberto Caeiro (sensível), Ricardo Reis (racional), Álvaro de Campos (angustiado) e Bernardo Soares (observador). Cada um dizia o que não estava ao alcance do outro dizer.
O pseudônimo, ainda que menos radical, também produz efeitos profundos. O chileno Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto adotou o nome Pablo Neruda para driblar a oposição familiar e acabou criando, sob essa máscara, uma das vozes mais poderosas da poesia do século XX – consagrada com o Prêmio Nobel em 1971. Poucos lembram hoje o seu nome civil, o personagem literário se tornou mais real que o homem.
O mesmo ocorre com o pensador iluminista Voltaire, cujo nome de batismo é François-Marie Arouet. George Orwell, nascido Eric Arthur Blair, criou um nome que se tornou sinônimo de vigilância, distopia e lucidez política. Stendhal, na verdade Henri Beyle, e Mark Twain, Samuel Langhorne Clemens, são outros exemplos em que a máscara venceu o rosto.
Na literatura brasileira, embora se deva reconhecer raro o emprego de heterônimos, a máscara do pseudônimo foi largamente explorada – sobretudo no jornalismo e na crônica – incluindo nomes como Machado de Assis, Lima Barreto, Graciliano Ramos, José de Alencar e Carlos Drummond de Andrade. Stanislau Ponte Preta foi a persona satírica de Sérgio Porto; Artur da Távola ocultava Paulo Roberto Monteiro de Barros; Nelson Rodrigues dividiu-se entre Suzana Flag e Myrna para dar voz, sem amarras, ao universo feminino e às zonas proibidas da moral. Raquel de Queiroz, primeira mulher a entrar para a Casa de Machado de Assis, como forma de driblar o preconceito machista, se utilizou, na fase inicial
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de sua carreira, de pseudônimos masculinos. Clarice Lispector assinava Helen Palmer em colunas de receitas e conselhos de beleza – um provável jogo irônico entre a escritora da alta literatura e a máscara que a sociedade lhe permitia usar.
O que tudo isso sugere é que o nome próprio, longe de ser neutro, carrega expectativas, rótulos e censuras invisíveis. A máscara literária não é apenas fuga: é, muitas vezes, libertação. Ao trocar de nome, o escritor troca de pele. Finge ser outro para ousar dizer aquilo que não poderia dizer sendo apenas ele mesmo.
No fundo, toda grande literatura nasce desse paradoxo: para tocar a verdade, o artista precisa mentir um pouco sobre quem é.
“Sê sempre o mesmo.
Sempre outro.
Mas sempre alto.
Sempre longe.
E dentro de tudo”
Cecília Meireles