terça, 06 de janeiro de 2026
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JOSÉ MACIEL –  AUTOSSUFICIÊNCIA NO AGRO PARA ALGUNS INSUMOS

Redação - 05/01/2026 04:55

Em colunas anteriores temos defendido a autossuficiência na produção do trigo, por questões de segurança alimentar e por conta da instabilidade das fontes tradicionais de suprimento no plano mundial, especialmente após a eclosão da guerra Rússia-Ucrânia.

Ressalte-se que  não estamos advogando que o Brasil produza tudo o que aqui é consumido, até porque existem itens ou pautas para as quais não temos aptidão climática.

Na coluna de hoje, a ideia é que a autossuficiência ou redução das importações não deve se circunscrever a produtos agropecuários, mas, dadas as condições da geopolítica mundial, essa redução da dependência de importações  deva se se estender a alguns  insumos estratégicos para a operação do setor, a exemplo dos fertilizantes, segmento em que importamos volumes expressivos em relação ao nosso consumo anual.

Antes de expor a situação desse setor, cabe ressaltar que essa ideia não é nossa. Outros autores de grande calibre intelectual também a consideram oportuna.

No trabalho intitulado ” Diagnóstico e reposicionamento político e estratégico da agricultura tropical”, elaborado por Marcos Jank e uma equipe de 6 pesquisadores do  INSPER, os autores ressaltam que o sucesso da agricultura brasileira se deu por conta de investimentos continuados em pesquisa, extensão  e inovação adaptadas às condições tropicais, associados  a políticas públicas consistentes e instrumentos de financiamentos adequados. O modelo brasileiro  caracterizou-se pelo aproveitamento de economias de escala, com  maior especialização  e extensão dos módulos produtivos. A modernização produtiva , e o aumento da produtividade e da renda no campo brasileiro foram “acompanhadas de técnicas mais conservacionistas , que preservam a fertilidade dos frágeis solos tropicais”.

No final do estudo, Jank e sua equipe entendem que “a instabilidade geopolítica mundial e o aumento do protecionismo comercial, bem como a redução da eficácia da cooperação  internacional, reduzem a confiabilidade produtiva e logística de zonas fornecedoras de alimentos e insumos, o que acentua ainda mais a premência pelo suprimento próprio de alimentos e demais bens agrícolas, como têxteis e energéticos, de parte   dos países tropicais em desenvolvimento em geral”. Esse raciocínio, em nossa interpretação , dá margem  à necessidade de que se reduzam ao máximo as importações de insumos básicos empregados pelo setor agropecuário. No caso brasileiro, as importações de fertilizantes se situam em níveis muito elevados no cotejamento com a nossa demanda.

De imediato, cabe sublinhar que a  redução  das importações desse insumo por parte do Brasil é  tarefa muito mais complexa  e de prazo infinitamente maior que aquela esperada para o caso do trigo. Aqui, em 5 a 10 anos poderemos alcançar a autossuficiência na produção do cereal. A redução das importações de fertilizantes, hoje no patamar médio de cerca de  90%, poderá ser reduzida para 50% em 2050, segundo estimativas de alguns especialistas.

A dependência maior, em termos dos fertilizantes básicos NPK, reside nos fertilizantes potássicos. Atualmente, temos uma única mina operando no país, a mina de Taquari-Vassouras, em Sergipe, e que supre menos de 10% da demanda do agro nacional. Temos uma outra mina identificada, em Autazes, no Amazonas, que pode suprir pelo menos 20% de nossa demanda, mas cuja instalação tem  enfrentado inúmeros obstáculos ,  com as dificuldades nos licenciamentos ambientais, além daquelas colocadas pelo Ministério Público Federal, alegando supostos impactos ambientais e possíveis efeitos potenciais da mina sobre territórios indígenas do Povo Mura. Portanto, o início de operação desse importante projeto ainda é uma grande incógnita.

(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.  E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com

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