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UMA LIGAÇÃO PARA RUBEM BRAGA – SÉRGIO FARIA

Redação - 10/10/2025 09:43

“O que disse e fiz de melhor está nos grandes instantes de ternura, que são os instantes da verdade”

Rubem Braga

 

Decido reler Rubem Braga e não me canso de admirar a linguagem limpa, cristalina e pura com que ele nos brindava em suas crônicas. Abordando assuntos do dia a dia, falava de si próprio, dos amigos, da natureza e das pessoas simples, declarando, no ato de escrever, o seu grande amor à vida.

Eis, então, que me deparo com uma crônica que me impressionou de modo muito especial. Intitula-se “O novo caderno”, onde, partindo de uma tarefa banal como passar a limpo um velho caderno de nomes e endereços, ele acaba fazendo uma reflexão importante sobre a vida e as relações entre as pessoas ao longo do tempo.

O seu maior dilema estava em transferir os nomes e números para um novo caderno de endereços e telefones. Confessou ser esta uma tarefa que lhe consumia muitas energias, mas advertiu que “a fadiga não é apenas física, é também sentimental”. Referia-se à dificuldade em fazer a seleção dos nomes que mereciam passar do velho para o novo caderno.

Relatava a sua enorme angústia diante da dúvida em suprimir ou não o amigo que, embora distante, ocupou grande importância num momento passado. Da mesma forma, como esquecer um velho amor? Um velho amor merecerá sempre um lugar no caderninho, como registro pelo que foi, ainda que já não seja mais.

No texto, também havia algo sobre a diferenciação que ele fazia entre os nomes de acordo com o grau de afetividade, ou com a importância que cada um teve na sua história de vida. Assim, uns seriam registrados com honras especiais, caneta tinteiro e caligrafia cuidadosamente caprichada, enquanto outros resultariam em anotações a lápis, a letra apressada, posto que não representassem maiores esperanças de um relacionamento duradouro.

Revela, ainda, ter dado especial destaque para a anotação do nome de uma certa Joana, cujo número “hoje não sei discar sem emoção, porque ouvir sua voz é como beber um licor que pode ser venenoso” e encerra a crônica se rendendo àquela paixão cercada de mistérios:

Mas que importa a vida que se foi? Escrevo em maiúsculas – JOANA – e suspendo meu trabalho para discar seu número e lhe dizer que ela entrou de estandarte na mão, coroada de flores, no meu caderno novo”.

Termino de ler a crônica e fico pensando comigo: Rubem Braga, provavelmente, trabalhava em uma velha máquina de escrever, sem corretor de texto, sem qualquer recurso do tipo “copiar e colar”, e, tendo morrido no ano de 1990, não chegou a conviver com a verdadeira revolução tecnológica que viria logo em seguida, num grande paradoxo, simplificando e complicando nossas vidas, modificando completamente os nossos hábitos.

Ninguém mais usa o caderno de endereços e telefones, prontamente substituído pelas agendas eletrônicas, computadores portáteis e telefones celulares, cada dia com mais MB de memória para armazenamento de nossos dados pessoais.

Muito provavelmente, também ninguém mais se angustia diante da dúvida para “deletar” um amigo do passado ou mesmo para esquecer e abandonar um velho amor.

Constato tudo isso e sou tomado por uma sensação diferente. Não é nostalgia, nem saudosismo, sentimentos contra os quais o meu natural entusiasmo pela vida se encarregou de neutralizar, mas sinto uma estranha vontade de ligar para Rubem Braga.

Procuro na minha caixa de dados e não encontro o seu telefone. Impossível o diálogo, pois o velho Braga está morto e jamais soube da minha existência.

Deixo, então, estas anotações. Volto à leitura e é como se o cronista maior tivesse atendido minha ligação e, já que não nos conhecemos, ele se desembesta a falar sozinho e eu, completamente entregue ao prazer da leitura, passo a ouvir suas histórias, que não envelhecem nunca, a linguagem limpa, cristalina e pura, verdadeiras declarações de amor à vida.

 

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador

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