

Sabe, eu gosto do Natal. Não sei bem a razão, mas sinto-me feliz quando tem início os preparativos para a festa. Outro dia fiquei a indagar a mim mesmo o porquê desse sentimento, afinal é um período estranho, há muito movimento, uma certa ansiedade e gente andando de um lado para outro na azáfama das compras. Há também a azáfama das festas e aquela insuportável negociação sobre em que lugar será a comemoração da noite de Natal. Nada disso poderia me fazer feliz, pelo contrário, a confusão nas ruas, os engarrafamentos e a intolerável peregrinação nos templos do consumo deixam-me enfadado, extenuado com aquele rebuliço todo. E, no entanto, sinto-me feliz com o Natal.
Pensei, por um tempo, que esse estado de espírito tinha origem na infância, nas lembranças dos tempos de criança. Mas hoje sei que não é apenas isso. Há alguma coisa mais, algo que me faz discordar de mim mesmo e refutar a ideia de que o homem é um ser intrinsecamente mal, ou incorrigivelmente imperfeito e, portanto, fadado à tragédia. Eu sei, as pessoas continuam se matando, as guerras seguem deixando um rastro de sangue pelos países, o egoísmo generaliza-se cada vez mais na sociedade moderna e tudo isso leva a endossar e não a refutar o destino trágico da humanidade. Mas, ainda assim, há alguma coisa no Natal que recrimina minha desesperança, que repreende meu ceticismo e faz brotar alguma esperança no futuro da humanidade.
Alguém poderia supor que nesse estado de espírito está presente o “sentimento oceânico”, igual ao que o escritor Romain Rolland disse sentir, originário de uma energia religiosa, e que Freud afirma, em “O Mal Estar na Civilização”, não conseguir descobrir nele. E estaria errado, tampouco vejo em mim esse “sentimento oceânico” e sempre que confrontado com a ideia divina, respondo incontinenti que, como Einstein, creio no Deus de Espinosa.
Após muito indagar a mim mesmo de onde provém meu gosto pelo Natal, descobri que ele tem origem no seu protagonista, no personagem que a festa homenageia. A beleza do Natal está na figura de Jesus Cristo que congrega toda a esperança do ser humano em tornar-se melhor.
Mas, dirá algum descrente empedernido, pouco se sabe da origem de Jesus e o dia 25 de dezembro foi escolhido como data do seu nascimento entre os séculos III e IV D.C. no intuito de atrair fiéis e de cristianizar as festas pagãs muito populares no Império Romano.
Ora, que importância tem isso? Não importa de onde se originou ou quando nasceu Jesus Cristo. Se Ele veio dos homens, como diria Ivan Karamazov, melhor para a humanidade, pois só o fato de ter imaginado uma figura tão bela e pura de espírito, lhe dá uma grandeza que ela parece não ter e renova a nossa esperança. Se Ele veio de Deus, melhor para a humanidade, pois o Criador deu a ela seu filho, um homem de grande beleza e compreensão para guiá-la.
Publicado no jornal A Tarde em 12/12/2025